Poemas de quem Deu um Fora

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Que a nossa criança interior não pode morrer, é um fato — que ela não pode matar a criança dos outros — é outro.


Dentro de cada um de nós, habita — ou deveria habitar — uma criança: curiosa, brincalhona, sensível, carente de encantamentos…


É ela quem nos distrai da seriedade cobrada pela vida adulta, nos impedindo de empedernir por completo, e quem nos faz rir de bobagens, sonhar alto e acreditar em recomeços.


Mas há um perigo deveras sutil, quando transformamos essa criança em centro absoluto do mundo: ela deixa de ser símbolo de pureza e se torna instrumento do ego.


Há adultos que justificam suas imaturidades em nome da autenticidade — como se sinceridade fosse salvo-conduto para a falta de empatia.


E assim, ao defender sua própria “criança interior” a qualquer preço, acabam ferindo a dos outros com ironias, indiferença ou desprezo.


A verdadeira maturidade não está em silenciar nossa criança, mas em educá-la.


Ensiná-la que o mundo não gira apenas em torno dos seus desejos, que brincar não é o mesmo que zombar, e que crescer é aprender a reconhecer o outro como extensão da própria humanidade.


A criança interior merece e deve viver — mas sob a tutela do adulto que devemos aprender a ser.


A criança que — graças a Deus — ainda vive em mim, saúda a criança que vive em ti!


Feliz Dia das Crianças, do mundo inteiro e da que vive dentro de você!

Um dos maiores e mais belos propósitos da Fé é constranger o impossível.






Porque a Fé não é ausência de dúvida — é presença de confiança.


Ela não se alimenta de garantias, mas de esperança.


É o gesto mais ousado de quem planta mesmo sem ver o solo fértil, de quem continua caminhando mesmo quando o chão parece ter desaparecido debaixo de seus pés.


A Fé é essa força bruta silenciosa que, ao invés de discutir com o impossível, o constrange com pureza, entrega, insistência e resiliência.


Ela não o vence pela lógica, mas pelo amor.


E quando o impossível, envergonhado, se curva diante da perseverança dos que creem, é ali que o milagre acontece — discreto, sereno, e profundamente humano.

Um dos maiores palcos de manipulação do país — quiçá do mundo — Brasília haveria de receber alguém de pulso, cheio de vontade de libertar — deixe ir: Fabrício Carpinejar!


Brasília, com sua arquitetura monumental e sua aura de poder, sempre foi mais do que a capital política do país — é o símbolo vivo da manipulação institucionalizada, da retórica cuidadosamente ensaiada, das verdades maquiadas em discursos de ocasião.


Ali, onde se fabricam narrativas e se negociam destinos, a liberdade — essa palavra tão pequena e tão cara — costuma ser tratada como um artigo de luxo, raramente distribuído e quase nunca praticado.


E então, de repente, chega Carpinejar.


Com sua voz que mistura ternura e brutal honestidade, com seu dom de traduzir sentimentos que o poder não compreende, ele atravessa os corredores de Brasília não para discursar, mas para desatar.


Lança “Deixa ir” — um livro que fala sobre o desapego, sobre o amor que sabe partir, sobre a leveza que nasce quando se solta o que aprisiona.


E é aí que mora a ironia mais sublime:
No palco da manipulação, onde os verbos dominantes são reter, aprisionar, onde a vaidade se confunde com propósito, chega um poeta dizendo: “Deixe ir.”


É como soltar um pássaro dentro de um aquário de concreto.


Como ensinar o poder a amar sem possuir.


Carpinejar, nesse gesto, não apenas lança um livro — lança uma provocação existencial.


É como se dissesse: “Enquanto o país se esforça para segurar o que não cabe mais nas mãos, eu escrevo para lembrar que o verdadeiro domínio é saber soltar.”


Não haveria melhor palco para deixar ir do que aquele que só sabe aprisionar!

Há um risco, às vezes muito sutil, na romantização dos problemas: aprender a amá-los.


E se é notório que, para alcançar uma Graça, precisamos antes reconhecer a necessidade dela e pedi-la com sinceridade…


Como poderá o Filho do Homem libertar-nos de um fardo que cultivamos, romantizamos e até passamos a chamar de nosso?


Há dores que não nos abandonam, não porque Deus as conserve, mas porque nós as acariciamos como lembranças de estimação.


Há feridas que já não sangram como antes, mas que insistimos em reabri-las, como quem visita um túmulo com flores demais.


O Céu não invade o território onde o coração ainda se acomoda no cárcere das próprias paixões.


E, talvez por isso, certas Graças tardem: porque ainda chamamos de amor, o que, na verdade, é prisão com perfume de afeto.


O doce perfume da prisão não apenas exala o bom cheiro — ele também aprisiona.⁠

⁠A psicóloga está acabando comigo:
mandou-me separar um caderno só para anotar as incidências de estresse…


Só estou fazendo para comprar caderno!


Parece brincadeira — e é também!


Mas, olhando mais de perto, percebe-se algo muito maior escondido nesse riso: quantas vezes tratamos o cuidado emocional como se fosse só mais um caderno novo na gaveta?


É a recusa disfarçada, o medo sutil de se conhecer,
de se colocar diante do espelho,
de admitir que dentro de nós também existem gavetas bagunçadas
que carecem de arrumação.


Escrever, no fundo, é isso:
um ato simples que revela abismos
e, ao mesmo tempo, constrói pontes sobre eles.


Pela palavra, evitamos novas feridas
e aliviamos as que insistem em se abrir.


Há textos que caminham sozinhos.


Nascem prontos, enxutos, inteiros.


Mas há outros que precisam calçar as sandálias da empatia
para não machucar ou confundir quem ainda anda descalço dentro da própria alma.


E, é nesse vai-e-vem entre provocar e acolher
que percebemos algo curioso:
quando aprendemos a brincar com as palavras e com as imagens,
elas se juntam para brincar conosco.


A escrita deixa de ser esforço
e passa a ser companhia.


A arte deixa de ser fuga
e vira travessia.


É aí que o caderno muda de função.


De simples objeto, ele se transforma em lugar:
um lugar onde a dor descansa,
onde a graça do cotidiano floresce,
onde a alma encontra espaço para respirar.


E se eu tenho um desejo para quem se senta para folhear conosco esse “nosso caderno”,
é que saia daqui um pouco melhor do que entrou.


Porque a palavra bem cuidada faz isso —
acolhe, reorganiza, ilumina.


E quando compartilhada com sinceridade,
cura quem escreve e quem lê.


No fim, terapia ou não,
a escrita é um jeito silencioso de cuidar do mundo.


E, quem sabe, de nós mesmos também.

⁠Feio não é se abrir na internet…
Feio é um mundo tão abarrotado de gente, mais disposta a falar do que a escutar.


Quando alguém se arrisca a desabafar online, muitas vezes não está buscando atenção — está buscando Sobrevivência.


Chegar a esse ponto pode ser, sim, a última tentativa de encontrar um ouvido disposto a escutar, um olhar que não julgue, um coração que ainda tenha espaço para acolher.


Vivemos em tempos muito difíceis, em que quase todos têm voz, mas poucos têm paciência.


Todos opinam, mas poucos compreendem.


Quase todos estão prontos para responder, quase ninguém está disposto a ouvir.


E ouvir, nos tempos de hoje, virou quase um ato de Misericórdia.


Um gesto tão simples, mas tão raro: Parar, Respirar e Permitir que o outro exista na sua dor, sem ser Ridicularizado ou Diminuído.


Porque, no fim das contas, o Desabafo Online não revela a fraqueza de quem fala — mas a ausência de empatia de quem não quer ou não sabe ouvir.


E isso, sim, é tão Feio quanto Medonho.

⁠O diabo é um gênio: arregimentou as almas “inocentes” para salvar o país, e nunca mais parou de tentar vendê-lo para se salvar.


E o mais curioso é que, enquanto muitos se oferecem como voluntários nessa medonha barganha espiritual, poucos percebem que toda e qualquer promessa de salvação germinada nas sombras termina cobrando pedágio na luz.


Há discursos tão cheios de “boas intenções” que parecem ouro, mas tilintam como ferro-velho quando batem na realidade.


E assim o país vai sendo posto em prateleiras invisíveis, negociado em nome de causas que nunca foram nossas, enquanto os que juram defendê-lo, esquecem que quem vende a própria consciência não costuma devolver o troco da história.


No fim, talvez o que mais deveria nos assustar não seja esse “diabo” — mas a quantidade de gente disposta a aprender com ele o ofício da negociação.


Deus nos livre dos bem-intencionados cheios de razão, que nem de longe estão de fato preocupados com a nação!

⁠Basta um famoso qualquer — apaixonado e cheio de razão — tropeçar na arrogância do próprio salto, para as nossas cabeças alugadas se envaidecerem.


Especialmente se isso retroalimentar nosso viés de confirmação.


Mas o que quase sempre nos passa despercebido, é o fato de muitos famosos serem comprados para auxiliar na locação das nossas cabeças.


⁠⁠Seria muito difícil — ou até impossível — alugar a cabeça de todo um povo, ou parte dele, sem antes comprar algumas.⁠⁠


Todos — absolutamente todos — têm pleno direito de discordar da opinião contrária, que parece por vezes não mais alicerçar, oportunizar e preceder todo e qualquer debate.


Mas desde que saibam discordar sem desumanizar.

⁠Às vezes, o barco resolve balançar um pouquinho mais, só para nos lembrar que o Filho do Homem tem autoridade até sobre a tempestade.


Quando eu era mais medo que fé, olhava mais para as águas agitadas…


Agora, sendo mais fé do que medo, já posso Vê-lo, vindo ter comigo, caminhando por sobre as águas!


Ele sempre está agindo!


Aos meus — consanguíneos e em Cristo — tende bom ânimo!

⁠Um pai imprestável é igual ou até pior que um c0rn0: o último a saber dos feitos dos próprios filhos.


Há ausências que gritam mais alto do que qualquer traição.


O pai imprestável não é apenas o que erra — é o que se ausenta do palco onde a vida do filho acontece.


Enquanto aprende tarde demais, não porque foi enganado, mas, porque nunca quis olhar.


Ser o último a saber não é azar, é consequência.


Não da falta de informação, mas da falta de presença.


Porque quem caminha junto percebe os passos antes do tombo, os sonhos antes da fuga, os feitos antes do aplauso alheio.


A ignorância, nesse caso, não é inocência: é abandono disfarçado.


E o preço disso não se paga em humilhação pública, mas em vínculos que não se formaram — e em histórias que o tempo já contou sem ele.

⁠Não é fácil entender como um mundo tão abarrotado de santos consegue fabricar tantos problemas.


Talvez porque santos demais, quando empilhados, deixam de ser testemunho e passam a ser ornamentos e julgamentos


Um mundo abarrotado de “santos” costuma falar mais alto sobre virtude do que praticá-la.


Há muita canonização apressada do próprio ego e pouca disposição para carregar até a própria cruz, quiçá a do outro.


Quando a santidade vira rótulo, ela já não transforma — apenas separa, acusa e justifica.


Os problemas não nascem da falta de discursos corretos, mas da hipocrisia, da ausência de mãos estendidas, de escuta sincera e de misericórdia silenciosa.


Afinal, se todos fossem realmente santos como acreditam, talvez o mundo fosse menos barulhento… e muito mais habitável.


Assusta-me muito menos o pecador assumido do que o santo fabricado.

⁠Cá por essas bandas de um sol para cada um, que cada qual tenha a hombridade de não se descuidar do seu.


Nem superaquecer o outro.


Bom e abençoado dia de verão embalado nos 40.


Cá por essas bandas, onde há um sol para cada um, não nos falta luz — falta, às vezes, hombridade.


Hombridade para cuidar do próprio astro, regular o próprio calor e vigiar as próprias sombras.


Porque há quem, descuidado de si, tente aquecer a própria falta queimando o outro.


O verão ensina sem levantar a voz: o sol que amadurece também pode ferir.


Tudo depende da distância, do respeito, do tempo de exposição.


Há calores que nutrem e há calores que adoecem.


Que cada qual carregue o seu sol com responsabilidade,
sem invejar o brilho alheio,
sem projetar suas secas sobre jardins que não lhe pertencem.


Num dia abençoado, embalado nos quarenta,
que saibamos ser verão sem incêndio,
luz sem arrogância,
calor sem invasão.


Bom e abençoado dia, ainda que embalado nos 40.

⁠⁠Hoje a Sorte me abraçou tão apertado, que quase cansei!
Gratidão por mais um dia vencido, meu Pai Amado!


Há dias em que a Sorte não chega como visita discreta: ela entra sem pedir licença, aperta, envolve e até pesa.


Não pelo fardo, mas pela intensidade.


É um abraço tão cheio que o corpo quase cansa, e a alma, surpresa, precisa parar um instante para respirar e entender.


Talvez a Sorte não seja apenas o que dá certo, mas a força para atravessar o que poderia ter nos derrubado.


Ela se manifesta no fôlego que não faltou, no passo que continuou mesmo trêmulo, na coragem silenciosa de permanecer.


Vencer o dia, às vezes, é só não desistir dele.


E quando o cansaço vem depois do abraço, ele não é sinal de fraqueza, mas de travessia.


Só se cansa quem caminha, quem enfrenta, quem carrega o que precisa ser carregado sem largar a fé no meio do caminho.


Gratidão, Pai Amado, por mais um dia vencido…


Por mais um ano vencido.


Não porque foi leve, mas porque foi sustentado.


Não porque tudo sorriu, mas porque, apesar de tudo, seguimos de pé — sempre abraçados pela Tua misericórdia.


Que no próximo ano toda Sorte de Bençãos e Misericórdia continue nos encontrando, nos fortalecendo e, acima de tudo, nos mantendo de pé.


Amém por cada dia vivido e vencido!

⁠Se um terço dos cristãos pregasse mais Cristo que igreja, o caminho para a volta d'Ele certamente já estaria preparado.


Talvez, se assim fosse, o mundo reconhecesse com mais facilidade os sinais do Reino que já está entre nós.


Porque a Igreja, quando fiel à sua missão, não é fim — é caminho.


Não é vitrine — é serviço.


E nem é trono — é cruz.


O problema nunca foi a Igreja enquanto Corpo vivo, mas o risco constante de transformá-la em discurso, identidade social ou instrumento de pertencimento, quando sua razão de existir é apontar para Cristo.


Cristo não fundou uma instituição para ser adorada; fundou um povo para amar.


Não chamou seguidores para defender muros, mas para lavar pés.


Nem pediu marketing de fé, pediu testemunho.


E o testemunho mais eloquente continua sendo uma vida que se parece com a d’Ele.


Quando pregamos mais a Igreja do que Cristo, corremos o risco de anunciar um endereço e esquecer o Caminho.


Mas quando pregamos Cristo, a Igreja se cumpre: torna-se sinal, ponte, casa aberta — nunca obstáculo.


Preparar o caminho para a Sua volta não é fazer mais barulho religioso, mas produzir mais frutos do Espírito.


É menos disputa por razão e mais entrega por amor.


Menos bandeiras e mais cruz.


Muito menos autopreservação e mais conversão diária.


Talvez o mundo não esteja cansado de Cristo…


Mas talvez esteja apenas cansado de não vê-Lo refletido com clareza, sobretudo pelos evangelizadores mais preocupados em apontar o caminho da igreja do que d'Ele.

⁠Enquanto uns precisam de um tropeção para cair nos braços do Pai, outros para tentar quitar o aluguel das cabeças dos asseclas.


Há os que só descobrem a própria fragilidade quando o chão falta sob os pés.


O tropeço, para esses, não é punição: é convite.


Na queda, cessam as ilusões de autossuficiência, e o abraço do Pai deixa de ser discurso para se tornar refúgio.


A adversidade, então, cumpre seu papel mais nobre — revelar limites, ensinar silêncios e reordenar as prioridades.


Mas há os que fazem do tropeço um espetáculo, arrastando para o centro do palco um dos mais nojentos dos comportamentos — o vitimismo.


Não caem para aprender, caem para acusar e se vitimizar.


Transformam a adversidade em vitrine e o sofrimento em moeda, tentando pagar o aluguel das cabeças dos asseclas com versões convenientes da própria dor.


O vitimismo vira estratégia, não confissão; ruído e não arrependimento.


Em vez de atravessar a noite, preferem manter acesa a fogueira da queixa.


A diferença não está na queda, mas no destino dado a ela.


Uns permitem que a dor os humanize; outros a instrumentalizam.


Uns se levantam esvaziados de si e cheios de fé; outros se erguem inflados de razão e pobres de verdade.


No fim, a adversidade sempre cobra seu preço: ou nos reconcilia com o essencial, ou nos aprisiona na necessidade de plateia.


E talvez aí resida o discernimento que nos falta: nem toda lágrima nos cobra empatia, nem toda queda é lição.


Há tropeços que salvam, e há tropeços que apenas alugam consciências.

Por um amigo, se for preciso, eu brigo com os meus, com o mundo e até com meu Soberano Deus.


Se for preciso, eu enfrento os meus, o mundo inteiro — e até o agridoce silêncio que faço diante d'Ele.


Não por soberba, nem por rebeldia, mas, porque a amizade verdadeira também é um grandioso ato de fé.


Há laços que não se sustentam em conveniência, mas em compromisso.


Amizade não é aplauso automático, é presença que permanece quando a razão manda recuar.


É escolher ficar quando o mais fácil seria se esconder atrás do “não é problema meu”.


E se às vezes esse amor me coloca em tensão até com Deus, não é afronta: é oração em forma de luta.


É Jacó mancando depois de muito insistir…


É Abraão perguntando, Moisés intercedendo, Jó reclamando sem deixar de crer.


A fé madura não foge do confronto; ela o atravessa.


Defender integralmente um amigo não é substituir Deus, é confiar que Ele suporta nossas perguntas e entende nossa lealdade.


O Deus que nos ensina a amar o próximo não se escandaliza quando levamos esse amor às últimas consequências.


Porque, no fim, não brigamos com os nossos, com o mundo e até contra nosso Soberano Deus por um amigo — brigamos diante d’Ele, certos de que a justiça, quando é verdadeira, nunca anda separada do amor.


É no “amar verdadeiramente o próximo como a ti mesmo” que se resumem todas as leis e profetas.

⁠Falhar é um luxo reservado aos que se atrevem a fazer o que muitos medem esforços para fazer.


Quem nunca tentou nada ousado costuma chamar de prudência aquilo que, no fundo, é medo disfarçado de virtude.


O erro não visita os imóveis.


Ele bate à porta de quem caminha, de quem arrisca, de quem troca a segurança do discurso pelo peso da prática.


Por isso, falhar não é sinônimo de incompetência, mas de movimento; não é vergonha, é evidência de coragem.


Há os que colecionam opiniões impecáveis porque nunca precisaram lidar com as consequências.


Já os que falham carregam marcas reais: aprenderam onde o chão cede, onde o orgulho cai e onde a humildade também é o professor.


No fim, o maior fracasso não é tropeçar tentando, mas passar a vida inteira economizando passos para não correr o risco de cair.


Porque quem nunca falha, quase sempre também nunca vive aquilo que realmente vale a pena.

⁠Seria muito difícil — ou até impossível — alugar a cabeça de todo um povo, ou parte dele, sem antes comprar algumas.


Porque nenhuma multidão é dominada de uma só vez.


Primeiro, conquistam-se as vozes mais potentes, as mentes mais influentes, os que falam com facilidade e pensam com preguiça.


Compra-se a opinião de alguns e, pouco a pouco, ela passa a parecer a verdade que muitos gostariam que fosse.


Ideias alugadas raramente chegam com contrato visível.


Elas se disfarçam de pertencimento, de urgência, de causa nobre ou de solução fácil.


E quando parte do povo passa a repetir convicções que nunca questionou, talvez já não perceba que deixou de ser dono dos próprios pensamentos.


Há quem venda a consciência por conveniência, há quem a entregue por medo, e há quem a troque pela confortável sensação de fazer parte do coro.


Mas toda mente que abdica do esforço de pensar por conta própria torna-se terreno fértil para quem deseja governar sem diálogo, conduzir sem explicar e dividir para melhor controlar.


Pensar exige coragem.


Questionar exige disposição para, às vezes, caminhar sozinho.


Afastar-se da famigerada mamada.


Por isso, manter a própria cabeça livre talvez seja um dos atos mais silenciosos — e mais revolucionários — que alguém pode praticar.


No fim, não são as ideias impostas que transformam uma sociedade, mas aquelas que nascem do encontro honesto entre consciência, reflexão e responsabilidade.


Porque quem preserva a própria mente, não apenas protege a si mesmo, mas ajuda a impedir que o pensamento coletivo seja transformado em propriedade de poucos.

⁠⁠Para
as nossas
velas machucadas, quase todos os ventos são tempestades.




Há um cansaço que não se vê de longe.




Um rasgo pequeno na vela, quase invisível aos olhos distraídos, mas que muda completamente a forma como o barco enfrenta o mar.




Quando estamos feridos — por perdas, frustrações, decepções ou silêncios que doeram demais — até a brisa mais suave parece ameaça.




Não é o vento que sempre é forte demais; às vezes, somos nós que ainda estamos frágeis demais para suportá-lo.




Velas machucadas não significam fraqueza.




Significam travessia.




Significam que já enfrentamos mares revoltos, que já insistimos em continuar mesmo quando o céu escureceu.




Mas também revelam haver remendos a serem feitos, pausas necessárias, portos onde é preciso ancorar antes de seguir viagem.




Quando quase todos os ventos parecem tempestade, talvez o chamado não seja para lutar contra o céu, mas para cuidar da vela.




Para reconhecer nossos limites sem medo e sem culpa.




Para entender que sensibilidade não é incapacidade — é sinal de que algo em nós pede atenção.




O mundo continuará soprando seus ventos: opiniões, mudanças, despedidas, desafios inesperados…




Nem sempre teremos controle sobre sua intensidade.




Mas podemos escolher reparar o que foi rasgado, fortalecer o tecido da nossa coragem e aprender, pouco a pouco, a distinguir brisa de tormenta.




Porque, quando a vela é cuidada, até o vento contrário pode se tornar direção.

⁠⁠Não é sobre
se libertar da dor,
mas do que
causa
a dor.




Há um equívoco muito comum em nossa maneira de lidar com o sofrimento: tratamos a dor como inimiga, quando muitas vezes ela é apenas a mensageira.




Passamos grande parte da vida tentando silenciá-la, anestesiá-la ou escondê-la, como se o problema estivesse no alarme e não no incêndio que ele anuncia.




Libertar-se da dor pode até oferecer algum alívio momentâneo, mas quase nunca transforma a realidade que a produz.




É como trocar o curativo sem limpar a ferida — por um tempo parece resolvido, até que a infecção volta a lembrar que o problema nunca foi realmente enfrentado.




O que realmente exige coragem não é fugir da dor, mas olhar com honestidade para as causas que a alimentam.




Às vezes são relações que se sustentam no desgaste, expectativas que nunca foram nossas, silêncios que acumulamos para manter aparências ou estruturas que aprendemos a aceitar como inevitáveis.




A dor, nesse sentido, pode ser um tipo muito raro de lucidez.




Ela revela aquilo que a acomodação tenta esconder.




E, por mais desconfortável que seja, ela também aponta para onde a mudança — de fato — precisa acontecer.




Libertar-se do que causa a dor exige mais do que resistência emocional — exige revisão de escolhas, rompimento com padrões e, muitas vezes, a coragem de contrariar as narrativas que nos ensinaram a suportar o insuportável.




Porque, no fim, não se trata de aprender a viver anestesiado.




Trata-se de aprender a viver sem precisar se ferir para continuar existindo.