Poema Nao Ame sem Amar
Você não sabe que depois vem outro dia
Com outras paisagens e outros ocasos,
A vida é transitória e o nosso orgulho pune a alma,
Depois vem outro dia com outras necessidades
Uma sensibilidade maior vai te fazer perceber
O que verdadeiramente é belo
O que verdadeiramente soa bem aos ouvidos;
Nesse tempo o grasnar das gralhas vai ferir teus tímpanos
E a primavera de cigarras e pardais vai estar bem distante...
BARQUINHO DE PAPEL
De vez em quando vou a praia
Não com a frequência de antes,
Mas ainda sonho diante das ondas...
Se eu fosse um peixe eu já teria sido pescado
Se eu fosse uma embarcação já teria naufragado...
Talvez tenha acontecido em outras vidas
Com peixes espadas e um navio fantasmas
Com degoladas namoradas
Que amei intensamente e nunca as tive...
Mas ainda sonho nessa imensidão de vagas enormes
Como um barquinho de papel que sobe e desce nessa ilusão
Que viaja no passado e de vez em quando vai a praia,
E não com a frequência de antes, mas ainda sonha...
REVELAÇÃO
Não demora ...
A noite chora uma neblina,
A brisa fria espalha uma melancolia,
Ecoa a ladainha ...
Os sinos já dobraram uma chamada;
A igreja relampeja a fé,
O amor abraça e beija,
E a esperança pra essa dor é a esperança...
Não demora,
Gótica, a catedral ordena...
Badalam os sinos,
Os meninos abalam,
Nossos destinos baladam,
A gente dança e a dança demora,
Não demora o tempo urge,
Acorda a urbe,
O tempo voa,
A solidão povoa
Demônios, fantasmas e monstros,
A certeza dessa incerteza apocalíptica não demora...
VOCÊ SABE ONDE FICA O BERIMBAU DO GOZA?
Seu Iteovaldo tentou explicar
Mas aos 85 anos já não lembrava direito:
"_Era um lugar bonito, de riso e de grito e admiração..."
O adolescente esperava ansioso
Sem querer saber de toda aquela prosa:
"_Só queria saber onde fica o berimbau do goza..."
_"Tem borboletas e passarinhos...
Tem uns ninhos e outros bichos e tem dois montinhos..."
Era meio poético falar assim,
Mas seu Serafim, bem vivido e bem sucedido
Imaginou que seria melhor compreendido:
_"Você desce uma alameda e tem uns matinhos
Que metem medo, mais pelos segredos que pelos perigos;
Foi assim comigo, tinha um fogaréu, vinha um vendaval
Mas depois dali estaria o berimbau..."
_"Sei não, começou seu Rui, que tinha algo de Barbosa
Comigo foi fácil achar o berimbau do goza;
Fui com Serafina, que era cega,
Surda e muda, e tateava tudo
E perguntava o tempo
E desfrutava a brisa e o calor da manhã,
O barulho das águas e o cantar das aves...
E era tão lindo aquele caminho,
Que o tempo voou e chegou a noite,
Surgiu uma nave de brilhos bonitos,
Improvisei uma rima pra Serafina
Que luzia como um vagalume,
Falava e via e me escutava,
Num impulso catei meia dúzia de rosas
Naquela magia ela já levitava,
Gemia algo que eu não entendia,
Mas lhe deixava formosa
Acho que era ali o berimbau do goza...
Não fiz nenhum curso,
Não frequentei universidade,
Não mudei de município,
Fui sempre da mesma cidade,
Pouco frequentei escola,
Soltei muita pipa e ainda penso
Que jogo um pouco de bola
E o que vejo na mídia
Tem a dimensão do perigo,
Namorei uma tal de Lídia
Que nunca namorou comigo,
Assim virei poeta
Namorando a solidão
No vulto de muitas meninas
Que existiram nas minhas rimas
Fascinaram como as primas
Mas não passou de ilusão
REFLUXO
tinha a solidão da lua no olhar,
o azul do que não discernia a clarear
o dia e o que não entendia
tinha o perfil suave de uma ave
a planar sozinha e soberana,
era a beleza simples, absoluta e singular
esquece os meus desejos,
os versos, o universo dessas emoções,
a vida é muito mais que uma cachoeira
o fluxo e o refluxo de um rio...
a vida continua depois do fim do mundo
depois dessa represa a vida continua
continua pra quem percebe
que esteve bem perto
do que é perto de felicidade
ficou essa ilusão que nem é ilusão
mas é o suficiente pra romper a névoa
que embaça o pensamento,
sigo firme nessa incerteza
que sustenta o insustentável:
é só desejo que eu vejo, é só desejo...
vem o alvorecer mas a solidão da lua
continua na luz do olhar
MARROM
A aeronave me esperava imponente
Eu demente de medo
Se algo de ruim acontecer
Não conte meus segredos;
Um dia perceberão que sou o grande poeta desse país,
Comentarão AMORAMORA
Mas então brincarei com os anjos...
Depois de uma existência pobre
Diga a alguém que muito amei
E que meus sentimentos e ressentimentos são nobres
Que além disso, acreditar na humanidade
E a loucura me fez poeta....
Queria ter falado mais de amor, mas é tão difícil,
Os edifícios tolhem os horizontes,
Os nascentes e os ocasos,
Não comente sobre mal resolvidos casos
Eu te amo demais, eu amo todos vocês,
Perdoem o mal jeito e a minha insensatez
Eu devia ter sido mais forte, eu devia ter tido mais sorte
A aeronave me espera imponente,
Publiquem meus poemas decentes
Desfrutem escondidos dos poemas indecentes,
Mas não comentem este lado marrom
Façam-no acreditar que eu era bom
A minha grande frustração é o país sem leis
E a corrupção me faz desejar ter nascido francês
A aeronave me espera imponente...
ÓPERA
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas tem um grilo que cricrila pela noite afora
Ele conversa sobre os medos da noite
E tem os gatos; e os gatos cantam
Como só os gatos sabem de ópera
E eu roubo-lhes as vidas
Já tenho sete, afora o infarto
Conversei com Deus nesse dia
Vi Maria na última travessia da Dutra
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas o negro que vejo no antigo engenho
Tem cicatrizes nas costas,
Mas tem prosas bonitas de Angola
E derrama poesia quando fala de sinhá
E quando não fala de nada
Eu percebo o meu Brasil moreno
Tão rico, tão grande, tão pobre e pequeno
Que eu namoro as namoradas que não são minhas
E as minhas namoradas não namoram comigo
E eles pensam que eu não tenho nada e eu nada tenho
Porque o que eu tenho é sentar na calçada
E olhar a lua, as estrelas e o firmamento
E tudo isso já pertence a russos e americanos
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas eu tenho a magia das palavras
Essa coisa que me instiga e me oferece a ilusão mambembe
De que eu de nada preciso
Que o resto é abstrato, o resto é engano...
AO ALÉM
Meia noite e meia, de repente um arrepio
Não é febre, não é frio
Sei perfeitamente o que conduz a lua cheia
Essa abstração aos meus medos, alheia
É a intimidade entre mim e o além
Quem sabe os meus segredos
Sabe que um dia eu já morri também
Ah, eu amo vocês!
Vocês que já foram, mas vigiam os meus passos
E os passos que ouço, a cortina que balança...
Os sussurros no ouvido...
São todos os que me amam e se importam comigo
MARGINAIS
A outra margem...
A marginalidade
Não é cultivada por barracões ou tetos de zinco,
A pobreza não é atenuante pro crime
A cidade tem suas margens,
Cada margem tem dois rios,
Cada rio tem três margens,
A marginalidade está a margem da lei;
Não importa se é patológico ou compulsivo
A marginalidade tem seus fluxos,
Seus absurdos, suas marginais...
Usa chinelo de dedo ou mocassins italianos;
Chita ou linho, linha vermelha ou amarela
Usa a favela como escudo,
Ou anel de grau, apartamentos e casas de luxo
A outra margem margeia o poder
Não tem elo com o pudor
Extorque e oprime, venda e amordaça
Legisla, julga e executa, apoiada por assembleias
No centro de todo esse complexo e diretrizes
No planalto central, está Ele,
alimentado por uma esperança vã e infrutífera: o seu voto.
PROCISSÃO
Quando eu não tiver nada ainda terei as palavras
Terei o silencio e a virtude de saber não possuir
E as minhas palavras dar-se-ão as mãos
Numa ciranda a cantar poemas a edificar a solidão
E a minha solidão povoa,
Pavão, pavoa, encantos, penas e cantos
Leitos, lagoas, embarcação, canoas
Uma procissão, uma novena,
Meu verso vai de Tóquio a Cartagena
Porque minhalma não é pequena,
Minha estrofe é forte e minha verdade serena
E o meu silencio não dói; não dói quando passa a tarde
Quando passa o rio, quando passa o vento,
O meu silencio só dói quando passa o sentimento
EU VI
eu vi um homem que não era mais homem
e tinha um olhar que não era mais seu
e tinha a ausência de todos os fantasmas
e tinha a asma de todos os gatos
e tinha os mistérios dos cemitérios
a pele morta, sem vida,
dentes sem precedentes
um odor inconcebível;
não era mais um ser vivente,
por mais que parecesse gente,
não era um cachorro,
os cachorros são felizes e são gratos,
os gatos têm orgulho,
era maior que um rato em tamanho,
mas revirava o lixo
com a ânsia desse bicho
eu vi um homem que não era mais homem
ou vi um bicho que não era mais bicho
Não queira ser poeta todos os dias
Seja poeta um dia
no outro seja a poesia...
Não queira ser feliz todos os dias
Seja feliz um dia
no outro seja você mesmo.
A coisa mais bonita do mundo dá uma ansiedade,
Quando não acontece dá uma saudade
Então eu penso que o mundo dá tantas voltas...
E eu não mudo... já ficou tarde e eu ainda penso em você
Uma canção de longe quando amar não era brega
Me devolve momentos bonitos,
Agora eu fico aflito e tenho que obedecer regras
Mas nada impede que eu sonhe e acredite no verso
O amor é sem dúvida todo esse universo
DEZ OLINDAS
se ela não fosse bonita
com a beleza que eu vejo
ela já era linda
mas ela era bonita
com a beleza que eu penso
e a beleza que eu penso,
penso mais que dez Olindas
tinha todos os deslimites
que a beleza do mar
tinha a imensidão do sonho
e o sonho imenso de amar
O que é amor... o que é amor...
Sempre me questiono...
E essa busca, essa procura não deixa de ser vestígios por maior que seja o abandono...
CORPOS SANTOS
Acho que ainda não é meia noite,
Quem dividiu a noite eu não sei,
Mas está tudo bem silencioso,
Está meio medroso, o carro preto veio...
Todavia eu procuro umas palavras,
Eu procuro umas palavras,
Umas palavras eu procuro.
Além do muro onde me escondo
Um mocho grasna seu agouro fúnebre,
Esse silêncio tenso tem o timbre do mais triste escuro
O carro preto... o carro preto às vezes é prata,
Às vezes é vermelho, as vezes é branco
Para cobrar vem como um raio
Vem como um relâmpago
Acho que ainda não é meia noite e o pipocar da vida
Abrindo feridas em tantos corpos santos;
Jazem no asfalto anjos sem mantos sob a luz da lua
Seus corpos tatuam pra afastar o medo
Eu procuro palavras... eu procuro palavras
Pra descrever a morte
Acho que ainda não é meia noite...
Quem dividiu a noite pra mim ainda é segredo
Nesse contexto. me parece, morrer é muita sorte
E viver não passa que morrer de medo
o mistério de tudo... se fosse diferente talvez não fosse tão doce,
mas conversaríamos sobre qualquer banalidade
sob o calor daquelas tardes mornas
e as futilidades eram só pretextos para estarmos juntos;
por que haveria de ser diferente...
eu escreveria alguma coisa...
eu já pensava que era poeta,
mas nunca dirigi a palavra correta para a pessoa certa... meu Deus!
um colibri se perde com o néctar das flores;
por que, ou por quem se perdem os poetas...
minhas fantasias tem carnavais tão lindos;
meu coração está cheio de feriados,
de sábados e inesquecíveis domingos
mas... se fui feliz, eu não sei
felicidade é a próxima estação, ou a estação passada...
não diga mais que a vida é tão fugaz,
fugaz é essa dor de dor nenhuma...
é o teu olhar, o teu sorriso, o teu perfume,
o teu cabelo ao vento;
é este sentimento que me diz que tudo é mistério...
e no amor, mistério é tudo... mas tudo é tão fugaz.
