Poemas Vinicius de Moraes de Mar

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*"Minha Sesta"*

Na minha sesta do almoço,
olho pra cesta de frutas
e vejo você a me espiar.

Cajamanga aqui da horta, maçã vermelha,
uva em cacho fazendo fofoca...
e no meio delas você.
Com essa cara de "tô te olhando".

E ainda nem é sexta.
Nem tem desculpa pra beber.
Nem tem motivo pra sonhar com você.

Mas aí tá você,
na fruteira da minha cozinha,
me tirando do sério às 12h02
de uma segunda-feira qualquer.
(Saul Beleza)

*"Única Realidade"*

A única realidade que eu tenho na minha vida
é sonhar com você.

Te querendo sem que você saiba.
Perdendo você sem eu saber.

É viver em dois lugares ao mesmo tempo:
acordado, onde você não tá.
dormindo, onde você é minha.

E o pior?
Acordar é perder.
Dormir é esperar para perder de novo.

É um loop que só eu conheço a senha.
Um amor que não tem testemunhas.
Só eu, você na minha cabeça,
e o silêncio depois que o sonho acaba.
(Saul Beleza)

*"Muitos e muitos anos"*
Quando a pessoa esteve tanto tempo na sua vida
o corpo até esquece que ela não tá mais aqui.
A mão procura no lugar errado.
A música toca e o peito responde antes da cabeça.
A cidade inteira vira lembrança.

E o pior é que não é só saudade de quem a pessoa era.
É saudade de quem você era com ela.
De todos os anos que viraram rotina, risada, briga boba, silêncio confortável.

Dói porque foi longo.
Dói porque foi raiz.
E raiz quando arranca, leva um pedaço da terra junto.
(Saul Beleza)

*"SAUDADE"*
(Saul Beleza)

Gente, hoje me bateu uma saudade...
Mas não é aquela saudadezinha romântica de filme, sabe?
Não. Me bateu uma saudade VIOLENTA.

Aquela que chega igual boleto vencido.
Sem avisar. 22h numa terça-feira.
Você tá de boa, comendo arroz, e do nada: PÁ!

Porque a pessoa esteve na sua vida por MUITOS e MUITOS anos.
Quando é pouco tempo, ok. Você esquece.
"Ah, foi só um verão".
Mas quando é muito tempo... meu irmão, o corpo vira HD externo.

Eu vou no mercado e meu cérebro:
"Compra aquele iogurte que ela gostava".
Mano, ela nem mora mais aqui!
Eu tô comprando iogurte pra fantasma.

E o pior é a playlist.
Toca uma música e na hora meu corpo já sabe a coreografia da saudade.
O peito faz "tum".
O olho faz "brilha".
E a dignidade faz "some".

Aí você tenta explicar pra alguém:
"Ah é que eu sinto falta..."
Falta do quê, Saul?
Falta de tudo! Falta do café que ela fazia ruim.
Falta da briga por causa de toalha molhada na cama.
Falta até do silêncio que era confortável.

Porque quando a pessoa fica MUITOS anos,
ela vira móvel da sua casa.
Você não repara até mudar de casa e perceber:
"Caramba, aqui tá vazio. Cadê o sofá?"

E o Google ainda ajuda, né?
Você digita só a primeira letra do nome e ele já completa.
Obrigado Google. Queria esquecer, mas você tá aí lembrando.

Saudade violenta é isso.
Não é que você quer voltar.
É que você queria que ela tivesse visto você hoje.
Só pra contar uma besteira.
Só pra dizer: "olha que idiota que eu sou".

E no fim... a gente ri.
Porque chorar todo dia dá espinha.
E porque se foi tanto tempo,
foi porque em algum momento valeu MUITO a pena.

Obrigado, gente. Boa noite. E se bater saudade aí, bebe água. Ajuda em nada, mas hidrata.

*Se ela vai e volta...*
O problema não tá só nela. Nem só em você.
Tá na dança que os dois criaram.

Ela volta porque sabe que tem porta aberta.
Você aceita porque a saudade violenta grita mais alto que o orgulho.

É igual tomada e fio desencapado.
Um dá o choque, o outro encosta de novo.

*Quem tá errado?*
Ela, por brincar de vai e vem com sentimento que não é brinquedo.
Você, por confundir "voltar" com "ficar".
E os dois, por achar que tempo junto apaga padrão repetido.

O pior não é ela ir.
O pior é ela voltar e você fingir que dessa vez vai ser diferente.
E o pior do pior é você já saber que não vai.

Amor não é teste de resistência, meu irmão.
Se virou vai-e-volta, virou elástico.
E elástico estica, estica... até arrebentar na cara de alguém.

A real é: o problema tá em quem não escolhe de vez.
Ficar ou ir. Amar ou soltar.
Esse meio-termo mata os dois devagar.

E eu te pergunto de verdade:
Quando ela volta, ela volta pra somar... ou volta só pra você não esquecer ela?
(Saul Beleza)

*O VAI-E-VOLTA"
*(Saul Beleza)*


Gente, vocês já ficaram com alguém que é igual ônibus?
Ela vai... ela volta... ela vai... ela volta...
E você lá no ponto. De guarda-chuva. Na chuva. Há 3 anos.


Aí um dia você se pergunta:
"Quem é o problema aqui? Ela que volta... ou eu que deixo?"


Mano, é os dois.
Ela é o problema que volta.
E eu sou o problema que abre a porta.


Ela vai e volta igual controle de TV com pilha fraca.
Some 2 semanas, do nada: "Oi sumido"
Mano, sumido nada. Eu tava aqui. Você que tava na Disney.


E eu aceito.
Por quê? Porque saudade é igual cachaça ruim.
Você sabe que vai dar dor de cabeça amanhã,
mas na hora você bebe e grita: "VEM MAIS UMA!"


Aí ela volta, a gente finge que é recomeço.
É recomeço nada. É Ctrl+C, Ctrl+V.
Mesma briga, mesma maquiagem, mesma promessa de "agora vai".


Sabe qual é a diferença entre vai-e-volta e relacionamento?
No relacionamento tem futuro.
No vai-e-volta só tem retorno.


E o pior é que a gente vira especialista.
"Ah, ela vai voltar na terça"
"Não, volta depois do feriado, que ela sempre volta depois do feriado"
Irmão, você virou meteorologista de ex.


Se ela se vai e logo volta...
O problema tá nela que não sabe ficar.
E tá em mim que não sei soltar.
E tá nos dois que transformaram amor em elástico.


E elástico, gente... uma hora estoura.
E quando estoura, bate na cara.
E dói. Mas pelo menos para de esticar.


Obrigado, gente! Se seu ex te mandou "oi" hoje,
responde com "tô ocupado".
Ocupado nada, estou aqui, oi sumido!

*PORTA ENCOSTADA*

O endereço é o mesmo,
só que o tempo apagou o número.
A vaga na garagem é sua,
mas o carro já não estaciona.

A porta está apenas encostada, por convite, e
por faltar coragem de trancar.

Na cama,
teu travesseiro ainda tem teu cheiro,
eu ainda não lavei,
não foi por preguiça,
foi pra não esquecer que você existiu aqui.

Você disse que eu não tenho saudade,
que a vida me fez ser assim,
tanto faz.

Tanto faz?
Tanto faz não deixa travesseiro com cheiro.
Tanto faz não deixa porta encostada.
Tanto faz tranca, vende a casa e vai embora.

Eu não corri pros teus braços,
mas deixei teus braços morando em mim.

Se não acredita,
venha conferir.
Mas se vier,
vem pra ficar.
Porque eu já não tenho mais força
pra te ver indo embora
mais uma vez
pela mesma porta
que eu nunca fechei.
(Saul Beleza)

*PRESENTE*

O passado vai estar sempre presente,
ele não pede licença,
ele senta na cama,
ele deixa cheiro no travesseiro,
ele deixa a vaga vazia,
ele deixa a porta encostada.

Ele vai estar presente no teu riso,
quando você ri e lembra que já riu assim com alguém.
Vai estar presente no teu choro,
quando você chora e lembra que já chorou por alguém.

Mas não deixa ele dirigir.
Deixa ele no banco de trás.
Ele pode olhar a paisagem,
mas não pode tocar no volante.

Jamais deixe que ele interfira em nada,
não deixa ele escolher quem você beija hoje
com medo de quem te beijou ontem.
Não deixa ele trancar a porta
que alguém deixou encostada pra você.

Porque só assim,
só quando você para de brigar com o ontem,
o futuro te presenteia.

E ele te presenteia simples:
com um endereço novo,
uma vaga nova,
uma cama que ainda não tem cheiro,
mas tem espaço.

O passado fica,
mas o futuro...
o futuro te abraça.
(Saul Beleza)

*Estou em fuga*

Preciso fugir desse teu olhar que me prende,
desse olhar que me vê bagunçado
e mesmo assim fica.

Preciso me afrouxar desse teu abraço que me prende,
desse abraço que é cadeia,
mas é a única casa que eu tenho.

Preciso desviar desse teu caminho que me acompanha,
porque pra onde eu vou,
você já foi primeiro dentro de mim.

Preciso arrumar um jeito,
ou um pretexto,
qualquer mentira bonita,
pra não depender desse teu corpo
que não me deixa ir.

Mas como é que foge
de quem mora na fechadura?
Como é que afrouxa
o abraço que virou pele?

Como é que desvia
do caminho que virou destino?

Eu quero ir, eu juro que quero.
Mas meu corpo já decorou o teu.

E quem decora,
não esquece.
Só finge que vai.
(Saul Beleza)

*Estafeta*

Você quer algo sério?
Porque se não quer,
é melhor a gente seguir um rumo.
Não um rumo juntos.
Um rumo cada um pro seu lado.
Eu me apego fácil.
Eu já tô me apegando agora
só de escrever isso.
E isso vai me fazer mal.
Vai me fazer virar boneco de novo,
coleção, diversão.
Eu não quero ser teu quase.
Eu não quero ser teu depois a gente vê.
Então me diz agora, sem soslaio, sem arapuca:
Você quer algo sério?
Se não,
segue tua vida
que eu juro que tento seguir a minha.
Mesmo com a porta encostada.
Mesmo com teu cheiro no travesseiro.
Mesmo sendo nada pra ti.
Eu sigo.
Mas se for pra ficar,
fica direito.
Porque meu coração não sabe ficar pela metade.
Ou ele fica inteiro,
ou ele se quebra inteiro.
(Saul Beleza)

*BOLERO NUNCA MAIS*

Bolero contigo nunca mais.
Bolero é colado demais,
é promessa demais,
é peito com peito fingindo que é pra sempre.
Contigo, nunca mais.
Um tango talvez,
na hora da despedida.
Tango pode.
Tango é bonito pra quem já vai embora.
Tem drama, tem perna, tem queda,
mas todo mundo já sabe que termina quando a música acaba.
Então guarda o bolero.
Bolero é pra quem fica.
Pra gente?
Deixa o tango.
Uma última dança,
bem pisada,
sem sorriso,
sem volta.
Depois cada um pro seu lado da rua.
Sem porta encostada.
Sem travesseiro.
Só o eco do salto no salão vazio.
(Saul Beleza)

*inteira pela metade*

prefiro te imaginar rindo inteira
em outro abraço,
do que te ter aqui
pela metade.
metade não me aquece,
metade me confunde,
metade me faz ficar
onde já não estou mais.
se for pra ser minha,
que seja inteira.
se não for pra ser inteira,
que seja livre.
e que eu aprenda,
mesmo doendo,
a amar o que você se tornou
longe de mim.
(Saul Beleza)

condenado sem culpa.

que culpa ela teve
se eu não soube amar?
nenhuma.
ela veio inteira,
eu vim com medo.
ela veio com tempo,
eu já vinha atrasado.
A vida foi curta
para nós dois,
e longa demais
para o que eu não fiz.
Agora carrego
o que não dei:
o amor que ficou preso
na garganta.
e ela se foi
leve,
sem culpa.
e eu fiquei,
condenado
não por ela,
mas por mim, que não soube dizer o quanto amei.
(Saul Beleza)

janela fechada.

Como esquecer,
se toda janela que abro
dá pro mesmo lugar?
Eu fecho a cortina,
mudo de casa,
mudo de cidade,
mas o vidro me entrega.
não é o passado que me persegue,
sou eu que o plantei no futuro.
cada plano meu
tinha o teu rosto.
Eu mesmo escrevi
que te veria em todo amanhã.
agora o amanhã chegou,
e você não está,
mas o que eu criei sobre você
ainda está.
Abro a janela pra respirar,
e respiro você. Não faz mal, feche as janelas.
(Saul Beleza)

Pague o resgate


Venha me resgatar
desse inferno
que é pensar em você.


pague o preço,
questione o valor,
me julgue depois,
mas venha.


porque até esse inferno
tem gosto de céu
quando é você que me prende nele.


é tortura e abrigo,
é dor e casa,
é o lugar de onde eu quero fugir
de onde eu fico
te esperando.
(Saul Beleza)

reclamação

eu não reclamo
por não gostar de mim.

isso eu já aprendi a carregar,
já fiz as pazes com a falta.

eu reclamo
é por gostar tanto de você assim.

por esse excesso que me transborda,
que me deixa sem sobra pra mim.

se eu me gostasse um pouco mais,
ou te gostasse um pouco menos,
talvez doesse menos.

Mas eu fico aqui:
inteiro pra você, e
metade pra mim.
(Saul Beleza)

Eternamente

Não quero que esse amor seja eterno.
eterno pesa,
eterno prende,
eterno cansa até o que é bonito.
e se for pra ser eterno,
que eu morra
sem te amar de verdade.
que eu morra amando pouco,
amando torto,
amando de longe.
porque te amar de verdade e pra sempre
seria morrer todo dia
um pouco mais.
(Saul Beleza,)

Sem despedida


não me cobre uma despedida.
basta que eu suma da tua vida
sem deixar marcas,
sem barulho,
sem cena.
despedida é abandono que dói,
é palavra que corta,
é porta que bate.
eu prefiro ir
como quem nunca esteve,
do que ficar na tua memória,
como quem faz doer na hora de ir.
(Saul Beleza)

Se quiser
tem um quartinho ali nos fundos,
fique à vontade.
não é o quarto principal,
não tem vista bonita,
mas tem silêncio
e cabe alguém que não quer fazer barulho.
pode deixar suas coisas espalhadas um pouco,
pode chorar baixinho se precisar,
eu já me acostumei com visitas
que ficam pouco.
só tem outra coisa,
quando sair
arrume toda a bagunça,
aquela que você fez,
e aquela que já estava antes de você.
apague as luzes,
feche as janelas,
não deixe cheiro,
não deixe recado na geladeira.
E principalmente,
não esqueça nada,
nenhum casaco,
nenhuma desculpa,
nenhum beijo pela metade.
para que não precise
vir buscar.
porque quem volta pra buscar,
volta pra ficar,
e eu já não sei mais receber mais ninguém.
Não venha me bagunçar de novo.


(Saul Beleza)

*Para Mateus e Mariana*

sei que vocês
não cabem mais
em meus braços.

cresceram.
estão pesados de mundo
e de sonhos.

mas no meu abraço,
ah, no meu abraço
vocês se encaixam
perfeitamente.

sempre couberam.
sempre vão caber.

*(Saul Belezza )*