Poemas Vinicius de Moraes Patria minha
Suportaria eu um só dia sem esta caridade de minha loucura que, diariamente, me promete o Juízo Final para o dia seguinte?
O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até à morte.
O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.
Minha avidez de agonias me fez morrer tantas vezes que me parece indecente abusar ainda de um cadáver do qual já não posso extrair nada.
Minha ideia de escritor é alguém que escreve. Que se senta a uma máquina de escrever e derrama palavras. Isso parece ser a essência. Não ensinar aos outros como fazer isso, não participar de seminários, não ler para a multidão faminta.
Não estou aqui para salvar o Povo, estou aqui para salvar minha própria pele covarde.
Meus dias, meus anos, minha vida viram altos e baixos, luz e trevas. Se eu escrevesse apenas e continuamente sobre a “luz” e nunca mencionasse o outro lado, então como artista eu seria um mentiroso.
Embora eu seja senhor da minha vida, há alguém que está mais longe, que já chegou aonde eu só desconfio. Seguindo por esse caminho do desconhecimento, nem sei se chegarei há algum lugar, só vendo.
Eu vi uma nuvem branca e uma nuvem negra no céu. Ambas eram belas e mereciam a minha atenção. Quando eu as enxerguei com cuidado, a nuvem branca escureceu-se e a nuvem negra clareou-se.
Os fatos, as palavras da história da minha vida, são apenas repetições sem sentido quando percebidos isoladamente. O tempo é uma narração, uma sequência, que só pode ser apreciada no seu conjunto. A montagem desta consciência é falha porque eu fui aprendendo a construí-la enquanto a fazia. As repetições são ilusórias, e eu posso, com elas, a aprender a não me enganar.
Desde tempos remotos, tempos que minha memória não consegue alcançar, meu coração já esperava pelo seu.
Me fure, atire em mim, me chute, corte minha cabeça, só não me peça pra ficar nesse mundo por nem mais um segundo.
Às vezes me pego pensando em como seria minha vida se tivesse feito diferentes escolhas... Acho que esses pensamentos estão começando a tomar conta do meu dia a dia. Eu já não me sinto mais vivendo o agora. Sinto que o que eu vivo é uma escolha errada que tomei anos atrás e agora já não tem mais volta. Às vezes quando eu sonho me sinto em uma de minhas boas escolhas, e, ao acordar, volto na realidade dessa "escolha errada"... Sei lá, já não sei o que fazer.
Meus estimulantes existem para me tornar produtivo, para emprestar importância à minha existência dentro do seu cronometrado tempo de efeito. Ao fim da dose de dopamina, resta a carcaça real do meu ser — um empilhado de nada.
No ápice, entrego o que planejei; fora dele, sigo de onde nunca saí. O ponto exato em que parei é onde aceitei que sempre estarei. E já não sinto esperança na mudança. Mas fiquem tranquilos: amanhã estarei produtivo de novo, em mais um pico da "melhor" parte de mim. Ou do que essa droga inventa de mim.
sou o que é possível ser feita de retalhos que costuro com os melhores tecidos de minha trajetória 🌄
Foi minha própria família que me ensinou uma verdade cruel: às vezes o mundo lá fora parece menos pesado do que aquilo que a gente é obrigado a suportar dentro de casa.
1964, o ano de minha eclosão: abriu-se uma fenda no tempo sob o magnetismo de seis eclipses e o alinhamento cósmico de quatro mistérios solares e dois segredos lunares.
Reno Fioraso
