Poemas de quem Deu um Fora

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Mais vale consumir-se a trabalhar um ano do que vegetar cinco anos numa cama de hospital.

Se um espírito contemplativo se deita à água, não tentará nadar, procurará, primeiro, compreender a água. E afogar-se-á.

Nos meus retratos infantis, sempre me impressiona um olhar de repreensão que só pode dirigir-se a mim. Terei sido eu a causa da sua futura infelicidade, eu pressentia.

E se fosse isso perder a vida: fazermos a nós próprios as perguntas essenciais um pouco tarde de mais?

Um deles era muito inteligente e aprendeu tudo, entendeu tudo e levou isso tudo consigo quando morreu. O outro era razoavelmente estúpido e inventou um modelo aperfeiçoado de aguça-lápis. E existiu mais.

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Pensar, Bertrand, 1992

É então um mundo de fórmulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem ele não poderíamos existir. Se víssemos o que está por trás não podíamos existir. O nosso mundo não é real: vivemos num mundo como eu o compreendo e o explico. Não temos outro. É a voz dos mortos insistente que teima e se nos impõe. Mais fundo: não existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos de ecos.

Um mundo sem ciência é a escravatura, o homem fazendo girar a mó, submetido à matéria, equiparado à besta de carga.

Um homem é capaz de gastar um milhão de moedas para casar uma filha, mas não sabe gastar cem mil para instruí-la.

A fé é um condão. Mas o bom trabalho, no amor do ideal, dá a fé. Não há trabalho no sentido verdadeiro sem fé.

Raramente podemos descobrir um homem que diga que viveu feliz e que quando termina o seu tempo deixa a vida como um conviva satisfeito.

Economia significa ficar sem alguma coisa que se deseja intensamente, caso um dia se venha a querer algo de que provavelmente não se terá necessidade.

Vê se uma tua ideia se não torna um lugar-comum para te não dizerem que te serves de um lugar-comum quando por acaso a repetires.

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Escrever, Bertrand, 2001

Era um homem corajoso diante dos perigos e pusilânime diante dos aborrecimentos.

Em cada vida, em cada coração, um dia - por vezes com a duração de um instante - ressoa a dor do mundo. E o homem fica justificado.

O crítico é semelhante ao ator; tanto um como outro não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas integram-no, preenchendo as lacunas.

O convívio com um artista não é a melhor forma de desvendar o mistério da sua obra. Mas é talvez a melhor forma de o destruir. Ou de supor que..

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Pensar, Bertrand, 1992

Deveria existir uma pitada de diletantismo na crítica. Pois o diletante é um entusiasta que ainda não se acomodou e não está preso aos hábitos.

Quando elas nos amam, não é de fato a nós que amam. Mas é bem a nós que, um belo dia, elas deixam de amar.

Paul Géraldy
GERALDY, P., L'homme et l'amour, 1951

A coragem pessoal de um chefe é tanto maior quanto tem uma má consciência de chefe.

A apetência para a ociosidade implica um apetite católico e um forte sentido de identidade pessoal.