Poesia Amor Clarice Lispector
Quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar. Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade.
Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e a clara tarde de verão.
Eu mal entrei em mim e assustada já quero sair. Eu descubro que estou além da voracidade. Sou um ímpeto partido no meio.
Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas – porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste.
Quando se trata de apaziguar os outros, transformo-me subitamente numa grande fonte de serenidade. E eu mesma bebo dessa fonte.
Nota: Trecho de carta para Maury Gurgel Valente, escrita em 2 de janeiro de 1942.
...MaisEu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte.
Nota: Trecho de carta para Lúcio Cardoso, escrita em 13 de julho de 1941.
...MaisEu queria fazer uma história cheia de todos os instantes, mas isso sufocava o próprio personagem. Acho mesmo que meu mal é querer ter todos os instantes.
Nota: Trecho de carta para Lúcio Cardoso, escrita em novembro de 1944.
...MaisResolvi não falar hoje em saudade, nem dar a entender “saudade” por carinhos... Senão me derramaria demais e perderia o equilíbrio que é tão necessário pelo menos para se dormir de noite.
Nota: Trecho de carta para Elisa Lispector e Tania Kaufmann, escrita em 9 de maio de 1945.
...MaisTudo o que eu tenho é a nostalgia que vem de uma vida errada, de um temperamento excessivamente sensível, de talvez uma vocação errada ou forçada etc.
Nota: Trecho de carta para Tania Kaufmann, escrita em 1 de setembro de 1945.
...MaisMeus problemas são os de uma pessoa de alma doente e não podem ser compreendidos por pessoas, graças a Deus, sãs.
Nota: Trecho de carta para Tania Kaufmann, escrita em 1 de setembro de 1945.
...MaisÀs três horas da tarde sou a mulher mais exigente do mundo. Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 19 de junho de 1946.
...MaisO problema para quem escreve é antes de tudo um problema literário – mas pergunto-lhe agora: é ainda um problema literário a falta de pés no chão ou é anterior a ele?
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 13 de outubro de 1946.
...MaisDepois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo.
Nota: Trecho de carta para Tania Kaufmann, escrita em 6 de janeiro de 1948.
...MaisFora as vezes que vi por televisão, só assisti a um jogo de futebol na vida, quero dizer, de corpo presente. Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada.
Nota: Trecho da crônica Armando Nogueira, futebol e eu, coitada.
...MaisEu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha de futuro.
Nota: Trecho da crônica Armando Nogueira, futebol e eu, coitada.
...MaisSe seu time é Botafogo, não posso perdoar que você trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória dele nem por um meu romance inteiro sobre futebol.
Nota: Trecho da crônica Armando Nogueira, futebol e eu, coitada.
...MaisUma pergunta que me fez: o que mais me importava – se a maternidade ou a literatura. O modo imediato de saber a resposta foi eu me perguntar: se tivesse que escolher uma delas, que escolheria? A resposta era simples: eu desistiria da literatura. Nem tem dúvida que como mãe sou mais importante do que como escritora.
Nota: Trecho da crônica A entrevista alegre.
...MaisSei que sou inteligente e que às vezes escondo isso para não ofender os outros com minha inteligência.
Nota: Trecho do conto A partida do trem.
...MaisDetesto que esperem por mim. Não é por delicadeza ou por medo de desapontar. É que alguém esperando por mim é um medo de não se estar só.
Fiquei de novo diante de mim, boba. Não sei o que fazer. Que sou? Realmente, não posso nem de longe escrever como escrevo. Ou deixo definitivamente de escrever ou escrevo de outro modo. Não posso ficar em arabescos. Se eu não tenho mais nada a dizer, que eu morra.
