Poesias de Luis de Camoes Liberdade
Duas chaves
abrem a mesma porta
Claves de sol
Voz noturna-rouxinol
Migrações coloridas
Pássaros de rosas-vidas
Abre-se coração
Ouve-se a canção
Recebe a pétala
solitária na mão.
- O voo não silencia a emoção -
Despidos,
pobres bichos!
E a chuva a lhes umedecer.
Outros cantam!
Tais felicidades às avessas
parecem sorrir
risos saciados
sem sede
sem medos.
Em que reside a alegria?
Na água e milho
- Dirão eles!
E eu sem respostas
Sem cantos
Sem risos
Sisudo
cara amarrada,
Vestido!
Ainda tenho alma
- acredite –
é calma
Tem horizontes poéticos
como os tempos velhos de mim
Quanto vale a idade?
Minhas estrelas ainda
são doces pregados no céu.
O homem em águas profundas
contemplando o farol distante
sem avistar a baleia
na areia agonizante.
Se isso é saber viver
não sei o que tenho vivido.
Novas auroras anunciam outros barcos,
Mas onde estará a inocência
meiga e desinteressada de outrora?
O que há além de vida e morte?
Muito além de um caminho:
vida!
Passos ansiosos
nem sempre pensados;
Pés pesados no chão.
Viver é dádiva!
Fulminante o sol se põe
como a brisa da praia
Vive-se o instante!
Faltaram infinitos.
A vida nunca para!
Viver é ser!
Final
Uma pomba, inocente
pousa sobre um túmulo
Os corpos estão aqui,
- suponho -
Onde estarão suas almas?
Desconfiada me observa.
Estou vivo!
- Grito.
Eu fico.
Ela voa...
Busca o montanhoso
ponto do Condor
iluminado pelo sol
Vai tornar-se alma.
Pés calmos não avançam
e a estrada os vence.
Que caminhos percorrem?
Cansados levam os olhos
a ver misérias humanas
criadas pelo homem.
Um olho olha,
o outro cala.
A lágrima ...
Tão duro construir
a paz!
Repetem-se os passos
- O anexo não salvou Anne -
Nada se salva
O mundo acaba
A humanidade é a mesma.
O homem mata
tempera,
prepara e
come
E quer matar o bicho
que quer se
alimentar do homem
Quem é o bicho?
Quem é o homem?
O homem-bicho ou
o bicho-homem?
Ao final da tarde penso em um poema,
mas me lembro de que não comprei leite
e corro até a padaria
Amanhã a conta da água
e depois a da energia
e sábado tem o aluguel
E domingo tem a fome
e segunda tem a fome
e sempre tem a fome
Em um dia o dinheiro some,
o poema falece,
os olhos tristes
veem outro dia amanhecer.
Se for caminho
ei de enfrentá-lo
pois a fé dá força
para a paz reinar
Se o que eu desejo
for inalcançável
a minha crença
manter-se-á inabalável
Se faltar brilho
um céu de estrela
pintarei ligeiro
para me iluminar.
A minha mãe rezava,
malemal me lembro
O vento forte
Temporal
Frio
Chuva
Folhas perdidas...
A madeira da casa gemia
tremia em nós o anseio,
mamãe rezava;
Tenho certeza!
Raios luminosos
Insegurança escura
Mamãe tinha fé:
- Santidade,
no altar da minha saudade!
As reticências ainda dormem
nas ruínas das destruições
do tempo estupido e visceral
Antenas anônimas captam
ruídos ruidosos da rua e as
câmaras indolentes
filmam a metrópole aflita
Respingos de caos e sombras
no muro baleado – imóvel -
grafitado de aflições efêmeras
ante os trilhos do destino
Só os egos não veem os fósseis
- Não só Judas, nem só Gení –
Empáfia máfia repugnante:
quem manda pode?
Sobre o amanhã:
- Tudo é igual, nada vejo;
Pouco sinto,
nada sei
Talvez meus olhos amanheçam cheios
e meu sorriso venha a óbito
ao escutar
o grito sofrido dos homens
em brados por justiça.
Mundo ingrato!
Sou quando digo,
mas, quando dizes não,
sou mais.
Só minha voz me fala;
O que vem de outra boca
não me desperta.
Eu vivo em mim
e em mim sou.
Os que são por aí
nunca serão meus.
E quando eu sair,
sairei solitário,
sem nenhum aceno,
nenhuma despedida.
Silenciosamente invisível.
(Do livro Abstratos poéticos)
Preferi colorir meus olhos,
deixando a natureza como estava.
Não pintei caminhos,
não criei arco-íris,
não desmatei sentimentos.
O mundo ficou
Multicor:
- Porque nos meus olhos
nasceram lindas flores.
Camafeu
Nozes se abrem
(prensadas),
como olhos sonâmbulos
em altas madrugadas.
Morder os olhos,
sentir o sabor,
e degustar lentamente
semente por semente.
Depois o vento
volta e
sacode a Nogueira.
Outros olhos
brancos:
inefável Camafeu.
Dobradiças
A porta está fechada
há muito tempo.
As dobradiças rangem,
longamente.
Chove não tão forte,
mas os pés parecem afogados.
Um ventinho anuncia pausa.
Pingo isolado faz a poça tremer.
Lá dentro está seco.
O tempo deve ter agido,
mas criou mau cheiro no ambiente.
Marcas de total ausência.
O que foi sonho,
foi-se.
Foice.
As marcas estão em tudo.
Era lindo!
Findou-se
e a criação não encanta,
não é mais arte.
Voltar ao trem é inevitável:
- balança, balança, balança
e segue seu caminho, seu fluxo.
As estações se sucedem.
Sigamos.
A vida assim pede.
Ainda chove,
não há enganos.
Tudo está vivo,
só não se expressa.
Tempo
impiedoso, indigesto, implacável.
Nada desfaz, apenas afasta,
lacra e esconde a chave.
O olhar em pântanos
não brilha cintilante.
Nada voltará a ser como antes.
Cegará em instantes.
Abrem-se flores
e sucumbem rápido
os dias setembrinos.
Mas ainda se pode
dormir entre pétalas
uma saudável sesta,
no mar primaveril.
Borboletas se perfumam
inocentes e incautas
no sol florido.
Ao longe, um ruído:
- Outubro se aproxima.
Lá no alto, uma folha
balança
- bem acima-
dóceis dias.
