37 poemas sobre o tempo para pensar na passagem dos dias

O Socorro que Clama por Nossa Ação


Por muito tempo, eu vivi de braços cruzados na esperança de um milagre extraordinário. Diante das tempestades da vida, eu não ia à luta porque ficava esperando o barco passar, o helicóptero surgir do céu, o exército chegar ou que o próprio Deus descesse para resolver os meus problemas. O que a minha cegueira espiritual não me deixava perceber era que o apoio divino já havia sido enviado de tantas outras formas. A ajuda já estava ao meu redor na força dos meus braços, na clareza da minha mente e nas oportunidades diárias. Eu insistia em esperar que alguém fizesse por mim o que era da minha inteira responsabilidade. Entendi, finalmente, que Deus nos dá as ferramentas, mas somos nós que precisamos cavar o chão. A fé verdadeira não espera o resgate sentada; ela reage e corre atrás da vitória.

Ah,tempo!
Como deixei enganar me por você !
Aos dez anos pensei que seria melhor aos vinte,aos vinte,pensei que os trinta seria o ápice.
Aos quarenta ainda pensei que havia tempo,aos cinquenta o espelho retrovisor me mostrava os dez,os vinte,os trinta e as rugas.
Aos sessenta não sei se te usarei ao meu favor porque entendi que não está ao meu dispor.
O que me resta,tempo,pois passei a vida toda a te perder?


Zuzu Fontes

O Farol da Subida


​Passo a passo, sem pressa no olhar,
subo a montanha no tempo de Deus.
Há quem diga que dá pra caminhar no escuro,
mas eu preciso da luz para me achar.
​É o Criador quem acende o meu caminho,
quem faz o chão ser firme onde piso.
Se eu subo devagar, não é por cansaço,
é pra admirar a graça de cada espaço.
​Não subo sozinho, não venho do nada,
a luz do Senhor é minha morada.

A Grande Pintura


​Há noites em que a terra se cala
para o tempo ver o traço nascer.
Não é qualquer escultura que se faz:
há almas moldadas para florescer.
​Mistura-se o sopro de uma luz antiga
ao barro macio de um chão sagrado;
desenha-se a curva, a força e a pausa,
num gesto paciente e demorado.
​O olhar carrega o tom das manhãs,
o passo guarda o peso da terra;
é a criação que se fez poesia,
sem o alarde que a vida carrega.
​Assim se revela quem traz no peito
o cuidado do mestre que a desenhou:
uma presença que apenas existe,
e abençoa o mundo por onde passou.

​Muralhas de Ferro


​Erguem-se altos os muros da estrada,
Pedra usinada pelo tempo e pela dor.
A vida, às vezes, é fortaleza fechada,
Onde a esperança hesita em compor.
​Os portões são de bronze e chumbo pesado,
Com ferrolhos gigantes que ranger nos fazem temor.
E encaramos o fosso, de um lado isolado,
Perguntando se existe passagem ao amor.
​Mas até o castelo de pedra mais dura
Guarda uma fresta por onde entra a luz.
Não há ponte levadiça que dure a amargura,
Nem ferro que vença a coragem que conduz.
​Pois a mão que moldou a pesada tranca
É a mesma que aprende a encontrar a saída.
E a muralha mais alta, por mais que imponha a banca,
Cede ao passo constante de quem vive a vida.

Viva o agora! Viva-o já,
antes que o instante se dissolva
na esquina invisível do tempo,
antes que o sonho se esconda
sob a poeira dos dias.

O tempo de florescimento não se anuncia com calendários nem com relógios. Ele chega em gestos sutis: um suspiro que demora a se acomodar, um arrepio que insiste em não passar despercebido, uma palavra dita com a boca trêmula e os olhos firmes. Diante do espelho, aprendi a não correr. A gentileza que me devo não é um prêmio, é o mínimo que posso oferecer ao meu próprio reflexo. Observar-se sem pressa é um ato de coragem: enxergar a delicadeza nos ossos, a força nas veias, a poesia escondida nos gestos cotidianos.

Florescer é não se obrigar a ser mais rápido que a própria vida. É permitir que a paciência me encontre, que o respeito por mim se assente como terra fértil, que minhas raízes cresçam sem alarde. Cada dia é um capítulo, cada cicatriz, uma letra, cada sonho guardado no peito, uma semente.

Quem se respeita floresce com dignidade, quem se pressiona murcha antes do tempo. E talvez o maior ato de coragem seja sorrir para si mesmo, no espelho, sabendo que cada fissura também é parte do desenho que só você consegue completar.

No fim, florescer não é competir com ninguém. É ser inteiro em si, com toda a intensidade de uma tempestade e a suavidade de uma brisa que atravessa folhas sem derrubá-las. É aprender que a própria vida, se observada com cuidado, já é poema suficiente.

(Douglas Duarte de Almeida)

Perdoar não é esquecer, é deixar de apodrecer por dentro. Há dores que o tempo não cura, apenas decanta. O perdão não é o antídoto do veneno, é a coragem de não bebê-lo mais. É olhar para a ferida e, em vez de perguntar “por quê?”, perguntar “até quando?”.

O perdão é uma escolha sofisticada. Não por bondade, mas por lucidez. É quando a alma entende que continuar punindo o outro é continuar se amarrando na mesma corda. E há cordas que, se a gente não solta, acabam nos enforcando em silêncio.

Perdoar não é absolver o erro, é devolver o peso. É dizer: “isso foi teu, não meu”. É o ato mais elegante de liberdade.

Porque guardar rancor é carregar um corpo morto nas costas achando que é proteção. Às vezes, o perdão não vem como gesto, vem como distância. Como aquele passo que você dá pra fora da repetição, sem plateia, sem discurso, sem aviso.

Há perdões que se dão em silêncio, e há silêncios que são o perdão em estado puro. Perdoar não é voltar — é seguir. É olhar pra trás sem desejar vingança, sem querer justiça divina, sem precisar de testemunhas. É só entender que o que te feriu não merece mais residência no teu coração.

O perdão, no fim, é uma forma de amor próprio altamente evoluída — a mais discreta e, talvez, a mais revolucionária.

(Douglas Duarte de Almeida)

Leva tempo até entendermos o que é poder. No início, ele parece um lugar a ser alcançado. Um topo. Uma promessa de reconhecimento, autonomia, controle. E então nos movemos, estudamos, trabalhamos, insistimos, suportamos, com a convicção de que, ao chegar lá, algo finalmente se encaixará.

E, de fato, chega-se.

O lugar de poder existe. Ele se apresenta em forma de conquista, de posição, de nome, de autoridade. Há uma certa vertigem nesse ponto. Um brilho que, por um instante, convence.

Mas há também um detalhe que não nos contam: a coroa pesa.

No começo, quase não se percebe. Há orgulho, há prazer, há a sensação de ter valido a pena. Mas, aos poucos, ela começa a apertar. Exige manutenção, performance, constância. Cobra uma versão de nós que, nem sempre, coincide com quem ainda somos.

E é aí que algo mais profundo se revela. O verdadeiro poder não está em sustentar a coroa a qualquer custo. Está em poder retirá-la. Em perceber que nenhuma conquista vale a perda de si. Que nenhuma posição justifica o sufocamento da própria verdade. Que nenhuma forma de reconhecimento compensa o preço de viver desconectado do que nos faz inteiros.

A verdadeira liberdade talvez esteja nisso. Na possibilidade de chegar e também partir. De ocupar e também recusar. De ter sem se tornar refém do que foi conquistado. O maior poder não está no topo, mas na autonomia de não permanecer nele quando ele já não nos serve.

Porque, no fim, nenhuma coroa deveria custar a própria cabeça.

Passamos tempo demais tentando salvar versões de nós que já cumpriram seu papel. Continuamos repetindo gestos, sustentando personagens e defendendo identidades que um dia nos protegeram, mas que hoje apenas nos apertam por dentro.

Existe um luto que quase ninguém nomeia: o de deixar de ser quem aprendemos a ser para abrir espaço para quem já estamos nos tornando.

Nem toda mudança começa quando a vida muda. Às vezes, ela começa quando finalmente paramos de insistir em caber onde a nossa verdade já não respira.

Agimos como gostaríamos de ser porque, quando há tempo para pensar, escolhemos a versão de nós que queremos apresentar ao mundo. A ação comporta cálculo, linguagem, educação, desejo de reconhecimento.

Mas a reação acontece antes da diplomacia do pensamento. Ela atravessa nossas defesas e revela aquilo que ainda não conseguimos elaborar: nossas feridas, medos, ressentimentos, necessidades e modos aprendidos de nos proteger.

Por isso, não somos necessariamente aquilo que fazemos quando estamos no controle. Há algo de nós que aparece quando o controle falha.

É justamente aí que a frase se torna incômoda: nossas reações talvez não revelem quem somos por inteiro, mas revelam quem ainda somos quando não conseguimos escolher quem ser.

E talvez seja nesse intervalo, entre o impulso que nos atravessa e a resposta que aprendemos a construir, que começa o trabalho de transformar-nos.

Poema - Poesia digital


Tempo atual
Poesia digital
Sem Sedex
Apenas internet
Antes era carta
Agora, mensagem enviada
Mando na tela
Do celular dela
Vários textos
Digitados a dedo
Apenas mensagens
Sem imagem
Tudo que consigo fazer
E mando para você
É rimar o que penso
Quero, nesse momento,
Poder te amar
Não apenas ter inspiração para rimar.

O tempo
é longo,
a rasteira
dá-se
em tombo
mas em nada
meu sentir
foi desonesto.
⁠

ATÉ A ÚLTIMA LUZ.
No claustro azul da noite silenciosa,
onde o tempo sepulta antigas eras,
a alma contempla as sombras austeras
da marcha humana, trágica e grandiosa.
E, entre ruínas da jornada dolorosa,
recolhe as vozes frágeis das quimeras;
mas vence os vendavais das primaveras
com a força imortal e misteriosa.
Não é a chama efêmera da aurora,
nem o fulgor que o mundo reverencia,
mas o lume interior que a dor aflora.
É a centelha da própria consciência,
que mesmo quando a existência se evapora,
persiste além da última aparência.
Marcelo Caetano Monteiro.

Sorrateiro

Os olhos se viam felizes
Refletidos pelo espelho
Mas o tempo, sorrateiro
Envelheceu seu rosto
Ao longo de um dia inteiro

Como gotas de chuva
As noites que desabam
Sobre nossas casas,
Nossas coisas, nossas vidas

As horas correm felizes,
suaves por uma fenda
O sinal de saída, o apito do trem na curva
Hora de dormir e descansar
O brotar das uvas em novembro
Felizes idas e vindas

Pode ser que a vida seja
Não um fim em si mesma
Mas um laço indefinido, que liga
Entre futuro e passado

Uma pergunta retórica
Mesmo assim, ser respondida
Depois deixada de lado
Pra no fim, passar despercebida

Por ser o assunto indissolúvel
Questão que, de mal resolvida
A gente vai se apegando
Às alegrias passageiras
Que o tempo vai trazendo, sorrateiramente

Nada nessa mão, nada na outra também
Sorria! Você viveu mais um dia!

Edson Ricardo Paiva

"vida x azar: a gente precisa acertar o tempo todo, o azar só precisa acertar uma vez."


Edson Ricardo Paiva

Por muito tempo eu estive assim
Esperando por quem não me quis
pensei que iria ser feliz
Sem perceber, que algo não era verdade
e já havia passado do fim
E eu aguardava o dia todo pra estar
com quem não quer saber de mim
Quer saber?
Até que não foi tão ruim
A saudade
que haverá de doer depois
Se tiver que escolher um dos dois
Vai fazer como eu fiz
e querer ficar com ela
Que fugiu de viver um amor
E pela vida sem sabor de nada
Me trocou
e achou, então
Que era bom rir assim
Enquanto eu sofria
Mas eu não vou estar perto nesse dia
Quando seu peito deserto
Vai chorar de madrugada
Vai me buscar e descobrir
que eu já hei de estar feliz
vai procurar, então, os poemas que eu fiz
e que ela rasgou, de malvada que era
Sem pensar nas lágrimas que a esperam
desesperada
Vai então, nessa hora descobrir
Que ao meu lado não tem mais lugar
E que já não será para mim
Mais nada.

Criança sorridente
A alma arguta
Aproveita teu tempo
Meu anjo
Teus pedidos, Deus escuta
Perceba, não faz sentido
Abrir mão do pouco tempo
Que possuis
A querer viver depressa
A vida aqui na frente
É muito astuta
Crescer se faz premente
Se soubesses realmente
O que é a vida
Deixaria-se ficar
Pra sempre assim
Os jardins da vida adulta
Não tem flores
Parece ter
Mas você não poderá
Jamais tocá-las
Aproveita um pouco mais
A voz materna
Que te embala.

O Tempo da Recompensa


Ajustiça divina não falha e o universo nu
nca esquece o bem que plantamos em segredo. Ao longo do caminho, passamos por invernos rigorosos onde pensamos que nossos sonhos haviam morrido e que certas vitórias nunca bateriam à nossa porta. No entanto, a vida possui uma sabedoria própria e silenciosa. Chega um momento sagrado em que tudo aquilo que você plantou com amor, paciência e honestidade começa a florescer. O que parecia impossível acontece. A vida devolve cada gota de suor e cada lágrima derramada em forma de paz e colheita farta. Nada se perde quando agimos com o coração limpo.

Pode ser
Que o tempo endureça tanto
Os corações
Tão sofridos da gente
Que quando a gente não vê
Chega uma hora
Que ninguém mais chora por nada
Pode ser
Que a gente chore escondido
E até brigue com o vento
Sempre que lembrar
Que ele levou pra sempre embora
Um simples balão colorido
Mas que tanto a gente o queria
Pode ser
Que essas coisas já estivessem escritas
E sejamos nós somente
Pessoas imaginárias
Personagens de um livro bobo qualquer
Cuja capa não chega nem a ser bonita
E tudo se repete, quando alguém o quer lêr
E estejamos passando pela etapa triste
Coisas que acontecem, quando um coração acredita
Pode ser tanta coisa
Pode ser ... não sejamos nada
Ninguém sabe o que se passa
Dentro de cada coração
Atrás de cada porta, após fechada
Acho que nem mesmo nós sabemos
Assim, o balão se foi
A capa do livro desbota
Se o coração dói ou não dói
Ninguém viu e nem se importa
Assim como o vento leva
Um dia o vento traz de volta
Pode ser
Que o tempo endureça tanto esse coração
Que quando o balão voltar ...tanto faz
Poder ser
Que a gente não queira mais.

Edson Ricardo Paiva.