Poema de Mario Quintana a Pessoa Errada

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Para não corar diante da sua vítima, o homem, que começou por feri-la, mata-a.

Se não estás disposto a matar aquele a quem pretendes odiar, não digas que o odeias; estás a prostituir tal palavra.

Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade.

Os homens geralmente preferem ser enganados com prazer a ser desenganados com dor e desgosto.

As obras de caridade que se praticam com tibieza e como que a medo, nenhum mérito, nem valor têm.

A estirpe herda-se e a virtude conquista-se; e a virtude vale por si só o que a estirpe não vale.

As pessoas importantes fazem sempre mal em se divertir à custa dos inferiores. A troça é um jogo, e o jogo pressupõe a igualdade.

Os conselhos dos moços derivam das suas ilusões, os dos velhos, dos seus desenganos.

Existem a beleza que excita, a que comove e a que satisfaz: a melhor é a última.

Os grandes, os ricos e os sábios sorriem-se: os pequenos, os pobres e os néscios dão gargalhadas.

O que vulgarmente faz que um pensamento seja grande é dizer-se uma coisa que nos conduz a muitas outras.

O nascer não se escolhe e não é culpa nascer do ruim, e sim imitá-lo; e é culpa maior nascer do bom e não imitá-lo.

O dever dos juízes é fazer justiça; a sua profissão, a de deferi-la. Alguns conhecem o próprio dever e exercem a profissão.

A maledicência pode muitas vezes corrigir-nos, a lisonja quase sempre nos corrompe.

Ser-se livre não é nada fazer, é ser-se o único árbitro daquilo que se faz ou daquilo que se não faz.

As crenças religiosas fixam as opiniões dos homens, as teorias filosóficas perturbam-nas e confundem.

Há muita gente boa e feliz, porque não tem suficiente liberdade para se fazer má e desgraçada.

Na admissão de uma opinião ou doutrina, os homens consultam primeiramente o seu interesse, e depois a razão ou a justiça, se lhes sobeja tempo.

Os moços de juízo honram-se em parecer velhos, mas os velhos sem juízo procuram figurar como moços.

Todos se queixam, uns dos males que padecem, outros da insuficiência, incerteza, ou limitação dos bens de que gozam.