Poesia Felicidade Fernando Pesso
pandemia
é o contágio em massa
dos vazios de coração
enquanto uns se entregam
ao álcool
para se prevenir do vírus da dor
outros se isolam
por temer o amor
mas a pior parte
é ter que identificar
quem é quem
por trás das máscaras
"E me transformo, lentamente
na fera que se humaniza
que estridente, grita
como se um uivo, entoasse
a sua alma."
PINTE SUA ARTE NA TELA DA VIDA
Deixe nascer nova pintura na tela da vida.
Seu pano de fundo, a fundo, não tem rota definida.
A resposta na tela concentra sua energia na ida.
À sua disposição estão tons e cores.
É sua escolha pintar armas ou flores!
E cultivarás alegrias ou dores.
Pinte sua arte na tela da vida.
Sem medo de errar na cor escolhida.
O que mais dá volta no mundo, é a vida.
Esqueça o que foi e não se preocupe com o que virá.
Concentre-se no agora e sua felicidade em ti estará.
Lembre-se mais de agradecer do que reclamar.
Assim a gratidão te suplantará!
“Chamei meu passado para conversar
Separei três cadeiras para presente, futuro e passado sentar
O presente estava vazio
O futuro incerto
O passado decepcionado
Conversamos sobre a vida
Vimos o tempo voar”
“O mesmo pôr do sol de todo dia
O mesmo nascer do sol
Meus olhos os enxergam como diferentes
E todo dia vejo
O pôr do sol mais lindo da minha vida”
“O que você deixou
Só eu e você vamos saber
As palavras profundas que te disse
Só eu irei saber
Tuas mágoas largadas no chão da sala
Cabe a mim tentar te esconder
Dos meus pensamentos”
Jardim Secreto
A menina que escrevia
morava num jardim secreto
onde a flora assumia
cor e formato incerto,
mas que a menina conseguia,
com um dom muito discreto,
interpretar com todo afeto
e transformar em poesia.
"Na fluida simbiose de alguém para alguém,
não se sabe quem
perdura quando você deixa de ser você
em outros olhos."
Wesley Poison - En[Quadro]
Bela vida
Como posso descrever a vida
Ela pode ser divertida?
Ou incrivelmente bela e simples
Quais são suas definições
Muitas afeições
Quais são suas condições
Acho que já fiz muitas repetições
Quais são minhas ambições
Ou a vida é apenas uma de várias superstições
Várias aquisições
Vou aprender várias lições
Para sobreviver
E finalmente conseguir ver
Suas conquistas impossíveis de prever
Aqui acaba a vida de todos
Muitos terminam idosos
Mas eles são muitos criteriosos.
o dia exausto alimenta o corpo
com o silêncio da morte,
vamos respirando partículas
de angustias,
cada um em seu submundo
particular.
foi como se fosse um coice
quando descobriu que tinha câncer
desde então perdeu a cabeça
e se derramou pelo cais.
o poeta nem sempre
sabe o que fazer
com a inspiração
por isso há versos
que não cabem num
poema
e transformam-se
em canção.
(Ser) tão
Quando, à tarde, o sol risca o céu de encarnado
E a vida debreia seu ritmo normal
Vejo advir um ser tão bonito
Com um jeito sincero, de um povo sereno
Onde falar sorrindo é tão natural
Ser tão realista, da cerva trincada
Do banho de rio, da alma lavada
Que pede conselho e não desafina
Como sanfoneiro em festa junina
Um ser tão livre, que anseia por mais
Que nunca desiste e não volta atrás
Mas luta e persiste, pegando a estrada
Na mala um sonho, sem rumo, sem nada
Qual flecha atirada, não voltam jamais.
A solidão do poeta.
A terrível solidão do poeta,
tornou-se tão concreta que
se constituiu em um muro.
Um passarinho miúdo, imaturo
pousou e cantou suave e doce.
O poeta ouviu. Sorriu.
Quanta gentileza e beleza,
pensou em sua fortaleza,
quebrou o muro,
saiu, andando,
com o passarinho voando.
Desapareceu na alegria,
em uma bruma de poesia.
DEPRESSÃO
Se alguém pudesse ler o teu olhar
enxergaria uma neblina densa,
ventos, tornados e a tormenta imensa
que o teu sorriso insiste em disfarçar...
Se alguém tivesse o dom de mergulhar
no que tu calas, e a cabeça pensa,
descobriria a correnteza intensa
do mais revolto e perigoso mar!
E, sob o véu desta aparente calma,
veria monstros te assombrando a alma
soprando escuras nuvens do desgosto...
E entenderia todos os momentos
nos quais a chuva dos teus sentimentos
transborda o peito e escorre no teu rosto...
Bondade, segundo eu penso,
é a peça que está perdida
no quebra-cabeça imenso
que nós chamamos de “Vida”!
COVARDE
Vós que habitais a profundeza fria
de onde espalhais venenos sem alardes
e navegais a nau da hipocrisia,
e governais o reino dos covardes.
Vós que escondei-vos no final das tardes,
vinde enfrentar-me sob a luz do dia!
Eu hei de expor aquilo que ocultardes,
desmascarando a vossa covardia!
Correi covarde! Que eu já vou marchar,
fazer ruir, tremer, desmoronar
vossas muralhas cheias de mistério.
Ao confrontar a própria decadência,
vossa arrogância há de implorar clemência...
Correi covarde! É o fim do vosso império!
FILHO PRÓDIGO
Um dia resolvi ganhar a estrada...
Ardia em mim uma revolta interna,
busquei nas ruas a vida moderna,
andei sem rumo, sem rota traçada...
E em cada noite, no bar, na taberna,
uma amizade falsa era encontrada.
Fui enganado... e ao ficar sem nada
restou-me o rumo da casa paterna.
E ao encontrar, justo ao abrir a porta,
o beijo doce, o abraço que conforta,
fui entendendo, após andar demais:
Mesmo que os filhos vivam a vagar
eles somente vão chamar de “Lar”
a casa onde reside o amor dos pais!
A frase dura que escapa
da boca de muitos pais
é tão cruel quanto um tapa
e, às vezes, machuca mais...
INDECISÃO
Quero querer-te menos do que quero!
Já não desejo desejar-te assim...
Quero findar a espera que é sem fim
pois de esperar-te, enfim, me desespero.
Sinceramente, eu não fui bem sincero...
Quero querer-te e desejar-te, sim!
E se esperar, preciso for, te espero
na indecisão do amor que habita em mim.
Amor? Repulsa? Não sei bem ao certo,
pois te rejeito quando estás por perto
e te desejo quando estás ausente...
Neste meu ódio, que de amor foi feito,
vou odiando amar-te deste jeito,
e vou te amar, negando eternamente!
