Poemas de Rubem Alves

Cerca de 316 poemas de Rubem Alves

É o mundo capitalista, regido pela lógica do dinheiro. E o que ocorre é

que o mundo estabelecido pela lógica do lucro — que inclui de devastações ecológicas

até a guerra — está totalmente alienado, separado dos desejos das pessoas, que

prefeririam talvez coisas mais simples. . . Assim, as áreas verdes são entregues à

especulação imobiliária, os índios perdem suas terras porque gado é melhor para a

economia que índio, as terras vão-se transformando em desertos de cana, enquanto que

rios e mares viram caldos venenosos, e os peixes bóiam, mortos...

Rubem Alves
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Isto é a realidade: homens trabalhando, em relações uns com os outros, sob

condições que eles não escolheram, fazendo com seus corpos um mundo que não

desejam.. . E é disto que surgem ecos, sonhos, gritos e gemidos, poemas, filosofias,

utopias, critérios estéticos, leis, constituições, religiões.. .

Sobre o fogo, a fumaça,

sobre a realidade as vozes,

sobre a infra-estrutura a superestrutura,

sobre a vida a consciência. . .

Rubem Alves
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Compreende-se que o que as pessoas têm normalmente em suas cabeças não seja
conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um
mundo absurdo.

Rubem Alves
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Compreende-se que o que as pessoas têm normalmente em suas cabeças não seja

conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um

mundo absurdo.

E é aqui que aparece a religião, em parte para iluminar os cantos escuros do

conhecimento. Mas, pobre dela. . . Ela mesma não vê. Como pretende iluminar?

Ilumina com ilusões que consolam os fracos e legitimações que consolidam os fortes.

Rubem Alves
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De fato, quando o pobre/oprimido, das profundezas do seu sofrimento, balbucia:

"É a vontade de Deus", cessam todas as razões, todos os argumentos, as injustiças se

transformam em mistérios de desígnios insondáveis e a sua própria miséria, uma

provação a ser suportada com paciência,na espera da salvação eterna de sua alma. E os

poderosos usam as mesmas palavras sagradas e invocam os poderes da divindade

como cúmpli-

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cês da guerra e da rapina. E os habitantes originais deste continente e suas

civilizações foram massacrados em nome da cruz, e a expansão colonial levou

consigo para a África e a Ásia o Deus dos brancos, e constituições se escrevem

invocando a vontade de Deus, e um representante de Deus vai ao lado daquele que

foi condenado a morrer. . . Nada se altera, nada se transforma, mas sobre todas as

coisas dos homens se espalha o perfume do incenso. . .

Rubem Alves
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Religião,

"expressão de sofrimento real, protesto contra um sofrimento real, suspiro da

criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação

sem espírito, ópio do povo".

Rubem Alves
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E, desta forma, as palavras que brotam do sofrimento se transformam,
elas mesmas, no bálsamo provisório para uma dor que ele é impotente para
curar. E é por isto que é ópio, "felicidade ilusória do povo", que deve
ser abolida como condição de sua verdadeira felicidade. Mas o
abandono das ilusões não se consegue por meio de uma atividade
intelectual. As pessoas não podem ser convencidas a abandonar suas
ideias religiosas. Ideias são ecos, fumaça, sintomas. . . Se elas têm tais ideias
é porque a sua situação as exige. É necessário, então, que sua situação seja
mudada, as fendas curadas, para
que as ilusões desapareçam.

Rubem Alves
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Marx antevê o fim da religião. Ela só existe numa situação marcada pela alienação.

Desaparecida a alienação, numa sociedade livre, em que não haja opressores, não

importa que sejam capitalistas, burocratas ou quem quer que ostente algum sinal de

superioridade hierárquica, desaparecerá também a religião. A religião é fruto da

alienação. E com isto os religiosos mais devotos concordariam também. Nem no

Paraíso e nem na Cidade Santa se e/nitem alvarás para a construção de templos. ..

Rubem Alves
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Deus é este coração fictício que o desejo inventou, para

tornar o universo humano e amigo. E então a própria morte perdeu o seu caráter

ameaçador. As religiões são, assim, ilusões que tornam a vida mais suave. Narcóticos.

Como diria Marx: o ópio do povo.

Rubem Alves
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É o homem que fala, das profundezas do seu ser, numa linguagem que nem

ele mesmo entende.

Rubem Alves
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Mas, não é verdade que toda sociedade tem uma classe dominante e uma classe

dominada? Uma classe que pode e outra que não pode? Uma classe forte e uma classe

fraca? Até mesmo as crianças e velhos sabem disto — especialmente as crianças e

velhos. E também os migrantes, e os camponeses assolados pela seca, e os doentes que

morrem sem atendimento médico. . . e assim por diante. E a conclusão que se segue,

necessariamente, é que os sonhos dos poderosos têm de ser diferentes dos sonhos

dos oprimidos. E também suas religiões. ..

Rubem Alves
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Foi assim que aconteceu: a ciência empalhou a religião, tirando dela verdades

muito diferentes daquelas que a própria religião viva cantava. Acontece que as pessoas

religiosas, ao dizer os nome sagrados, realmente crêem num "lá fora" e é deste mundo

invisível que suas esperanças se alimentam. Tudo tão distante, tão diferente da

sabedoria científica.. .

Rubem Alves
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A ciência nos coloca num mundo glacial e mecânico,

matematicamente preciso e tecnicamente manipulável, mas vazio de significações

humanas e indiferente ao nosso amor. Bem dizia Max Weber que a dura lição que

aprendemos da ciência é que o sentido da vida não pode ser

encontrado ao fim da análise científica, por mais completa que seja. E nos

descobrimos expulsos do paraíso, ainda com os restos do fruto do conhecimento em

nossas mãos...

Rubem Alves
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O sentido da vida: não há pergunta que se faça com maior angústia e parece que

todos são por ela assombrados de vez em quando. Valerá a pena viver? A gravidade da

pergunta se revela na gravidade da resposta. Porque não é raro vermos pessoas

mergulhadas nos abismos da loucura, ou optarem voluntariamente pelo abismo do

suicídio por terem obtido uma resposta negativa. Outras pessoas, como observou

Camus, se deixam matar por ideias ou ilusões que lhes dão razões para viver: boas razões

para viver são também boas razões para morrer.

Rubem Alves
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O sentido da vida: não há pergunta que se faça com maior angústia e parece que

todos são por ela assombrados de vez em quando. Valerá a pena viver? A gravidade da

pergunta se revela na gravidade da resposta. Porque não é raro vermos pessoas

mergulhadas nos abismos da loucura, ou optarem voluntariamente pelo abismo do

suicídio por terem obtido uma resposta negativa. Outras pessoas, como observou

Camus, se deixam matar por ideias ou ilusões que lhes dão razões para viver: boas razões

para viver são também boas razões para morrer.

Mas o que é isto, o sentido da vida?

O sentido da vida é algo que se experimenta emocionalmente, sem que se saiba

explicar ou justificar. Não é algo que se construa, mas algo que nos ocorre de forma

inesperada e não preparada, como uma brisa suave que nos atinge, sem que saibamos

donde vem nem para onde vai, e que experimentamos como uma intensificação da

vontade de viver ao ponto de nos dar coragem para morrer, se necessário for, por

aquelas coisas que dão à vida o seu sentido. É uma transformação de nossa visão do

mundo, na qual as coisas se integram como em uma melodia, o que nos faz sentir

reconciliados com o universo ao nosso

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redor, possuídos de um sentimento oceânico, na poética expressão de Romain

Rolland, sensação inefável de eternidade e infinitude, de comunhão com algo que nos

transcende, envolve e embala, como se fosse um útero materno de dimensões

cósmicas. "Ver um mundo em um grão de areia / e um céu numa flor silvestre,/

segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora" (Blake).

O sentido da vida é um sentimento.

Rubem Alves
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Se a pretensão da religião terminasse aqui, tudo estaria bem. Porque não há leis que

nos proíbam de sentir o que quisermos. O escândalo começa quando a religião ousa

transformar tal sentimento, interior e subjetivo, numa hipótese acerca do universo.

Podemos entender as razões por que o homem religioso não pode se satisfazer com o

pássaro empalhado. A religião diz: "o universo inteiro faz sentido". Ao que a ciência

retruca: "as pessoas religiosas sentem e pensam que o universo inteiro faz sentido".

Aquela afirmação sagrada que ecoava de universo em universo, reverberando em

eternidades e infinitos, a ciência aprisiona dentro do poço pequeno e escuro da

subjetividade e da sociedade: ilusão, ideologia. O sentido da vida é destruído. Que

pode restar da alegria das rãs, se o "lá fora" que o pintassilgo cantou não existir?

Afirmar que a vida tem sentido é propor a fantástica hipótese de que o

universo vibra com

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os nossos sentimentos, sofre a dor dos torturados, chora a lágrima dos abandonados,

sorri com as crianças que brincam.. . Tudo está ligado. Convicção de que, por detrás

das coisas visíveis, há um rosto invisível que sorri, presença amiga, braços que

abraçam, como na famosa tela de Salvador Dali. E é esta crença que explica os

sacrifícios que se oferecem nos altares e as preces que se balbuciam na solidão.

Rubem Alves
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Pato selvagem:

Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas e os pores de sol eram maravilhosos. Mas voar nas alturas era cansativo. Ao final do dia os patos estavam exaustos.
Aconteceu que um dos patos, quando voava nas alturas, olhou para baixo e viu um pequeno sítio, casinha com chaminé, vacas, cavalos, galinhas… e um bando de patos deitados debaixo de uma árvore.
Como pareciam felizes! Não precisavam trabalhar. Havia milho em abundância.
O pato selvagem, cansado, teve inveja deles. Disse adeus aos companheiros, baixou seu voo e juntou-se aos patos domésticos.
Ah! Como era boa a vida, sem precisar fazer força. Ele gostou, fez amizades. O tempo passou. Primavera, verão, outono, inverno…
Chegou de novo o tempo da migração dos patos selvagens. E eles passavam grasnando, nas alturas…
De repente o pato que fora selvagem começou a sentir uma dor no seu coração, uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e não via mais: os campos, os lagos, as montanhas, os pores de sol. Aqui em baixo a vida era fácil, mas os horizontes eram tão curtos! Só se via perto!
E a dor foi crescendo no seu peito até que não aguentou mais. Resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. Abriu suas asas, bateu-as com força, como nos velhos tempos. Ele queria voar! Mas caiu e quase quebrou o pescoço. Estava pesado demais para o voo. Havia engordado com a boa vida… E assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os céus, com nostalgia das alturas…
(Ostra feliz não faz pérola)

Rubem Alves
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Para encerrar a conversa, a entrevistadora fez a última pergunta: “Como é que você se definiria?”
Êta pergunta impossível de ser respondida! Porque definir, como o próprio nome está dizendo, vem do latim finis, fim. Definir é determinar os limites. Mas sei eu lá quais são os meus limites!
Para respondê-la, eu teria de encontrar uma frase que não fosse definição, que apontasse para o sem limites. Aí eu me lembrei da frase que Robert Frost escolheu para sua lápide e disse que aquela era a definição de mim mesmo: “Ele teve um caso de amor com a vida”.
Quero que estas sejam as palavras na minha lápide.

(de “Ostra feliz não faz pérola”)

Rubem Alves
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A moda é o sucesso. Um famoso conferencista anuncia com letras enormes: “O seu lugar é o pódio”. Imaginemos que assim seja. Jogos Olímpicos. Corrida de 100 metros rasos. Aí ele diz para todos: “O seu lugar é o pódio!”. Os corredores disparam. Só um deles arrebenta a fita. Nas Olimpíadas, são pouquíssimos os que vão para o pódio. Isso vale para a vida inteira. Então, alguma coisa está errada.
O mais provável é que o dito conferencista esteja mentindo para manter-se no pódio à custa da credulidade das pessoas. Quem acredita que o seu lugar é o pódio está sempre estressado, competindo, tentando passar na frente. Quem não tem pretensões ao pódio vive uma vida mais alegre. Não é preciso chegar na frente.
Mas há uma seita que anuncia como palavra de Deus: “Você está destinado ao sucesso!”. Não sei onde descobriram isto. Pelo menos o Deus cristão não promete sucesso para ninguém.
(“Ostra feliz não faz pérola”)

Rubem Alves
Inserida por EmOutrasPalavras

O ser humano se vê em um
mundo que não lhe pertence e, para tentar escapar deste, cria para si um outro, em que o "princípio
de prazer" se sobrepõe ao "princípio de realidade".

Rubem Alves
Inserida por gabisms02