Poema o Amor segundo Carlos Drummund de Andrade
Obrigado, Senhor Jesus, por esse dia.
Pois, se não houver a oportunidade de agradecer,
Saiba que sou grato por cada segundo de vida em ti.
Miligrama de verso XV
Nem mesmo por um segundo estiveste presente na minha vida.
Então, por que sou repleta de saudade como se vividos mil anos juntos?
Senhor, não deixe que a fé e os dons que me deste edifiquem apenas o meu ser, pois seria o mais egoísta de minha espécie.
Não permita que as lições que aprendi nas horas, dias, meses e anos que passei em tua companhia, sejam diretrizes que norteiam e endireitam apenas a minha vida.
Não permita que corações se aquebrantem para perdoar as faltas que possuo, estando o meu endurecido e vazio do teu amor.
Não consintas que eu perca o foco da minha salvação, esqueça-me que tu és meu Deus e que me escolheste antes que fosse gerada no ventre de minha mãe.
Pois sei que ainda há de se cumprir a minha verdadeira vocação, conforme a tua vontade.
A cada segundo
E se depois de uma noite, acontecermos a vida toda?
E se todos os meus repetitivos pedidos feitos aos olhos da lua e da estrelas começaram a nascer, a se materializar?
Será que eu estou dormindo e morando dentro de um sonho lindo e depois quando eu acordar descobrirei que era ilusão?
Quer saber?
Deixa pra lá! Eu vou é viver intensamente e sem medo pra ver o que acontece a cada segundo.
Assim como as águas mansas do rio procura seu leito, meu coração ainda busca seu amor perdido na imensidão do tempo.
Todas as faces de uma poesia anacrônica
De qual poesia estamos falando?
Da sua, da minha ou da de Drummond?
A qual classe social pertence os teus versos?
Pois se falas de um sobrado com vistas para o mar,
a poesia é uma.
Se falas de um puxadinho a beira córrego,
a poesia é outra.
Se escutas o estampido seco dos disparos ao longe,
mas não vês a cor do sangue que pinta a calçada de vermelho
e o choro triste da mãe que escorre em silêncio de seus olhos avermelhados
e envolve o corpo morto de seu filho, ainda (adolescente), caído na sarjeta
a poesia pode até te dizer algo, talvez, não te diga tudo.
E o mais provável é que não te diga mesmo tudo!
Mas dirá algo com toda certeza.
Mesmo que pense, (in)conscientemente, não ter mais nada a ser visto.
Se não vês o sangue urdir a tua consciência
e tomar-te de indignação por completo
de certo, talvez até critiques o que lê.
Pois não sabes de que poesia se está falando.
Não sabes de qual estética poética falo
e eu de certo, na mesma medida que ti,
não faço ideia de que versos você se veste
quando investe sua ira contra mim.
De quem é a poesia?
De quem a escreve,
de quem a lê,
de quem?
Dizem que a poesia não tem classe social, gênero, cor, raça, etnia, religião...
Tudo mentira!
A poesia é pretensiosa, escolhe e se faz escolher, manipula.
A poesia se disfarça e se versa em faces diversas,
só para manter o disfarce, da grande farsa que somos todos iguais.
Inclusive quando escrevemos versos.
Eu minto, tu mentes, ele mente...
Drummond, não.
Desabafo de um amante
Há de acontecer um dia
Em que meu coração não velará mais pelo teu;
Que repotuo-o ufano
Me queres de rojo
Pois me deseja rendido aos teus pés
E neles deseja o meu selo
Haverá um dia, em que ir-me-ei, nem que tardança, arrebatar-me por outra
E se valer a pena, a chamarei de amante, só pra te ver arrufada
O Fim da Esperança
“Chega um ponto em que não se roga mais por ajuda.
Preferes sofrer sozinho, a ouvir mentiras.
Tempo de absoluto decaimento.
Tempo em que a luz que emana do amor
já não se mostra mais tão brilhante.
E os olhos não suportam chorar mais,
pois cada lágrima caiu em vão.
E o coração está despedaçado.
Seus familiares chamam por seu nome, mas se fazes de surdo.
A luz apagou-se, seu corpo jaz na completa escuridão
mas na sombra ficas vazio, abandonado pela mente,
deixado para trás pela alma.
Já não tens mais esperança de salvação.
Já não tens mais esperança de ser feliz.
E nada esperas de teus amigos.
Não se preocupas mais em esconder sua pele,
pois cada gota de sangue estampada,
representa um momento no qual a dor foi-se embora.
Já não sabes mais o sentido do amor.
Já não sabes mais o propósito da vida.
Teus ombros suportam todo o peso do mundo,
pois não há mais com quem dividir tal peso.
As brigas, as conversas, os debates dentro dos edifícios
provam que sua vida é insignificante
e não há quem ligue para sua existência.
Logo se tornas um fantasma,
invisível, desacreditado.
Alguns consideram apenas um espetáculo
Achando que só queres aparecer.
Chega um tempo em que o abismo se torna um velho amigo
e as sombras emanadas pelo mesmo, a única luz, a única solução.
Então deixas ser abraçado por tais sombras.
Se jogando por sobre o abismo.
Dando um fim, para aquilo que um dia,
foi chamado de vida.”
...não é fácil pra ninguém viver uma vida esperando.
Quanto mais o tempo passa, mais se espera e o ciclo não se completa.
... não é que eu não queira ser grande,
a grandeza me assusta.
não é que eu não queira subir,
as escadas são longas.
não é que eu não queira vencer,
as batalhas são duradouras.
não é que eu não queira viver,
é o medo que me faz assim.
*não é que deixei de lutar,
apenas desisti do que não foi feito pra mim.*
O tempo nos mostra
A hora de parar.
As vezes insistimos
Achando que o tempo está errado
Mas o tempo não erra.
Temos que acreditar nos sinais
Nos toques que a vida nos dá.
As vezes uma presença nos instiga a ficar
Mas os sinais mostram
É hora de parar.
Foi sempre eu, a me esquivar
Foi sempre eu, a correr de ti
Nunca tive coragem de tocar
Nunca tive coragem de te sentir
Quando o mais perto cheguei
Quase desfaleci.
Não vi nada em minha frente
Corri pra bem longe de ti.
Não se pode tocar um Deus
Ou algo assim semelhante
O que é proibido na terra
No céu te vejo distante.
A fábrica do poema
SONHO O POEMA DE ARQUITETURA IDEAL
CUJA PRÓPRIA NATA DE CIMENTO
ENCAIXA PALAVRA POR PALAVRA, TORNEI-ME PERITO EM
EXTRAIR
FAÍSCAS DAS BRITAS E LEITE DAS PEDRAS.
ACORDO;
E O POEMA TODO SE ESFARRAPA, FIAPO POR FIAPO.
ACORDO;
O PRÉDIO, PEDRA E CAL, ESVOAÇA
COMO UM LEVE PAPEL SOLTO À MERCÊ DO VENTO E EVOLA-SE,
CINZA DE UM CORPO ESVAÍDO DE QUALQUER SENTIDO
ACORDO, E O POEMA-MIRAGEM SE DESFAZ
DESCONSTRUÍDO COMO SE NUNCA HOUVERA SIDO.
ACORDO! OS OLHOS CHUMBADOS PELO MINGAU DAS ALMAS
E OS OUVIDOS MOUCOS,
ASSIM É QUE SAIO DOS SUCESSIVOS SONOS:
VÃO-SE OS ANÉIS DE FUMO DE ÓPIO
E FICAM-ME OS DEDOS ESTARRECIDOS.
METONÍMIAS, ALITERAÇÕES, METÁFORAS, OXÍMOROS
SUMIDOS NO SORVEDOURO.
NÃO DEVE ADIANTAR GRANDE COISA PERMANECER À ESPREITA
NO TOPO FANTASMA DA TORRE DE VIGIA
NEM A SIMULAÇÃO DE SE AFUNDAR NO SONO.
NEM DORMIR DEVERAS.
POIS A QUESTÃO-CHAVE É:
SOB QUE MÁSCARA RETORNARÁ O RECALCADO?
... Não me diga, que não me ama
Não me diga que, nunca me amou
Conheço seus sentimentos
Conheço seu coração
Sei bem que ainda existe
Algo ai dentro, que ainda não acabou.
ALMA GÊMEA
Dois seres diferentes
De almas carentes
Vivem a se procurar
Dois corações apaixonados
Eternos enamorados
Destinos a se cruzar
Duas almas sonhadoras
Nascidas uma para a outra
Destinadas a se encontrarem
Almas gêmeas separadas
Nada se compara
A dor de juntas
não estarem
Já vem de outras vidas
Almas gêmeas feridas
Que um dia hão de
novamente se encontrarem.
Fantasma
Que homem é este
Que se esconde desse jeito
Por trás de uma máscara
Um fantasma a meu ver
Percorre todo o teatro
Segue todos os meus passos
Foi ele que me ensinou a viver
Homem sombrio
De uma linda voz
Seu canto ecoa
Em sons de sinfonia
Penetra em minha mente
Faz com que eu me sinta contente
Com uma pitada de agonia,
que queima meu coração
Este homem misterioso
Todos querem ver seu rosto
Mas só pra mim se mostrará
Um homem charmoso
Um fantasma misterioso
A quem eu fui me apaixonar
Tenho certeza do que sinto
Do que há em meu coração
Demorei muito pra entender
Que tudo não passava de ilusão.
Amor é um sentimento verdadeiro
Recíproco de atenção
Quando não é regado, morre
Sem chances de volta
Pois a indiferença endurece
Até mesmo o mais puro coração.
Sinto-me, de alma leve
Percebo, ao passar do dia
Não lembrar mais de sua face
Me faz livre de tal agonia
Difícil decifrar, as razões de ouvir falar
Mas sei que nada em mim faz
Pois a muito ... este amor ficou para traz.
Sinto que minha alma volta a ter vida
Sentindo os sabores dos dias
É o outono que me fascina
Me ajuda a lembrar
Que posso ser mais que poesia
Pois as palavras libertam
Mas a vida é que me guia
