Poemas Vinicius de Moraes Patria minha
Vai entender,hoje minha barriga dói,de tanto que eu rio,pelo mesmo motivo que um dia minha cabeça doeu,de tanto que chorei.
Sopraram muito forte em minha direção,não sabiam que minhas raízes eram seguras no chão,e minhas sementes espelhei no vento.
Sobre o muro de cacos ao meu redor,não é tão culpa minha,fizeram de cacos o meu coração,eu só os coloquei lá.
Meu trato com minha paz,foi de não perder meu tempo com gente rabugenta,minha palavra continua de pé.
O pente fino que minha mãe passava em mim quando criança,hoje continuo passando,tirando quem não soma,deixando quem interessa.
Engraçado,se veste de timidez e saí pra rua,se despe no meu quarto e,faz show íntimo fazendo minha cama de palco.
Se não valorizou os sorrisos que te abri,não volte na minha porta atrás de drama,ou te indico o cinema mais próximo.
Quando ouço os aplausos da minha chegada,olho fixamente para reconhecer,quem estava no trajeto eu quando tropecei.
Não perco meu tempo com gente imbecil contando minha versão da história,deixo o tempo contar por mim.
No banco de trás do táxi tentou segurar a minha mão, tocar meu rosto, não sabia que no outro dia me deixaria na contra mão no caminho oposto.
Depois de me deixar com a alma ferida, pense bem antes de dormir na minha porta com um papelão protegendo-se do frio.
Não é sua ausência que me causa dor, o que me causa dor é minha incapacidade de me ausentar de você.
Não pense que tento te fazer feliz, apenas junto os cacos da minha tristeza tentando encontrar um pedaço da minha felicidade.
No circo que armamos eu sou o palhaço e você o mágico, seu prazer me iludir e a minha dor te fazer rir
Eu não sei como tudo aconteceu, tampouco quando começou a acontecer. Sei apenas que minha razão, em alguns segundos, sobrepôs-se ao meu coração, e, exatamente nesse pulsar do tempo, eu decidi aceitar o que gritava aos meus olhos. Então, despi-me de você. Não somente da roupa, mas do cheiro, do toque, da voz, da ausência, da presença, enfim, fiquei nua de você. E agora é assim que vou à rua. É assim que fico sozinha, quando estou sozinha. É assim que vou à vida. Vida que um dia eu sonhei contigo, mas por motivos irrelevantes (não para mim), quase me levaram à morte. Por isso decidi viver, ainda que para isso eu saiba que pedaços desse amor continuam jogados pelas mesmas Champs-Élysées e sarjetas que costumávamos passar. Porque era assim, não era? Com você, eu ia do luxo ao lixo, da alegria à tristeza, do prazer à dor, da dor à cura, da cura à loucura, da loucura à sensatez, do céu ao inferno, mas eu ia. Simplesmente ia. Ia a qualquer lugar do mundo porque você estaria lá. Agora não quero mais ir. Agora eu quero ficar. Ficar bem aqui, quietinha, enquanto lá se vão nossos planos, enquanto lá se vai a minha antiga pele, aquela que você tocou. Pouco a pouco também lá se vai a sua imagem se esvaindo da minha mente, juntando-se a esse amor espalhado por aí, quebrado, maltratado e perdido em vias que não se cruzam mais. Amor que eu não quero mais sentir, embora não tenha desistido de amar alguém que não me obrigue a atirar pela janela lembranças de amor na solitária tentativa de me fazer inteira mais uma vez.
