Poemas inteligentes

Mas há a espera. A espera é sentir-me voraz em relação ao futuro. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem pra hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.

Clarice Lispector
Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Sempre necessitamos ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos faz desambiciosos.

Carlos Drummond de Andrade
O Avesso das Coisas: Aforismos. Rio de Janeiro: Editora Record, 1990.

Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama.

Clarice Lispector
Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam.

Clarice Lispector
Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

Nota: Trecho do texto A procura de uma dignidade.

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Minha vida é um grande desastre. É um desencontro cruel, é uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu – só me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. É lá que eu encontro uma menina morta sem pecúlio.

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. (...) Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam.

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

Suas idéias razoáveis são como dois grãos de trigo perdidos em dois alqueires de palha: gastais um dia inteiro para encontrá-los; mas, uma vez achados, não compensam o trabalho.

Nem todo esconderijo guarda orgulho, pode ser pela flauta dos vistos, ainda não revistos.

Profissão pra servir deve sempre passar por nossos vistos, e, ,a, arrogância esqueceu à muito tempo o valor da elegância da humildade, gratidade.

Harmosiosamente falando que nossos cantos, estejam livres de encantos, se servir pra edificar podes aqui ficar.

És para meus pensamentos como alimento para a vida, ou como as
chuvas brandas para o solo em época deseca.

Movimente seu dom, divino talento, ande qualquer um, para que os desdonados te livrem de suas acusações disfarçadas de glórias.

Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são.

Fernando Pessoa
Aforismos e afins. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Se culpar o outro pela dor que sente, é pela flauta da humildade, e, por não compreender, ainda, o que real mente sente, não propague, sem por fim à liberdade consequente, musicalize pro seu tecido alegremente.

Mas como é que eu sei que estou consciente? Estou consciente de que estou consciente? Será isto possível?

Nossas pausas são proteção dando uma rápida observação, não pra modificação ou conclusão, são cuidados de tempos em estação.

Nas rotações sinceras, não há preocupação nas conclusões e, sim, calma nas futurísticas revelações.

Algumas confusões são até engraçadas, mesmo quando em nossa pele sente-se o retardo dos desinteressados, corrige essa falha dos chamados espelhados.

O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregá-la de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era o mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências, de egoísmo e vitalidade.

Clarice Lispector
Perto do coração selvagem

Lendo 'Os idos de março' encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: "É impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é". Não pude comprovar sua verdadeira origem na própria obra de Júlio César nem nas obras de seus biógrafos, de Suetônio a Carcopino, mas valeu a pena conhecê-la.
(Memórias de minhas putas tristes)