Poema Nao Ame sem Amar
Insubstituível
Nunca alguém poderá substituí-la
Visto que cada um de nós é único
Quem não conhece a história faz
Sempre os insuportáveis discursos
Enquanto padeço pensando nela
Chega um rapaz e diz-me de tudo
Fala, fala e não chega à conclusão
Só me resta que permaneça mudo
Pois ele diz que eu posso superar
Seguir vivendo, como todos falam
E eu ainda sonho com o rosto dela
Sonho do tipo em que todos calam
Vai ver atravesso uma fase ruim
A donzela da mente se apoderou
Ouço sua voz suave me chamando
Esqueço por ora se sou ou estou
Será que sou um devoto da utopia?
Será que a dama me cumprimentará?
Deito na cama e penso até dormir
A minha única certeza: ela estará.
Comentam por aí
Eles falam que eu sou louco, mas não estavam lá
Que sou fechado, mas não ouviram o que lhe disse
Que sou incapaz de amar, mas não lhe conheceram
Que homem não deve chorar, e já viram um triste?
Uma era que já era
Ei, história inacabada, não venha ocupar meu tempo
Que hoje eu não estou para meias palavras e gestos
Rascunhos de felicidade, agora, não me completam
Esqueça o marujo que lhe declarou sendo honesto
Poderia esperar uma eternidade por um sinal teu
Nada acharia além de um afastamento crescente
Tu acompanhas de camarote o sofrimento alheio
Imagino que concordes com gente pisando gente
Se alguém obtém algo com facilidade, despreza
Se alguém obtém algo com dificuldade, preza
É por isso que tu estás em Netuno e eu na Terra
E é por isso que, assumidamente, lhe quis à beça
Só que não sonho mais contigo como outrora
Nem penso na possibilidade de me reapaixonar
Eu amadureci, é verdade, não se vive de saudade
Me dediquei por inteiro e descarto a tua metade
Excluo o teu contato e é para que tu percebas
Vais perder tudo, lidaste com a situação errada
Mal sabes o que fazes, és dispersa no caminho
Se a tua realidade é ventania, virará redemoinho
Quem acha que comanda, pode se equivocar
Mesmo tendo um imenso séquito de devotos
Bom saber que o questionamento é permitido
Havendo repressão, teu império seria mantido.
A dor acaba
Quando faz calor, modifica o seu jeito
Sempre diz “não” disfarçando o “sim”
O que irão dizer destes fatos isolados
Se agora uso bermuda e não uso jeans?
(Oh, não... não mais)
Será que haverá o paraíso algum dia?
Está tão ruim ajuntar trocados na rua
(Estou caído, caído no chão)
Já perdi o sono umas quantas vezes
Por pensar demais sem pensar direito
Sei que você sabe que estou sofrendo
Ficar muito bem não seria perfeito?
Uma tarde de sol, porém sem praia
Queremos lembrar do que não temos
Poderia ser apenas falta de sabedoria
Mas o que nos restou foi muito menos
A dor mata, a dor castiga
Quem já se sentiu assim
A dor corrói por dentro
E lhe destroça por fim
A dor se vai, a dor volta
Até o adeus derradeiro
A dor conhecemos bem
Nada é tão verdadeiro.
O beatle porto-alegrense
Ele não consegue mais cantar
Ele não consegue mais sorrir
Estamos tensos, Júpiter Maçã
Porque tu não estás mais aqui
Deve ter encontrado um lugar
Pra se escabelar, tomar cerveja
De gente com essência interior
Bom gaúcho não foge da peleja
O milênio passará e tu seguirás
Sendo rei da cena underground
Cascavellete em rede nacional
Com gurizada curtindo o sound
O TNT explodiu com a notícia
Um 21 de dezembro marcante
Tortas e cucas não amenizaram
O luto que sentimos pela noite
Tu poderias ter parado de beber
Dizias que não fazias ali o bem
Deixaste os teus mantras a nós
Sempre fiéis a Júpiter... amém!
Dando nota
— De 1 a 10, como você me classifica?
— Com 0.
— Sou tão ruim assim?
— Não, você é diferente.
Além da situação e da oposição
Fechei o jornal, desliguei a televisão
Não acessei as páginas da internet
Deixei para outra hora ler as notícias
Afinal de contas, me percebo inerte
Novas discussões de velhos temas
Os óbvios: política, religião e futebol
Vários opinantes circulam na rede
E eu aqui, deitado sob a luz do sol
A situação é ruim e a oposição pior
Não posso abraçar qualquer causa
Acho que estou acima de um muro
No entanto, queria dar uma pausa
Tem muito ódio sendo propagado
E eu não compactuo com o ideal
Estou visualizando outras cenas
O mal não some com mais mal.
Suposta preocupação
A vizinhança adora fazer fuxico
Fala com prazer da vida alheia
Se não tem história, inventa ela
De futilidade tem a cabeça cheia
Alguém perto comprou um carro
Então é impossível não comentar
Serve de alimento para a cobiça
Vira assunto no almoço e jantar
O vizinho gosta de outro homem
Que escândalo à família “de bem”
Ninguém conhece aquele sujeito
Entretanto julgam mal ele também
Grande entretenimento é fofocar
Para quem mediocremente existe
Olhando de camarote o restante
Sem ver a sua ignorância triste.
Resguardo da pátria
Faz 15 anos que ele foi à guerra
E, desde então, não mais voltou
Sua mulher continua no casebre
Recordando tudo o que passou
Tantos planos estão esfacelados
Em nome do resguardo da pátria
Contudo, a bandeira bem tremula
Representada por militar ou pária
O governante motiva o confronto
Pois não terá de pegar em armas
Vê o desenlace pelos bastidores
Enquanto famílias são ceifadas
Não há real vencedor na batalha
Muitos entregam seu maior bem
Tratando com artilharia pesada
Fatalmente se dizima alguém
Histórias ricas resultando em pó
De corajosos que agora jazem
Um pranto que retumba no ar
É o dos que ficam à margem
A mulher ainda está esperando
Já que ele prometeu o retorno
Em uma promessa incumprível
Do soldado morto em Livorno.
Uma xícara apenas
Eram duas xícaras e ficou uma
Para ter rodopio no micro-ondas
O café não continua tão quente
Contudo deverão chegar outras
Vai e vem, tudo virou transitório
Gente deletada como aplicativo
Tocar na tela dispensa a saliva
Velozmente se altera o objetivo
As relações então são líquidas
Recorra a Bauman, ele explica
Afeto de prazo predeterminado
Quiçá meramente atração física
Tantos números e tantas bocas
E um vácuo assaz entranhado
Deve ocorrer algo de incorreto
Pela dimensão do machucado
Sentido na excitação sensorial
Vazio, está cheio de si próprio
Preso, suas grades condenam
O indivíduo com rumo inglório.
Garoto invisível
Charlie é um tanto esquisito
Não possui qualquer amigo
Jamais beijou alguma boca
E seguramente quer abrigo
Charlie foi parar no hospital
Após ter umas alucinações
Com a já falecida tia Helen
Que influíam nas emoções
Charlie tira sempre nota A
E começou o ensino médio
Conseguiu ele se enturmar
Saindo um pouco do tédio
Charlie experimentou amor
Quando foi por Sam olhado
Nunca havia sentido aquilo
E ficou por ela maravilhado
Charlie se imagina infinito
Ouvindo música na picape
Agora é capaz de participar
Sem recorrer a um escape.
Recado aos artificiais
Não, não e não!
Não me venham com falsas solidariedades.
Dispenso todas as falas mecânicas,
Enfadonhas, assim como vocês.
Não quero ser nada.
Vocês, que querem-me um homem de ambição,
Fiquem sabendo que não tenho nenhuma.
Por que haveria eu de ter alguma?
Desgraçados todos estamos,
Condenados à morte desde o início.
Não tornem o percurso tortuoso.
Que tal uma saudação ao vazio?
Por favor, evitem me procurar.
Estaria eu presente se quisesse!
Se me ausento, é por indiferença.
Tanto faz tudo isso...
Bons samaritanos:
Por que tão entediantes?
Que erro é ser muito correto.
Deixem-me aqui em paz!
Engulam o entretenimento barato,
Assistam às exibições mais chulas,
Mas não contem comigo!
Eu preciso estar só.
Profundamente comum
Levanto, porém não dormi
Meus pesadelos cochilam
Tomo um cafezinho preto
Imagens me sensibilizam
Ando só no ônibus lotado
Canto no silêncio tão alto
Inúmeras caras e roupas
À espera do próximo ato
Chego ao edifício, entro
Estou preso no elevador
Mais uma porta fechada
Ou a chance de ser ator
Cada um tem sua rotina
Ganhos, perdas normais
Seria o paraíso a Terra?
Céu eu creio que jamais
Ando, corro, paro e volto
Entretenimento vale tudo
Esqueço, então, de mim
Contemplando o absurdo
Até que ponto se é feliz?
Há quem vibre na sexta
Sorrio e choro neste dia
Sou homem, logo besta.
Data marcada
Duas semanas na expectativa
Para na hora nada acontecer
Não diga que não foi avisado
Seu problema passa por crer
Só água gelada no chuveiro
Lá fora há chuva e decepção
Bem-vindo à árdua realidade
Mais uma fantasia foi em vão
Deve ser por isso que rasga
Tal como um canivete suíço
Dia a dia sem ter confiança
E sendo visto como omisso
Levante para cair novamente
Tenha fé, mas se arrependa
Faça planos e logo esqueça
Ateie fogo na pútrida agenda
Sem esperança no momento
Um horizonte de zero queixa
Precisa haver algum controle
Só que a ambição não deixa.
Chance da vida
Você deve estar pronto para a hora
O momento aguardado para brilhar
Não deixe passar tal oportunidade
Sob risco de ela nunca mais voltar
É a chance da vida, o grande lance
Nada pode ser tão impressionante
Dia em que o guri se torna homem
E a mulher dele está deslumbrante
Todos encontram a situação ideal
Não afirme que a sua não chegou
Eu vim ao mundo há algum tempo
Não foi um pastor que me mostrou
Se conheça para saber o seu valor
Cada um aceita o que crê merecer
A vitória bate na porta pela manhã
Porém muitos escolhem adormecer
Sem autoajuda ou conversa bonita
A questão decisiva é querer evoluir
Tem que sair da comodidade banal
Para uma nova realidade poder vir.
Você nunca será como ela
Não questione no que penso
Nas longas noites de insônia
Nos breves passeios na praça
Eu responderia sem cerimônia
Seria um evento desagradável
Tanta sinceridade numa só vez
Mas não tem como substituí-la
Ninguém marcará como ela fez
O seu cabelo está mais longo
O seu perfume é igual ao dela
E até os gostos são parecidos
Só que a vida não é mais bela
Eu adoraria poder esquecê-la
Olhar para a frente e aproveitar
Sem um fantasma aqui comigo
Em doce fantasia a assombrar
Não, você nunca será como ela
Irá chegar a ocasião de admitir
Sou grato pela sua companhia
Porém me tortura ter que omitir.
Água com gás
Vou te dizer o que me faz levantar
Sem ela não consigo sair do lugar
Seu gosto é a autêntica satisfação
Mal sou capaz de esboçar reação
Dominada, minha alma desabafa
Desejo sempre mais uma garrafa
O primeiro e o último pensamento
Encantado, elaboro um juramento
Quero tê-la comigo até o dia final
Nossa relação traz prazer abissal
Meu irmão, faz bem para a saúde
Sou tomado pela energia amiúde
Segunda-feira, sexta ou domingo
É parceira para enfrentar o perigo
Me acompanha por toda a pampa
Prenda esbelta e de fina estampa
Que a musa seja, enfim, revelada
E possa assumir qualquer parada
Tu que aqui chegaste descobrirás
Sim, sou louco por água com gás.
Presente em anônimo
Vou entregar um presente em anônimo
Pois não imagino ganhar nada em troca
Sou movido pela mais pura admiração
Não tem importância se fizerem fofoca
Mundo estranho este que inventamos
Acabar relação por um chat é normal
Demonstrar carinho está em extinção
Vivemos sedentos por sentimento real
Que os urubus me chamem de maluco
E as invejosas desmereçam o ocorrido
Gente meia-boca tem em todos cantos
Corro para compensar o tempo perdido
Se a garota por acaso lembrar de mim
Assim que abrir o pacote tão misterioso
Já que outro cara não teria tal iniciativa
Ninguém poderá apagar o ato glorioso.
Contemplação
O que tu me entregas é tão pouco
Mas não me imagino sem ter isto
Eu não apostaria no nosso futuro
Só que por algum motivo insisto
Quando vejo teu riso espontâneo
Sou transportado a anos dourados
Com a mágica que nos torna livres
E prontos para os dias ensolarados
É um milagre contemplar a beleza
Quando a realidade fecha portas
Erguendo barreiras em sequência
Nos afastando das melhores rotas
Como eu gostaria de tê-la uma vez!
Por um minuto, em tom de despedida
A ponto de confundir com uma ilusão
Doce que nem a mulher mais querida.
