Marlon
A vida é arquitetada para nos vender uma ilusão: a de que somos os protagonistas, os mestres no controle de nosso próprio destino. Mas a verdade nua e crua é que o controle pertence, unicamente, a quem tem dinheiro.
Para o resto de nós, a agência é uma farsa. Não temos poder real de escolha, não temos voz, não temos um lugar de fala que seja verdadeiramente ouvido. Nossa função no sistema é simples e brutal: existir, crescer e, acima de tudo, enriquecer uma minoria que monopoliza a vida que todos nós desejaríamos — ou melhor, que todos teríamos o direito de viver.
E, como insulto final, somos forçados a engolir o consolo barato de que "amanhã será um novo dia". Que mentira. Nunca há um novo dia. Há apenas uma nova data no calendário para repetirmos o mesmo ciclo exaustivo, enquanto nos iludimos com a sensação de avanço ao adquirir coisas supérfluas, conquistas vazias que não preenchem absolutamente nada.
Esses pequenos prazeres materiais, que nos oferecem um alívio fugaz, logo revelam sua total inutilidade. Então, em um raro momento de clareza, a verdade nos atinge como um soco: todo o dinheiro gasto nessas distrações deveria ter sido guardado para uma fuga. Para um destino desconhecido, um lugar para, finalmente, ESFRIAR a cabeça e talvez sentir, nem que seja por um único e miserável instante, a brisa do que a vida de verdade poderia ser.
O que muitos vêem como avanço, subir um degrau, "crescer" na carreira... Para mim é mais uma icógnita... Sinto que a cada avanço estou a um passo a menos para o NADA. Não sinto que estou saindo de um lugar para alcançar algo, muito menos chegar a algum fim. Sinto que só estou descendo uma ladeira, acompanhando a inclinação e a gravidade... Uma hora eu vou cair, a queda parece inevitável... Não acredito mais que vou atingir o meu "sonhado sucesso"... Acho que nunca acreditei.
Meus estimulantes existem para me tornar produtivo, para emprestar importância à minha existência dentro do seu cronometrado tempo de efeito. Ao fim da dose de dopamina, resta a carcaça real do meu ser — um empilhado de nada.
No ápice, entrego o que planejei; fora dele, sigo de onde nunca saí. O ponto exato em que parei é onde aceitei que sempre estarei. E já não sinto esperança na mudança. Mas fiquem tranquilos: amanhã estarei produtivo de novo, em mais um pico da "melhor" parte de mim. Ou do que essa droga inventa de mim.
