Padre Fabio de Melo Cultivo
"Ele está sempre junto"
Não importa se chove ou faz sol.
Não importa o muro, a classe, o silêncio.
Jesus está ali.
É como olhar no espelho e ver o rosto marcado,
o olhar cansado, que não suporta mais.
Você acha que é só você.
Só dor. Só cansaço.
Mas então a ficha cai:
não era o seu reflexo.
Era a imagem e semelhança do seu Criador.
E naquele instante você entende:
o que você vê não é só ruína.
É o mérito de Cristo em você.
E tudo muda.
Porque a dor ganha endereço.
O sofrimento ganha sentido.
E o amor que se entregou por todos,
sem exceção,
se revela onde você menos esperava:
em você mesmo.
Por Marcio Melo
Não tente impedir um romancista e poeta
de acreditar no amor. Será frustrante.
Pois ele acredita que o verdadeiro sentido da vida
é o amor.
Tentar destruir o que nele foi construído
e edificado como uma fortaleza
é uma luta perdida.
Um poeta romântico vê beleza em tudo,
até nas mínimas coisas
que para muitos nem existem.
Mas para ele, na sua profunda sensibilidade,
cada detalhe abre um universo de possibilidades.
É um olhar que nasce com o sol da manhã,
como um renovo cheio de esperança.
Ele sente a vida nos sons da natureza
e se enxerga nas outras espécies
como parte do todo,
onde nada está separado.
Assim é o olhar do romancista e do poeta:
ver além dos objetos
e encontrar o sentido do existir
em sua plena totalidade.
Um só
Marcio Melo
Um dos maiores males espalhados pelo mundo
é a ideia de que todo o mal
é causado por algum demônio em particular.
São tantos demônios que destroem e consomem o mundo
que perdemos nossa identidade humana.
E agora, quando olhamos para o outro,
só conseguimos enxergar um demônio.
Marcio Melo
"Mudanças"
Basta mudarmos de atitude
e recriarmos nossas palavras.
Nossos atos mudarão as pessoas ao nosso redor,
até os sons da vida mudarão ao nosso redor.
Basta mudarmos os pensamentos,
e mudaremos a forma como vemos o mundo.
Pra começarmos, enfim,
a dar sentido real à vida.
Marcio Melo
Inverno quente de 1998
"Quando eu partir"
Um poeta me ensinou
que nada vai parar quando eu partir desta jornada.
Que a vida continuará como se nunca me tivesse conhecido.
A primavera virá,
e trará suas flores sem pedir licença.
O sol nascerá,
e pintará o mundo com cores que não me pertencem.
As pessoas rirão, trabalharão, chorarão,
e seguirão vivendo
como se a ausência fosse apenas vento.
Minha ausência não mudará a rotina,
não quebrará o relógio,
não alterará o fluxo da vida.
As ruas continuarão cheias,
as mesas postas,
os dias contados sem o meu nome.
Ao deixar esta vida,
o único que deixará de existir aqui serei eu.
O mundo segue.
A terra gira.
O amor e a dor trocam de lugar em outros peitos.
Nada muda.
A vida continua.
Marcio Melo
Inspiração: “Quando vier a primavera”
de Fernando Pessoa
"O Peso dos Pensamentos"
Eu não penso tanto quanto pensava antes.
Com o tempo a gente descobre que pensamento pesa. Pesa nos ombros, pesa no peito, pesa na noite que não dorme. No começo é bonito pensar demais. Parece que se você pensar o suficiente, resolve o mundo. Resolve a vida. Resolve a dor.
Mas chega uma hora que a cabeça cansa de correr em círculo.
Aí você para.
Não é que pare de sentir. É que para de gastar energia tentando entender tudo de novo. O que já doeu, já doeu. O que já entendeu, já entendeu.
E é aí que começa o outro movimento: você para de pensar e começa a lembrar.
Lembra do que pensou há dez anos, há vinte. Lembra das conclusões que já tirou e esqueceu. Lembra das coisas simples que a pressa fez você jogar fora.
Talvez seja isso envelhecer: trocar a busca por respostas novas
pela coragem de olhar de novo pra resposta velha.
Marcio Melo
Manifesto do Nadar
Bati de frente com a ilusão e me decepcionei.
Schopenhauer me mostrou o mundo sem filtro. Dói, mas é real.
Nietzsche me deu a chave: se não tem sentido pronto, cria o teu.
Libertar-se é parar de pedir permissão pro rebanho.
Sartre pesou essa liberdade.
Você é livre, sim. Mas cada escolha tua carrega consequência.
Ninguém vive por você, e você não vive por ninguém.
Bauman me ensinou a nadar entre os maremotos.
O mundo é líquido, caótico, sem chão.
Não parei a onda. Aprendi a não me afogar nela.
E quando achei que precisava explicar tudo, veio Clarice:
_Nem tudo pede explicação. É mistério._
Então eu sigo.
Sem ilusão, com liberdade, carregando a responsabilidade,
nadando no caos, e respeitando o que não cabe em palavra.
Filosofando com os filósofos
De Marcio Melo
"A Maior Prisão"
A maior prisão do mundo
não tem grades.
Tem nome:
medo de não existir.
É a dor de acordar
num mundo onde foste inserido
e sentir que não fazes parte dele.
Viver se perguntando:
por que estou aqui?
É ser a prova viva
de que nunca viveste —
por medo de ser livre.
Porque liberdade fere.
Te deixa vulnerável, exposto,
sem parede pra te esconder.
Mas é ela que abre a porta.
As mesmas coisas que hoje te rasgam
serão amanhã teu aprendizado,
tua matéria-prima,
tua conquista.
E um dia
tu vais sentar de frente pro horizonte,
olhar o passado como quem assiste um filme,
e pensar:
tudo isso... foi meu.
Minha maior conquista
foi ter vivido.
Marcio Melo
"A nossa perspectiva de mundo, influenciará e moldar toda nossa vida e história."
Cosmovisão
Por marcio melo
Por amor à beleza
se prende um passarinho e cortam as pontas de suas asas.
Se arrancam as flores que crescem livremente
para decorar o ambiente —
e assim que murcham, são dispensáveis.
Por amor à beleza
aprisionam a alma livre
que agora sofre por não ter mais a liberdade.
Por amor à beleza
encobrem o natural com camadas artificiais.
Destroem em dias
o que a natureza levou décadas para gerar.
Por amor à beleza
a gente se destrói,
dando origem ao que não existe.
Ao que não é real.
Por arrogância.
Por necessidade de nos enganar.
E assim aplaudimos
a ilusão que construímos
a partir da beleza que destruímos.
Deformação
Marcio Melo
As Antigas Ruas de Pedras Lavadas
As antigas ruas de pedras,
as casas com cercas de ripas,
cobertas de rosas da roseira
que se alastrava
e se emendava com a da vizinha.
Colorindo.
Perfumando.
Um tempo que deixou saudade.
Na lembrança de um menino
que pensava como quem amava.
Inspirando versos.
Cresceu.
Tornou-se poeta.
Hoje ele vê
nas ruas antigas enfeitadas de roseiras
ruas de pedras lavadas
que ainda inspiram poemas.
Tempo de um tempo
onde ser criança
era viver a beleza encantadora da vida.
O menino cresceu
sem perder a essência.
Hoje é romancista. é poeta.
Marcio Melo
Fruta Caída
Aquela fruta que cresce na árvore
mas o vento forte a derruba
antes de amadurecer.
Enquanto as outras, firmes no galho,
amadurecem no seu tempo.
Ela se rompe.
Interrompida.
Começa a apodrecer.
Dispensada pelos pássaros
que se deliciam nas que ficaram,
só os fungos a comem
Mas fruta caída vira adubo.
O que apodrece no chão
alimenta a raiz da árvore.
Talvez o interrompido
não seja lixo.
Talvez seja o que faz
a próxima safra crescer mais forte.
A vida não desperdiça o que caiu.
Ela recolhe, transforma,
e faz do que apodreceu
motivo de vida nova.
Marcio Melo
"Quem é você?"
É a pergunta que a identidade-armadura não aguenta, porque ela exige resposta sem etiqueta, sem hashtag, sem palco.
E a resposta que você deu depois é o contragolpe:
A árvore não precisa declarar “sou árvore” o tempo todo. Ela só é.
O gato não passa o dia explicando por que não é cachorro. Ele caça, dorme, mia. Pronto.
O problema começou quando a gente esqueceu que ser humano também tem um “só ser”.
A gente trocou o ser pelo provar, pelo performar, pelo justificar.
Então a pergunta pra Gen Z e pras que vêm depois não é “qual identidade você escolhe hoje?”.
É: o que sobra de você quando tira todas as identidades?
Se a árvore tirasse a casca, ainda seria árvore.
Se o gato tirasse o pelo, ainda seria gato.
Se você tirar as máscaras, ainda sobra algo que não precisa de aprovação pra existir.
É aí que mora o “quem é você” de verdade. E é isso que nenhuma pauta, geração ou algoritmo consegue te dar ou tirar.
Por Marcio Melo
"O conhecimento ergue a mente como quem ergue uma casa: abre janelas, amplia os cômodos.
Só que ao clarear os cômodos, ele mostra quem não consegue mais morar ali com você."
Marcio Melo
O diabo não gasta flecha com quem já jaz caído.
Para os que se afogam na ilusão, ele oferece banquete e riso,
para que durmam tranquilos no berço da distração,
sem ouvir o eco da própria ruína.
Mas aos que sangram de pé,
aos que seguram a fé como quem segura a vida,
a esses ele persegue.
Porque são os únicos que ainda podem escapar.
E é deles que ele quer roubar a alma,
arrastando-os para o brilho falso da sua festa.
A festa e o ilusionista
Por marcio melo
Bomba de paz
Uma bomba nuclear espalha radiação que envenena por décadas.
Uma bomba de paz espalha consciência que quebra o ciclo antes da próxima bomba.
A primeira precisa de laboratório, dinheiro e sigilo.
A segunda só precisa que uma pessoa pare e não repita a vingança.
A primeira viraliza em 3 segundos.
A segunda demora gerações, e quase nunca vira manchete.
Mas se a conta da guerra nunca fecha, alguém tem que rodar outra equação.
Essa não mata ninguém pra provar que está certa.
Por marcio melo
"Lamento"
A vida é lamento.
Nem sei quem foi a peste que inventou o sofrimento.
Será que eu só lamento?
O que dói é angústia,
a dor que machuca,
essa tortura que nunca acaba.
Parece até praga.
Uma injustiça desgraçada.
Quem aguenta?
Na vida só se leva pancada.
Quando parece que vai terminar...
Aí é hora de outra vez lamentar.
Marcio Melo
O Idiota
Idiota é quem cospe na mão que lhe estende a verdade.
Orgulha-se da própria cegueira e chama isso de opinião.
Ignorância por escolha.
Teimosia por vaidade.
E ainda acha que o problema é o mundo.
Marcio Melo
Ciclo
Eu me apaixonei
pra não desapaixonar.
Te amei
pra nunca na vida te desamar.
Porque quem se apaixona não deixa
até virar amor.
E quando vira amor, não quer acabar.
E não acaba.
Porque a paixão é o fogo
que esquenta o amor.
Que de paixão nunca falte ao amor,
nem ao amor a paixão que o alimenta.
Marcio Melo
Infância
Brincadeiras que alegraram a infância
que nunca se esquece e trazem boas lembranças.
O jeitinho especial de enrolar o fio no pião,
de desbicar a pipa no céu,
de dar um relo.
A alegria das meninas pulando amarelinha.
O futebol — esse fica até a vida adulta,
paixão nacional.
Ah, infância bonita
de uma alegria espontânea!
Das corridas, do esconde-esconde...
Saudade danada da minha infância.
É uma pena não poder voltar
ao meu tempo de criança
e brincar tudo outra vez.
Marcio Melo
