Poemas Vinicius de Moraes Patria minha
Minha mente é uma máquina que não perdoa, funciona em silêncio, mas nunca repousa. Arquiva dores com precisão cirúrgica, como se cada ferida fosse sagrada. Não esquece, não apaga, apenas acumula. Faz da mágoa um mapa, do trauma, um relicário. E cada lembrança mal curada vira engrenagem, girando sem fim no escuro.
O fulgor do teu olhar incendeia minha alma, e rendido a ti, desvencilho-me do tempo, tornando-me criança outra vez, entregue ao espanto da descoberta.
Passou pela minha mente,pelo meu coração,pela minha frente,pela minha rua,e não ficou na minha vida.
Quando minha imaginação te encontra a gente se esconde dentro do outro,depois você vai embora me deixa sem roupas descoberto, e no bater da porta acordo e te perco.
Se reparar meus chinelos gastos,e meus pés empoeirados,repare também a minha vontade onde quero chegar.
Não, não é a minha cor que responde por mim, não é meu cabelo, não é meu tamanho, não é minhas medidas, não é de onde eu vim, é meu caráter, meus princípios e minhas atitudes.
Eu poderia escancarar algumas verdades olho no olho, mas prefiro deixar minha ausência responder que mentiras contadas são tapas sobre a máscara que mais dias menos dias ela cai.
Se você sentir minha língua em outras línguas,se eu estiver de olhos fechados, estou evitando que meu olhar seja legendado.
Se souber ler em braile vai descobrir porque fujo tanto,minha pele tem mensagens deixadas por quem se foi.
Ainda que ousem calar minha voz, a minha mente barulhenta protestará,e minhas mãos inquietas escreverão verdades nos muros do tempo.
Me chamam de rebelde, só porque me rebelo contra o que ameaça tirar minha essência, ou minha existência.
Vai entender,hoje minha barriga dói,de tanto que eu rio,pelo mesmo motivo que um dia minha cabeça doeu,de tanto que chorei.
Sopraram muito forte em minha direção,não sabiam que minhas raízes eram seguras no chão,e minhas sementes espelhei no vento.
Sobre o muro de cacos ao meu redor,não é tão culpa minha,fizeram de cacos o meu coração,eu só os coloquei lá.
Meu trato com minha paz,foi de não perder meu tempo com gente rabugenta,minha palavra continua de pé.
