Poema Passei para Deixar um Beijo
PERFIL
Você brinca, fala, gargalha, e cantarola um falso contentamento, mas o ar triste não te abandona, e o teu perfil lacônico se eperde no infinito, em contraste com o horizonte, a divisar o inatingível dos astros; você é um vulto, você é quase uma miragem que eu envolvo e apesar de tudo eu consigo entender a tua abstração; a tua incompreensão; só não posso crer, que você queira se furtar aos sentimentos que eu não te nego. Eu reconheço os meus defeitos e aceito os teus, mas a indiferença é uma imposição, e se compõe na tua tentativa de de uma integração; isso passa a ser fingimento e isso eu não suporto. Compreendo a inconstância e a estupidez de tudo, mas aceito e sofro essas mesmas vicissitudes, só não entendo que você não perceba que temos algo, que nem a vicissitude das coisa consegue mudar, e, é isso que me faz ansiar a tua espera, é isso que me faz ter esperança e desesperar o teu desespero, é isso que consola a minha angústia e me faz sofrer a tua aflição, é isso que me liberta demim mesmo e me faz ser escravo de você; é isso que me faz existir na tua vida, e não viver a minha existência, é isso que me liberta de mim mesmo e me faz ser escravo de você, não, eu não sou o ideal que você idealizou, sou um cara cheio de defeitos, de ambições e limitações; mas é esse cara cheio de defeitos, que chora a tua tristeza e que tem como objetivo o teu ideal; sim eu sou o reflexo de você, mas você não se olha e eu perco a minha imagem, olhe pra mim, sim eu te amo, mas o que há de errado nisso? O que há de absurdo, se para cada pecado teu eu tenho um perdão, se para cada olhar eu tenho uma promessa, o que há de absurdo? Eu te amo, e, isso nem a inconstância das coisas, nem a instabilidade da vida vai mudar, porque eu não te idealizei, mas se você não existisse eu teria que te inventar...
HINO
Faremos um verso
Pra rimar com o mundo,
Um mundo pra rimar
Com o resto do universo,
Amar-te- ei tanto
Que estaremos sempre juntos
E mesmo quando eu for defunto
Haverá esse encanto,
Faremos uma estrofe mais forte
Momentos cheios
Do que serão lembranças,
Crianças que correrão no quintal
E brincarão na varanda ,
Cantarão canções de roda e de ciranda
Que nos farão lembrar
Nossas adolescências,
Amar-nos-emos tanto
Que os horizontes serão nossos quintais
E todos os generais nos obedecerão,
Declararemos paz a todas as nações
E amor a todos os casais...
DEL CASTILHO
Havia um sofá...
Um “so far” na proximidade
Da intransponível solitude...
O toc-toc da Olivetti ou da remington
Para minha inspiração
E uma corda imaginária no teto
Para minha solidão...
Havia horas para se empacotar a vida
E fazer pilhas de paciência...
O gotejar incessante de alguma torneira
No mais profundo silencio,
Passos pelas dependências da minha ansiedade
Fantasmas de mil purgatórios...
Havia o telefone para confidências
De paixões inadimíssiveis
Durante a madrugada...
Havia o corredor que conduzia `suburbana
Sangrenta e insaciável...
Havia a igrejinha onde remiam nossos pecados
A nova América que vestia o nosso país
E um viaduto para problemas sem solução...
Escrever agora é um hábito
É como tomar café com pão pela manhã...
eu sou metódico, sistemático...
talvez umpouco enigmático...
mas o que fazer com tanta sensibilidade
o que fazer com tantas possibilidades
o que fazer com a cidade
na palma de minha mão
o que fazer com o deserto
no olhar da mulher
eu bebo o meu café
e como o meu pão...
EMBARCAÇÃO
Nem tanto assim,
Os meus delírios são só meus,
É um refúgio,
Nada mais que enganar a ilusão,
Eu aprendi a ser assim fugidio,
Mais fugaz, que vagabundo e vadio
Pra escapar da paixão,
E se as vezes me sinto sozinho...
É solitude não é solidão,
Nem tanto assim...
Este deserto é plantação,
Nos descampados eu tenho o meu teto,
Nos absurdos percebo o que é sábio,
Bússola e astrolábio é este vazio,
Neste deserto sou embarcação...
JUMENTO
Dorothy tinha um jumento...
Não um jumento jumento,
um jumento com sentimento e pressentimento,
mas era um tormento
imaginar o que as pessoas pensam
quando te olham bem dentro,
afinal era um jumento...
e era meio engraçado
o jumento no serrado
contemplando o eco sistema
e tentando poemas...
mas era um jumento,
um jumento que se apaixonava...
e se apaixonou por brida, a cabrita
e imaginou uma família,
e como seria ? sua filha berrando...
seu filho meio bode meio asno zurrando,
não daria certo, pensaou em bria,
filha da vaca estrela,
vinda de lannys no cinturão de orion,
imaginou jumentinhos e vaquinhas
intergaláticos galopando no universo...
imaginou-se astronauta
povoando os planetas
até que soava o rebenque
mostrando sua realidade quadrúpede,
dois cestos de cipó, dois centos de rapaduras
e a clientela da vilazinha a ver seu sofrimento...
A noite me conduz
o mar é muito mais que luz
é um cancioneiro
cantando uma canção de amor eterno
e nesse mar de imensidão
tem tantos mares a cantar o amor
A ROSA
o amor é vermelho, azul, amarelo,
é um elo com a dor
que quanto mais dói,
mais te leva ao paraíso,
o amor é verde e se perde no olhar,
no andar, no habitar de estrelas
que pontilham o caminho de querer amar...
o amor é rosa, é a rosa do jardim
é a Rosa vestida de rosa-choque,
o amor é a manga rosa na sua boca,
é a cereja do seu batom,
que se perde na laranja
pingando em seu colo
que esconde os mamões
sob sua blusa...
HOMEM
um homem não é só um homem
por ser um homem só...
pode ser um homem só,
pode não ter ontem, pode não ter tempo,
mas pode ter o amanhã, a manhã e o vento...
um homem não é pobre por nada ter,
não é vazio por ser pobre,
é pobre por ser vazio,
um homem não é só um homem
por ser um homem só ,
um homem não é rico pelo que possui,
por que pode possuir castelo
e não ter um lar,
pode possuir moto e não ter movimento,
pode possuir avião
e não ter espaço,
pode possuir passo e não ter sentido,
um homem tem que plantar e colher,
tem que escrever e ler,
tem que amar e fazer filhos...
tem que saber seu nome,
um homem não é só uma impressão digital,
um homem,
impressiona por saber,
e impressiona mais ainda por saber saber...
CAUBY
Ninguém sabia bem,
o que seria além
de ser um anjo ...
seria um astro ou uma estrela
além de viajar no espaço
nas palhas duma esteira...
o que nos confundia
ainda nos confunde,
mas ele canta e encanta
como um querubim...
I’ve been alone,
ne me quitte pas,
não me deixe assim...
o vi brilhante um dia
e nunca mais distinguiria
o que mais brilharia,
mais que um brilhante...
CARAMBOLA
Eu sempre fui assim...
Assim se eu fosse um bicho
Eu seria um cachorro perdido,
Se eu fosse vegetação eu seria carrapicho
Se eu fosse uma estrela
Eu estaria tão longe
Eu sempre fui assim
Então se eu fosse um desejo
Eu olharia a montanha
A derramar-se no rio em larvas e ouro
Se eu fosse um morcego na caramboleira
Vendo o vale de ponta cabeça
O ocaso seria o nascente
E quando o sol se perdesse
Atrás da carambola
O que eu faria com o com a ponte,
Com a fonte e com o horizonte...
Meu verso um dia se entristeceu
e se jogou no rio,
mas a alegria das águas
o fez gostar de viver
a festa das cachoeiras...
O feto voltou às entranhas da mãe como um parto às avessas
O suicida flutuou ao vigésimo primeiro andar
Num dessuícidar-se...
Tudo desacontecia...
A noite voltou a ser tarde...
A tarde voltou a ser manhã,,,
Que voltou a ser madrugada
Então o meu quarto, enquanto eu escrevia
Alagou num pantanal, um lago azul e triste...
Era o meu despoemar...
PERAS
Agora só quero uma varanda
Um céu com estrelas e discos-voadores,
Só quero andores floridos,
Forrados com toalhas de renda
E sacros hinos reavivando a fé
Só quero o bafejar lilás
Dos deuses da poesia
E a alegria de sofrer pouco,
Só quero fingir que sou louco
E enganar psicólogos e psiquiatras,
E a mim mesmo pensado que sou normal
Quero pegar tua mão
E sentir a emoção de três décadas atrás
Falar as coisas que eu disse aos dezoito anos
Como se então os teus seios de peras
Amamentassem ainda os meus desejos...
Estar bem perto de nada é um deserto
Estar do outro lado da lua é uma incógnita
Estar do outro lado da rua é um ponto de vista
Do outro lado da vida não há visita,
Está bem perto de tudo é um sonho,
Do outro lado do sonho tem favelas,
Tem chinelas de dedo, tem o medo, tem balas perdidas
Do outro lado tem a avenida Brasil
Rápida e inconsumível
Do outro lado da avenida Brasil
Tem o mundo tem a novela
Tem Carminha na arte da vagabundagem...
Do outro lado a turma do plin plin...
sonhei contigo a noite toda
e acordei faminto,
as vezes penso que sou adolescente,
que sou um menino...
e toco e toco e canto e grito o teu nome
princesa toma um banho
lava o rosto, esquece o mal jeito
sou um sujeito desprezível
mas te desejo, doce, accessível
mas não uma cadela
me diga não sempre que for possível,
sempre que for possível não cuspa não
o amor é meio sujo
mas não é intragável nem perecível
sonhei contigo a noite toda,
foi foda acordei sozinho...
Ela bebe na boca da garrafa
dá um show na praça
pula amarelinha como se pulasse a lua
faz paródia com Maysa
diz que a brisa é sua
“NE me quitte pás”
diz que não se embriaga a toa,
mas com meia garrafa voa
e canta como a sabiá...
ela bebe na boca da garrafa
talvez por pirraça
sabe que eu detesto
as vezes tropeça nos seus tornozelos
pra cair nos meus braços
olhar nos meus olhos e dizer que eu não presto
Ela bebe na boca da garrafa
pra armar barraco e me ver apreensivo
sabe do meu zelo pela sua conduta
mas diz que é adulta e que tem juízo...
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