O Valor do ser Humano Rubem Alves
Talvez o problema seja o conceito de "amor": para o religioso médio, amar parece ser o ato de odiar fervorosamente qualquer um que não se curve ao seu delírio coletivo.
Um ser imortal não pode se sacrificar de verdade: quem pode morrer infinitas vezes nunca perde a vida, logo, Jesus nunca se sacrificou pela humanidade!
Defendo a pena de morte apenas para os niilistas, os suicidas, os negadores da vida devem ser jogados de volta ao nada!
Existe um niilismo religioso existencial. Alguns religiosos podem simultaneamente ser niilistas ao acreditar que a vida neste mundo seja vazia enquanto apenas esperam por uma vida após a morte que não sabem se será melhor. Eles acreditam que divindades existem, enquanto também acreditam que as divindades não têm propósito nenhum para com humanidade, como se a humanidade fosse apenas um tipo de brinquedo divino.
Nada é mais agressivo à inteligência do que a ideia duma vida eterna sob o comando dum ser que exige louvor constante; se o cristianismo é real, a destruição definitiva da minha consciência é o maior prêmio de liberdade que eu poderia receber.
Eu nunca vou ser um filosófo, não tenho roupa para isso, inclusive eu não fumo e não tenho um cachimbo!
Nos esforçamos tanto para ser inesquecíveis que acabamos virando apenas um rascunho mal feito na memória de quem nunca soube ler.
A vida é feita pra ser tocada com os pés descalços
A cada passo, cada compasso e a cada braço
A onisciência divina deve ser um tédio absoluto. Imagina saber de antemão que cada oração é apenas um pedido de aumento de salário ou a cura de uma unha encravada.
Sim, vamos todos morrer e ser esquecidos. Mas entre agora e a morte, podemos amar, criar, lutar, construir. O niilista enxerga só a morte. O humanista enxerga o "entre".
Chamam de tradição aquilo que sobreviveu não por ser verdadeiro, mas por ter sido imposto com eficiência.
A civilização só será real no dia em que a dignidade de um homem não puder ser comprada nem pelo ouro, nem pela promessa de salvação.
Ser "neutro" em um mundo de opressão é apenas uma forma polida de segurar o chicote para o opressor.
A vida não é a busca de um fardo pesado para se carregar, nascemos para ser livres e não escravos, podemos mudar e buscar algo mais leve sempre que necessário.
O ego é um vigia noturno que acredita ser o dono do prédio. Ele passa a vida trancando portas, sem perceber que o que ele mais teme já está do lado de dentro.
O amor não dói por ser intenso, dói porque revela o quanto somos dependentes do reconhecimento do outro.
