Poemas Anjos de Pijama Matilde Rosa Araujo
POESIA EM FLOR
Você me disse que não gosta de poesia alguma
Fica difícil de te escrever qualquer loucura
Que não seja em forma de poesia;
Seria mais difícil ainda
Se não pudesse ter da tua companhia
E ter de pensar em escrever pra ninguém e por nada
Porque por mais que seja ela
-poesia, que em mim não se nega -
Que tanto me apaixona
É teu apreço que me atropela...
E tão alto pago pelo preço dela
Porque enquanto teu amor me atropela
Vem ela e me acalma.
Porque sempre teve em minha vida
Primavera como esta
Que me fogem todas as flores
Que tendo resgatar em poesia?
Você é minha flor preferida
Mas se eu pudesse casar
Tua vida em poesia
Seria sempre primavera
Nos arredores da minha casa
E teria desde sempre
As margaridas
Como nunca
Teve em primavera alguma!
E eu, para sempre te escreveria
...assim seria!
O amor é rosa melindrosa
Igualitária a certeza diminuta de vida
De uma flor fenecida
É a certeza de que pode ter-me todos os dias...
Se o cortejo não tiver estima
Jaz esse amor como pétala caída
A cortesia ficará esquecida
e o amor está a mercê dessa delicadeza...
O amor é um labor delicado de conquista
Aprender a esse sabor apreciar
É como agradar o mais refinado paladar.
- Porque o amor... O amor é rosa melindrosa!
OLHOS DE CANDURA
(à Sofia)
São eles que eu mais amei na vida inteira
“Olhos de candura!”
Infindas doçuras, apareceram puros na vida.
Uns olhos de candura que assim
Fitou-me com um amor maior, chegou enfim pra mim...
Tem tempos que em nossos olhos brotou um rio de amargura
Por pensar como estariam aqueles olhos de candura...
Depois de um tempo se aprende que não há nada
que se faça pra que se desfaça
da candura dos olhos daquela menina
a minha preferida
a que tem os olhos que mais amo nessa vida!
Uns olhos de doçura
que estão presentes na minha saudade
e acalmam a minha desventura...
Ficarão na eternidade
e presente por toda a minha vida
o infinito desses olhos de candura!
OLHOS QUE VIDRAM.
Uns olhos que nos vidram!
De plenitude quando azuis, de esperança quando verdes
Qual a cor desses olhos que nos seduz?
Cristalizados de uma meiguice, tamanha sorte
Quem deles pode fazer posse!
Deixe-me olhá-los sempre a mercê da nova aliança
Vida farta de um “pra sempre” inolvidável ecoar das esperanças
Que são brandas ao ver teu olhar!
Uns olhos que nos vidram
Uns olhos que convidam
A mergulhar profundo num verde-mar
Sim, foi anteontem...
e eu não resisto à você.
mas postula a eternidade entre nós
e isso quer dizer que de coração, estamos a sós
isso quer dizer que nossas almas estão a sós.
a eternidade nos esperou e cá estamos nós
vivos mas impelidos pela eternidade
como se essa vida não bastasse
e fisicamente nos afastasse
como se morte fosse
pra que a eternidade nos juntasse
sempre será anteontem
pra que a espera não seja tão longa
pra que eu possa te conhecer hoje
e te louvar depois de amanhã...
para Rafael Dietrich
Acordei meio nostálgico
Estava tentando disfarçar
E enganar a mim mesmo
Mas com uma sede aqui dentro
De que tudo passasse além e aquém do tempo
ADVERSIDADE É HORIZONTE
A adversidade é um horizonte ofuscante, mas nem por isso podemos nos permitir ficarmos cegos por conveniência, não podemos nos esvaziar das sobras da esperança, pois ela é a chancela indispensável para continuarmos fortes e irmos em frente.
ANO NOVO
Lá vem ele!
Como jovem que é, vem chegando descontraído, contagiado pela alquimia dos sonhos, alimento imprescindível para nutrir a esperança de cada dia.
Vem repleto de novidades, abrindo um leque de infinitas possibilidades, de novas experiências, de viagens mirabolantes.
Ele vem no seu melhor estilo. Com leveza, reverencia o Velho Ano e perfuma os nossos ambientes internos antes de chegar, para que sejam inesquecíveis todos os dias do ano deixado para trás.
Ele dá o aviso: hora de se desapegar, hora de seguir em frente, hora de se renovar. Não importa quanta tristeza você teve, se pessoas amadas e queridas desceram do trem da vida, se alegrias e conquistas foram emoções que nos tiraram do chão.
É hora de embrulhar tudo isso e se libertar cada situação. As dores deverão ser embrulhadas no pacote do perdão geral e irrestrito. No pacote do perdão a nós mesmos.
O Ano Novo é um mágico cheio de gás e energia. Uma caixinha cheia de surpresa que fará a vida seguir em momentos novos e inesperados.
O lance, então, é abrir nossos corações e mente para receber e hospedar com alegria, gratidão, entusiasmo, compreensão e paixão esse jovem que nos chega com tanta energia e vitalidade.
PROCURE UM AMIGO
Quando for preciso sobreviver à avalanche de uma guerra interior, procure num amigo.
Um amigo de verdade em que possa confiar.
Um amigo de quem pelo ao menos você possa esperar uma resposta para suas tantas perguntas aflitas. Porque mesmo que você não receba a resposta esperada, pelo ao menos você terá uma resposta.
Quando caírem por terra todas as mentiras de seus conceitos, de seus valores, de seus sonhos e a sua dignidade se deitar sobre você fabricando em seus dias um verdadeiro apocalipse, procure um amigo.
Ele vai ter tempo para lhe ouvir, vai respeitar o seu momento, acendendo uma luz para iluminar a sua trilha.
Ninguém está preparado para os revezes da vida. Na maioria das vezes, a culpa faz a sua parte e a pessoa nem percebe. Essa danada,simplesmente,joga na sua mão a responsabilidade dos fatos e deturpa a sua visão de mundo. Por isso, procure um amigo.
Ele vai lhe ajudar a tirar a venda de seus olhos e vai ampará-lo nos tropeços.
Quando você perder a serenidade e a compreensão dos fatos por ter desaprendido a lidar com a esperança, tornando-se irracionalmente insuportável, procure um amigo.
Ele não vai vomitar palavras prontas para aliviar a sua dor. Nem vai lhe ludibriar com mentiras apenas para fazê-lo acreditar no improvável.
Ele lhe fará compreender que o tempo é o senhor da razão,e que a vontade, apenas uma manifestação a vida.
Quando explodir for apenas o que lhe resta, e seus fracassos ficarem maiores do que você, procure um amigo.
Ele não deixará os seus fragmentos se espalherem e me, que você de desintegre.
Por isso, se está desesperado, procure um amigo.
ROMPIMENTOS
A vida é um eterno exercício de rompimentos e mesmo assim não nos acostumamos com eles.
Voluntários ou involuntários eles nos sufocam e nos oprimem.
São pungentes e na maioria das vezes doem muito.
Quando paladinos de nossa vontade, deixam a alma leve, mas reservam, guardado no fundo de nosso íntimo, um fio de incerteza incômoda.
Rompemos o tempo todo com alguma coisa.
Escolher algo é romper com outro algo, porque temos que deixar para trás alguma coisa.
Rompimentos geram inquietações, geram dúvidas, geram confusões.
Dilaceram, despedaçam e violam os nossos sentimentos estabelecendo-se em nossas almas, com ou sem o nosso consentimento.
Rompimento pode ser o fim de uma história, um fim de linha ou ainda, uma elipse de um momento para se parar e pensar.
De qualquer forma, romper é quebrar uma seqüência. É tocar uma nota desafinada de uma melodia.
Ou quem sabe, seja a pausa para o descanso.
Rompimentos são necessários e obrigatórios e sem eles a vida teria um único rumo, uma única direção e seria muito chata e sem emoção. .
Então, vamos caminhando, chorando e sorrindo com os rompimentos contínuos, alimentando a esperança de que esses rompimentos sejam como o romper da aurora, o surgimento de um novo dia, um novo tempo, uma nova oportunidade.
SOMBRAS
Minhas sombras andam me acompanhando por onde vou.
Materializam-se de qualquer maneira, por qualquer besteira e estão ali fisicamente etéreas.
Sou parte de várias partes desencontradas de mim mesma, miseravelmente torturada pela fraqueza momentânea de minhas forças.
Vago errante por becos sem saídas e caminhos tortuosos, inundados por sensações indescritíveis.
Tenho pânico pela possibilidade de condensar as horas e elas habitarem para sempre em mim.
Procuro desesperadamente uma inspiração, não desejo transpirar.
A luz diante de meus olhos é difusa e não desconfio onde posso pisar.
Os medos incendeiam meus preciosos momentos.
Procuro desesperadamente por um alento.
Se não tiver alternativa,apago todas as luzes para expulsar de mim todas as minhas sombras.
DESASSOSSEGO
Todos os movimentos são poucos pra mim.
Todos os movimentos são muitos em mim.
É o desassossego tatuando o meu caminho.
É a espetada de uma agulha na ponta do dedo.
É o famigerado segredo para se guardar.
É a reinvenção de minhas intenções.
É o sonho sonhado, outra vez.
É a música me fazendo cantar.
É a reconstrução de meu ser.
É a limitação para ter coragem de vencer.
É a indecisão do querer sem saber
É o horizonte me fazendo viajar
na utopia que ousa me devorar.
QUERO CHUVA
Chuva de garoa.
Chuva de trovão.
Chuva de granizo
Chuva de verão.
Chuva de curar ferida
Chuva de encharcar a vida
Chuva em ritmo de canção.
Chuva de lavar a alma.
Chuva de trazer calma.
Chuva de fazer feliz.
Quero me molhar na chuva,
na chuva afogar meus prantos,
para de meus prantos fazer chover
Minha alegria.
Minha fantasia.
Minha pirologia*
Minha poesia.
E neste misto movimento febrento
De alento.
De sentimento
De esfacelamento.
De rompimento.
acalentar o sono perfeito do esquecimento.
Cada um carrega o que pode,
E se pode, ainda carrega um pouco mais.
Sendo assim, serei o navio de minha insanidade
Navegando nas tormentas em busca de cais.
SE ALGUÉM ME ACHAR ,FAVOR ME AVISAR,
Perdi-me de mim mesma, procuro-me por mim desesperadamente e não consigo me encontrar.
Já revirei os meus armários, baguncei minhas gavetas, arrastei até o do sofá, mas também não me achei por lá.
Refiz os caminhos de volta dos mesmos lugares de onde vim e nem sinal de mim.
Quem sabe estou dentro de um envelope largado num canto qualquer e me esqueci de anotar no seu conteúdo que eu estou lá?
E se me rasguei sem querer e me joguei inteira no lixo sem perceber?
Como é que vai ser? Não quero nem pensar!
Afinal, preciso estar comigo para viver, tenho obrigação de me achar.
Abro os livros que estou lendo, de repente, quem sabe? Virei marcador da página onde a leitura tive que parar.
Mas que nada, infelizmente, também não estou lá.
O desespero me domina, a memória não ajuda, fico que nem barata tonta tentando pensar onde posso me encontrar.
Já chamei até São Longuinho, dei-lhe de gorjeta, antecipadamente, três pulinhos, quem sabe ele pode me ajudar?
Parece que nem ele consegue me achar.
Respiro fundo porque preciso me acalmar.
Sento na beira de minha cama tentando me lembrar quando foi a última vez que me vi em algum lugar.
Estou pensando até em colocar a minha foto num jornal dizendo que desapareci.
Que desespero! Não me acho e não consigo me lembrar de onde eu possa estar.
Então, não vejo outro jeito a não ser o de apelar para quem me viu passar por algum lugar.
Amigos! Se vocês me viram por aí a perambular, avisem-me, preciso de mim com urgência e irei correndo até onde for preciso, para me buscar.
Preciso de mim.
ALUGA-SE UM CORAÇÃO
Aluga-se um coração. É um coração grande com muito espaço. Tem até área de recreação. Não é a primeira locação, mas está limpinho e em ótimas condições. Tem armários embutidos, nada precisa ficar fora de lugar, há espaço para se guardar todas e quaisquer emoções. A sala é uma sala ampla e tem grande lareira que, no inverno, aquece o fogo da paixão. Todos os quartos têm varandas que dão de frente pro mar, um presente ao morador que sempre terá a chance de sonhar. Tem também uma suíte presidencial, com elevador privativo, um lugar de estadia a ser oferecido a uma pessoa especial. Todos os cômodos têm música ambiente para que esse coração seja um lugar contente. Todo o ambiente é muito ventilado para que ninguém se sinta sufocado. O preço? Não se preocupe, o preço, garanto a você, é preço de ocasião.
PONTO FINAL
Nenhuma reticência, nenhuma exclamação, nenhuma interrogação, agora é a vez do ponto final.
A fase termina, as frases terminam e quando terminam é ponto final.
No ponto final, o sonho ficou, o amor se guardou, a paixão que marcou pediu ponto final.
No ponto final, o grito se calou, a dor se abrigou, a ilusão se curvou e pediu ponto final.
No ponto final, a tempestade da loucura cessou, a mágoa se trancou, a tristeza voou e pediu ponto final.
No ponto final, o pecado se eternizou, o desejo se estagnou, a hora parou e pediu ponto final.
No ponto final, a compulsão da busca se acalmou, a indiferença não mais machucou, a tentação da luxúria sossegou e pediu ponto final.
No ponto final, o seu sorriso continuou, a sua voz silenciou, a ilusão se desassombrou e pediu ponto final.
No ponto final, o ímpeto de lhe ver adormeceu, a alma se entorpeceu, a saudade morreu.
Depois do ponto final, a vida me pegou no colo, de minhas feridas cuidou, com voz suave me acordou e um segredo me contou: depois do ponto final, vão existir outros lugares, outras pessoas e tudo vai começar de novo, porque depois do ponto final, tem outro ponto, e outro...e outro....e de novo, ponto final.
Olhares vazios,
olhares vadios,
olhares de promessas,
olhares de propostas,
olhares com ou sem intenções,
olhares perdidos,
olhares bandidos,
Não importa!
Basta-me achar um olhar à disposição para acelerar as batidas de meu coração.
SE EU TIVESSE PERCEBIDO
Se eu tivesse percebido, não teria permitido você entrar pelas minhas frestas e depois quebrar minhas arestas para me machucar.
Se eu tivesse percebido, teria refletido e as suas propostas ficariam todas sem respostas.
Se eu tivesse percebido a sua intenção, não beberia no mesmo e copo e não teria composto uma canção.
Se eu tivesse prestado mais atenção, ignoraria todos os seus sinais, teria saído de perto e não me incomodaria em caminhar pelo deserto.
Se eu tivesse prestado mais atenção, não teria me distraído com as horas, teria ido embora antes do sol sumir.
E quando o sufoco se parecesse com um louco e sorrisse para mim mostrando os dentes, eu morderia com vontade a sua boca, até sangrar.
DESPEDIDA
Sairemos daqui, iremos embora e carregaremos os nossos fragmentos que continuam impetuosos dentro de nós.
Queremos a precisão da razão que nunca existirá.
Os pensamentos esculpidos na vibração de nossos cérebros nunca se dobrarão nas molduras das formas dos desejos.
Na plasticidade de nossos sentimentos, tentaremos nos salvar para não morrermos asfixiados dentro de nós.
Por nossos olhos, com vigor, vazam a dor e o desespero pelos sonhos fabricados que flutuaram vagabundos no tempo e se perderam no silêncio.
Vamos embora, vamos rápido.
Não deixemos que a vulnerabilidade das horas nos torne mais frágeis e nos consuma até a morte.
Nem que a tempestade das incertezas nos assombre com as injúrias e com a veneração do ódio.
Nós não merecemos.
Nesse raiar da loucura, vamos substituir às pólvoras de nossos canhões dessa guerra fria, pela vibração das luzes que se acendem dentro de nossas almas inquietas que caminham lado a lado distraídas, perdidas, entorpecidas na trajetória das vaidades.
Vamos, vamos logo.
Tudo deu errado, não temos como negar.
