Poesia Felicidade Fernando Pesso
Menina baixinha
Com o coração gigante
Porém a altura não importa
Enquanto no peito estiver o diamante
Cabelos curtos e macios
Loiros e ostensivos
Lisos, bem definidos
Realça bem com o seu sorriso
Alguns amores irei recitar
Ama a noite, festas e forrozear
Família, amigos e domar
Já falei forró, mas é bom enfatizar
Finalizo por aqui minhas bobeiras
minha baixinha querida, nunca esqueças que és a mais Linda de todo bairro Mangueira!!
A.R.
"Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma”.
( Bernardo Soares [Semi-heterônimo de Fernando Pessoa]).
— E posso saber que proveito você tira, arriscando assim a vida?
— Posso saber que proveito vocês tiram, não arriscando a sua?
A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens tiraram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica lua, vela comigo
e sonha inutilmente com a verdade das coisas.
- Noite! Deixa-nos também dormir...
"Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha". (Ode marítima)
“De tanto lidar com o sonhos,
eu mesmo me converti num sonho.
O sonho de mim mesmo”.
(Livro do desassossego - Bernardo Soares)
sonho
O sonho é ver formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.
Tu és linda tão bela,
Passos de princesa
Olhar de gaivota linda mulher que abala meus pensamentos
Por você estou com lindos sentimentos...
Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
Nem sempre terá dias bons dias ensolarados.
Mais o importante é você dormir com a fé que o dia seguinte será sempre um bom dia..
Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.
Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!
Eu poderia percorrer incontáveis quilômetros, bater em centenas de portas, trocar olhares com milhares de pessoas e mesmo assim não encontraria a felicidade;
Porém, tudo que preciso é andar poucos metros, bater em sua porta, olhar apenas no fundo dos seus olhos e encontrar assim o significado da palavra felicidade...
‘’E mesmo no silêncio, desejo estar com você, sentir seu cheiro, ouvir sua voz!
E mesmo sabendo que serei punida, eu aguardo a sua volta para poder sorrir.
Queria sentir seus lábios, proteger seus sentimentos, mas não posso mais.
Poderia arrancar sua dor e transferir para mim, e mesmo assim estaria feliz.
Tudo que penso e falo, estão ligados a você, pois um só sentimento nos representa! O amor!’’
O guardador de rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Tenho tanto sentimento.
Temos, todos que vivemos, uma vida
que é vivida e outra vida que é pensada,
e a única vida que temos
é essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada.
Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.
Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.
Fernando Pessoa, 6-1-1923
Metade
Metade de mim que ama
A outra que odeia
Ama as pessoas que estão “longes”
e odeia as que estão “perto”.
Uma metade de mim egoísta
Outra caridosa, com o
coração enorme.
Metade de mim que tem direitos
Outra não tem direito a nada.
Metade de mim revolucionária
A outra também.
Às vezes a gente viaja...
...queremos mudar o mundo.
Metade de mim feliz por viver
Outra metade triste por
não morrer.
Uma metade que luta
A outra também,
mas ambas nem sempre vence.
Metade de mim que eu não
sei o que é
A outra muito
menos ainda.
Metade de mim otimista
que acredita que o mundo possa mudar
Mas a outra pensa que isso não
tem mais jeito.
Uma metade de mim quer
uma coisa
Outra metade de mim quer outra
totalmente diferente.
Vivemos e temos que fazer tudo valer a pena
Mas apenas uma metade minha
acredita nisso,
a outra parece nem
existir.
Qualquer música, guitarra.
Viola, harmônio, realejo.
Um canto que se desgarra.
Um sonho em que nada vejo.
A chuva desce a ladeira
A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.
Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.
