Poesia Carinho Machado de Assis

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⁠Ela foi levada num dia sombrio,
com seu rosto magro, abatido,
olhos fechados, pele enrugada,
da vida triste acabaram os castigos
Acabaram tristezas, lágrimas mil,
adeus à pobreza e torturas,
nada deixara para ser chamado de seu
apenas uma bíblia de capa escura
Só conseguia viver em oração,
lendo e meditando chorosa,
levou seu segredo para o caixão
e sobre ele apenas uma rosa

⁠o único som que eu escuto
é do eco que as minhas palavras fazem,
sobre o buraco que você deixou
quando foi embora.
- eu não conseguia falar, então eu escrevi, página 14.

⁠Em meio a tantas contradições
Eis que me surge um feiticeiro
Lindo, doce, sensível, sedutor
Incrivelmente encantador
Tudo nele me fascina
Volto a ser menina
Divina, genuína
Seu grande feitiço é o da magia
Transformando assim
Todas as minhas dores
Em poesia

⁠agora
compreendo melhor
as garras dos gatos:

também eu gostaria
de esconder
punhais
por baixo
de um corpo manso

⁠a minha avó repete:

o tempo cura a ferida
mas não cura a cicatriz

e nenhum outro poema
de nenhum outro poeta
me falou tão alto ao ouvido

⁠Será?

Às vezes me pergunto
Se vou algum dia
conseguir esquecer seus olhos castanhos claros
Seu sorriso encantador
Seu perfume doce
E dos seus lábios macios?
Será que conseguirei seguir em frente?
Será que haverá um momento
em que eu me acostumarei a não a ter mais comigo?
Será que o tempo vai curar as feridas
do meu coração?
Secar as minhas lágrimas?
E deixar o que sobrou de você em mim
partir para sempre?

O tempo nos mostra
A hora de parar.
As vezes insistimos
Achando que o tempo está errado
Mas o tempo não erra.

Temos que acreditar nos sinais
Nos toques que a vida nos dá.
As vezes uma presença nos instiga a ficar
Mas os sinais mostram
É hora de parar.

Foi sempre eu, a me esquivar
Foi sempre eu, a correr de ti
Nunca tive coragem de tocar
Nunca tive coragem de te sentir

Quando o mais perto cheguei
Quase desfaleci.
Não vi nada em minha frente
Corri pra bem longe de ti.

Não se pode tocar um Deus
Ou algo assim semelhante
O que é proibido na terra
No céu te vejo distante.

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós

é claro que sei dizer palavras calmas
e amar devagar os que chegam a meu lado
e recordam o meu nome de todas as maneiras
com que ao redor da vida o foram construindo

é claro que sei inventar cantigas breves
das que à meia-noite perdem as notas mais vibrantes
quando fogem precipitadamente dos nossos bolsos


é claro que sei voltar a casa e abrir a porta
e fingir que tudo está perfeito sobre a mesa
e os objectos guardam os lugares de sempre
e eu continuo na moldura com um riso de quinze anos
tropeçando no teu ar sério quase a sair do retrato

é claro que sei passar os dedos devagar pelo teu corpo
nas noites em que chegas e dizes já não chove
como se colocasses no meu colo uma prenda de natal
e pudesses apagar a tempestade
no brevíssimo instante em que a vida se resume
aos nossos olhos tentando
acreditar que é cedo

é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono com o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis

Para amar,
Para me namorar,
Para me gostar,
Tem que gostar,
Tem que amar,
Tem que entender e ser entendido,
Tem que ter um pouco do mundo em um só sorriso,
Tem que saber aguentar as chuvas e os sols,
Tem que haver amor e amizade,
Tem e tem que haver opiniões e conversas misticas,
Tem que ter encontros de apaixonados,
Tem que haver a chama do desejo,
E a descoberta do pesadelo,
Tem que estar pronto para conhecer todas minhas faces,
Tem que ser apenas você,
Para eu poder nós reconhecer.

Um dia cheio de alegria
e ternura pra você...
e o mais importante:
a Presença de Deus
em cada minuto...

Seja luz...
Seja amor ♥️

O mundo é interessante,
Basta olhar com as lentes certas,
E se é entendido,
É apaixonante perceber que há algo maior que si,
As estrelas,
o luar,
a mágica de respirar,
É a loucura chamada humanidade.

O que se passa aí dentro?
O que houve que o deixou tão confuso sobre você mesmo?

Você tem seu universo particular, sua forma de agir, pensar.
Só não esqueça que dentro de cada um também há vida, momentos, cortes e feridas.

O calor que no teu corpo habita, em meu corpo fez breve moradia, e já não mais corresponde com tua saída vazia.
Seu toque, sua pele, seu beijo, se perderam em meio ao gracejo que a vida nos aprontou, como também por sorte e pouco tempo nos transbordou.

Mas a vida é assim, água que não deve ser desperdiçada, areia pisada, doce e marmelada, choro e ventania, água de coco e maresia, verso, prosa e poesia.

Reflexos

Vi Mariazinha
no fundo do poço.
Joana se aproxima
e joga a corda.
O mundo aplaudiu
ao ver Mariazinha
ser salva.
Mas o que Joana
queria mesmo,
era ver Mariazinha
enforcada.

A vida não tem volta.
Sobra o séquito de sombras
e uma canção trôpega
atravessada no peito:
espada, rubra espada
cravada de mau jeito.
Aqueles rapazes esbeltos
ai, estrangularam-se
nas gravatas da rotina.
Ai, crucificaram-se
no lenho das doenças.
Aqueles rapazes tão belos
não fazem mais acrobacias
nem discursos inflamados
Arrastam chinelos e redes
ruminam silêncio amargo.
Um dia fui bela, filha,
digo a surpreendê-la.
Devo provar com retratos
o que tem ar de mentira.

Áureos tempos aqueles
quando na manhãzinha goiaba
colhíamos no cerrado gabirobas
ainda vestidas de orvalho.
Pés e patas competiam no capim
pródigo de carrapichos.
Gestos elásticos ultra-rápidos
assustávamos insetos e aves.
Um séquito de suaves súditos
nos seguia em semi-adoração
nós, os príncipes daquele feudo.
Depois, o asfalto rasgou o campo.
Cogumelos de concreto brotaram.
Cresceram as crianças e a cidade.
Anãs ficaram as árvores aos pés
de edifícios colossais. Sumiram
pássaros gabirobas araçás.
Fim de passeios e piqueniques.
Só ficou a fome funda das frutas
no vão sem remissão das bocas .

Pesado é o coração
do escombro de teus sonhos
e dos mortos que em teus ombros
repousam imortais.
O amor de ontem
é cinza feita chumbo.
Cicatrizes e rugas
lavram a tua carne
de aflições temperada
e a vazante das veias
irriga-se
de subterrâneas lágrimas antigas.

Se a religião e a filosofia, e todas as outras certezas do mundo nada fazem senão me distanciar de minha própria natureza, fico com a poesia,
Que faz de mim o próprio barro confuso que sou.