Poemas Serei So tua
PERAS
Agora só quero uma varanda
Um céu com estrelas e discos-voadores,
Só quero andores floridos,
Forrados com toalhas de renda
E sacros hinos reavivando a fé
Só quero o bafejar lilás
Dos deuses da poesia
E a alegria de sofrer pouco,
Só quero fingir que sou louco
E enganar psicólogos e psiquiatras,
E a mim mesmo pensado que sou normal
Quero pegar tua mão
E sentir a emoção de três décadas atrás
Falar as coisas que eu disse aos dezoito anos
Como se então os teus seios de peras
Amamentassem ainda os meus desejos...
Democracia não deu certo
Vivemos muito perto da loucura
E aquela ternura que imaginávamos
Era só uma utopia...
Esquece London London
Esquece Baby
Nevermore Alegria Alegria
Precisamos de uma Dita mais Dura
De uma Cracia mais Demo
Meu irmão Caetano onde andam
Dadda, Pinochet, Salazar e Fidel
Agora precisamos dessa gente
Pro trabalho indecente
De mandar alguém pro inferno ou pro céu...
AZUL TURQUESA
Quando era sábado eu era magro
E só tinha a ilusão incandescente de um adolescente
O céu era azul turquesa
Como as minhas poesias,
Julieta jamais morreria se eu tivesse um romance,
Mas antes, muito antes
Quando eu ainda não ousara sonhar
Eu só tinha as pipas e piões
E muitas indecisões
Eu já idealizara o olhar dos olhos dela...
Enquanto contemplava
Pássaros, borboletas e libélulas
Eu já era poeta e não sabia
E o olor de viver, o ardor de sobreviver
A dor de subviver era poesia
Eu só precisava daquele beijo
Pra perceber a abóboda azul turquesa,
Pra saber que nos sábados somos magros;
Nos domingos somos lindos
E nas segundas... nas segundas-feiras
Percebemos de quem sentimos falta...
deixa eu te olhar só mais um pouco,
ainda sei sonhar e amanhã é sexta-feira
e a minha semana não tem sábado nem domingo
a vida não pode diluir-se assim
como se fossemos abstratos,
e essa paz, essa paz que abriga agora a tua alma,
essa paz tem que ser dividida
deixa eu te olhar e assimilar esse vermelho
porque a minha paz tinha a palidez dos dias invernosos
e a frieza glacial dos polos
deixa eu te olhar, e essa manhã nos teus olhos
clarear os meus caminhos
quero ver de novo teu sorriso
e acreditar que não sonhei
não quero perder meu juizo
só porque me apaixonei
TALVEZ
eu nem te amo tanto assim
eu nem te amo tanto
eu nem te amo
talvez só um pouquinho ao amanhecer
quando um restia de sonho me induz
e depois só um pouquinho
porque ninguém é de ferro,
também preciso de carinho
preciso precisar o que preciso
talvez nem seja amor
mas se não for o que será ao entardecer
ao te querer por perto
o que será esse deserto
a te esconder de mim
o que será esse fim do mundo
ao não ter fim este querer
talvez eu ame mais a mim que a você
talvez eu queira mais
não ser amor este te amar enfim
eu nem te amo
eu nem te amo tanto
eu nem te amo tanto assim
Gosto do frio que faz ser só,
das palavras perdidas e amargas como jiló
da frieza inesperada de nunca mais
eu gosto de reminiscências
da inconsequência de amores impossíveis...
eu gosto de ficar olhando a chuva
e imaginar que os deuses choram de solidão
eu gosto de ser triste,
de imaginar-me um boneco de neve
perdido numa montanha
depois de uma avalanche...
essa rajada de vento gelada
compõe o meu espírito
eu gosto de ficar olhando o infinito
Mais que ser só e ser sozinho
Ser solitário e ter a solidão
Somente a solidão
E a noite longa
A alongar tudo que é não ter nada
Mais do que isso
É não ter nem um motivo
Pra ter motivo
Pra mudar tal situação
Ah eu nem tenho um olhar
Que olhasse,
Um olhar que falasse
Que ruidasse um ruído
Que ruísse a parede
E descortinasse um horizonte
Por mais horizontal que fosse a solidão...
Se eu tivesse a solidão
Se ao menos eu tivesse a solidão
A solidão é que me tem...
ROSA
Rosa está tão só no jardim
Que ouço seu soluçar
E bater seu coração
Como se a rosa no espinho
Arranhasse a solidão
Que arranha suas pétalas
E espetá-las assim
Com rima de verso e prosa,
Com a brisa do verão
Que acalanta a roseira
Lacrimeja no olhar
E faz de Rosa a rosa
Dos delírios a quimera,
Da estação primavera,
Das flores a mais formosa
FELINO
Subo no telhado as vezes
Só pra não esquecer que sou gato,
Mio lembranças
Só pra não esquecer que sou criança
Mio meus medos
Mas não conto meus segredos
Tomo banho de lua e de estrelas
Porque tê-las, porque contê-las
É a amplitude de um felino
Mas essa tristeza, essa perda,
Esse desatino é o meu destino
Alguma coisa entre nós aconteceu
Mesmo que não tenha acontecido coisa alguma
Alguma coisa se perdeu nessa lacuna
Reviro telhas, essa centelha ainda periga um incêndio
Não sei de tudo não sou compêndio
Sou só um bicho no teto olhando uma ave no castelo
Contemplando em silencio
O que não é bonito só por ser belo,
É ansioso não por ser aflito,
É sereno e suave não por ser passivo
É perene não por ser perpétuo
Mas por ser completo e extenso
Ela disse bom dia
Com ar de simpatia
Ou só por dizer
Logo mais me diria que bobeira
Acho que disse asneiras
Vai chover
Se chover eu lembro do seu rosto,
Se não chover eu lembro
Do seu jeito
De qualquer jeito vou lembrar de você
Amanhã você passa de novo
E me diz algo novo ou não diz
Mas à sua passagem
Tudo é a mais bela paisagem
E o mundo é feliz
BETH
A verdade é dolorosa, as vezes amarga,
Mas necessária; mas agora
Só por alguns momentos dê-me uma ilusão lilás
Como os olhos de miss Taylor
Quem sabe mais de ilusões...?
Quantos casamentos... mas diante da tela,
Quem era mais verdadeira?
Quero a ilusão púrpura
Como uma plantação de alfazema
Depois me fala a verdade, mas me fala com jeito,
Um sorriso e uma falsa esperança...
Como se eu fosse criança galopando em carrosséis
Fala-me primeiro das pequenas verdades
Dos jardins de infância,
Do jogo de esconde-esconde,
Da verdade adolescendo,
Dos desejos inconcebíveis e gulas da puberdade
O resto eu percebo, minha verdade ficou adulta,
A realidade adúltera, os tons pink da tua presença
Foi sumindo aos poucos no fim do ocaso
Meu anjo você ainda é pura,
Você só carrega uma verdade pesada e muito escura
Mas aquele halo ainda povoa a minha lembrança
E a castidade que reluzia na tua presença
Está nas recordações mais ingênuas do meu passado
Guarda essa verdade só pra você mesmo
Pesa demais ver-te verde, tez de seda, temporã
Sob o plúmbeo peso da realidade e o sol ardente da manhã
BABY, YOU LOOK SO FINE
Sabe aqueles cinco minutos de ansiedade mórbida
De quando se espera a pessoa amada no primeiro encontro,
Aquilo é pressa de viver
E quando a neblina cai, o trem apita, alguém esbarra
E a cigana te cerca insistindo em ler a tua mão,
Sou analfabeto e bruto nesse tipo de emoção;
Nada quero do futuro, hoje mesmo eu morro de prazer,
Hoje mesmo terei o prazer de morrer de amor;
Ah seus olhos são verdes, que coisa linda!
As colinas descem ao meu umbigo e eu digo
Vermelho de paixão: não para agora, agora não;
O mundo pode ser tão belo, a vida pode ser tão boa...
O trem apita, alguém esbarra,
A cigana mente e continua a garoa...
Baby, baby... you look so fine, mas não demore tanto,
Não demore nunca mais, eu tenho taquicardia
Eu sou uma criança e a esperança desce o morro
O teu olhar é o meu socorro, disso eu não morro
Nem que meu coração bata mil vezes por minuto
E por mais que essa agonia, essa pressa de viver pareça absurdo
Eu cavalgo sobre o meu coração ao pulsar dessa taquicardia
E é isso que move os meus dedos em direção a poesia...
Aonde iremos quando só lembranças festejarem os sentimentos
e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado?
poderei sonhar, sempre poderei sonhar perdido na imensidão das estrelas
e do mundo misterioso que elas nos intui. Suas belezas refratárias tornam profícua
a imaginação e mais que esse fascínio, só, e singularmente
a solitude deste vulto poético. Então antes que nossos olhares lânguidos
se percam nos labirintos do passado, vasculho um pretexto, qualquer desejo
que ficou implícito nos desvarios das emoções; a ordem das coisas muda, tudo muda de ordem mas a ordem dos fatores não altera o produto... haverá um momento... mesmo por alguns instantes, uma sensação de perda, um olhar...uma atitude que era uma mensagem mas não foi percebida e ficou perdida; então sob as estrelas, sob os signos e os mistérios, o magnetismo que harmoniza... parece que a noite e a capacidade de ver de novo é um paliativo... tudo torna-se mais brando e assimilamos os golpes mais duros, as acusações, os dedos em ristes, as palavras ásperas... então eu questiono: quando só lembranças festejarem os sentimentos e o maior significado de viver se perde nos mínimos detalhes do passado, aonde iremos? onde quer que formos teremos nossos corações sobre nossas cabeças, os sentimentos a fazer pulsá-los, o mistério e o cintilar das estrelas sobre o firmamento e a nossa única e grande certeza: a inabalável capacidade de recomeçar.
mais belo que uma mulher despida,
só uma mulher despida na horizontal;
mais belo que uma mulher despida na horizontal,
só uma mulher vestida na vertical;
pois nada é mais belo que o prazer de despi-la e deitá-la
tenho sonhos...
sonhos como chuvas
como rigorosos invernos
e nessa realidade árida
só me resta chover...
ONTEM
quando não for mais hoje,
quando não for tão breve,
me leve nessa brisa lisa desse teu sorriso,
eu não preciso de nenhuma teoria
que explique o tiquetaque do relógio,
nenhuma teologia que explique o que é divino,
eu sou menino e a paixão carrega na tormenta
o que me atormenta depois do que... foi ontem
eu posso ser melhor do que ser só,
eu posso ser solitário...
mas lugares comuns me afligem...
eu posso ser bonito,
contanto que manhãs ensolaradas
me lembrem ofegantes as tuas narinas;
como é belo fazer poesia
porque amor foi o que fizemos ontem...
Meu amor, quando o amor não for teu;
e só o teu amor...
como se a dor do mundo nos teus ombros,
como se os escombros da paixão
farpassem teu coração na dor imensa da desilusão;
o amor não caminha com ansiedade;
amor é uma cidade tão tranquila;
gente bonita na janela,
um milharal, um cajueiro
e a poesia a se banhar num lago cristalino;
o amor é um menino com todo tempo do mundo,
o amor é dono dos horizontes
e do tempo e se não for assim,
é qualquer sentimento, menos amor
Só vive na solidão quem já amou,
quem nunca amou é apenas solitário,
e isso não dói...
só sabe o que é amargo quem já provou o doce,
quem nunca provou não sabe de sabores;
então o que é felicidade...
felicidade é esse gosto amargo
de saber que já foi feliz um dia...
e isso dói
então, nunca seremos felizes?
seremos... com netos, rugas e cabelos brancos...
mas isto é inexplicável...
Meu sonho
É só um sonho
Eu sonho só
E e o sonho é só meu
E por sonhar sozinho
Eu me avizinho ao sonho
Me descomponho
O sonho sonha eu
