O Poema eu sei que Vou te Amar Inteiro

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Na adolescência eu era um anjo triste

Desses que perambulam,

que caem, que existem

melancólicos, sonhadores,cinzentos

Como os finais de tardes dos dias invernosos

A minha solidão respingava nas vidraças

Como a neblina fria jogada pelo vento

Que doía fundo na minha carapaça

E a minha angústia,

a dor daquele sentimento

A solidão de me sentir sozinho

Não era solitária, era uma multidão

E como cada um faz seu rumo, seu destino

De fazer da multidão, a sua poesia

Aquele garoto triste um dia teve o tino

Inserida por tadeumemoria

PROCISSÃO

Quando eu não tiver nada ainda terei as palavras

Terei o silencio e a virtude de saber não possuir

E as minhas palavras dar-se-ão as mãos

Numa ciranda a cantar poemas a edificar a solidão

E a minha solidão povoa,

Pavão, pavoa, encantos, penas e cantos

Leitos, lagoas, embarcação, canoas

Uma procissão, uma novena,

Meu verso vai de Tóquio a Cartagena

Porque minhalma não é pequena,

Minha estrofe é forte e minha verdade serena

E o meu silencio não dói; não dói quando passa a tarde

Quando passa o rio, quando passa o vento,

O meu silencio só dói quando passa o sentimento

Inserida por tadeumemoria

EU VI
eu vi um homem que não era mais homem
e tinha um olhar que não era mais seu
e tinha a ausência de todos os fantasmas
e tinha a asma de todos os gatos
e tinha os mistérios dos cemitérios
a pele morta, sem vida,
dentes sem precedentes
um odor inconcebível;
não era mais um ser vivente,
por mais que parecesse gente,
não era um cachorro,
os cachorros são felizes e são gratos,
os gatos têm orgulho,
era maior que um rato em tamanho,
mas revirava o lixo
com a ânsia desse bicho
eu vi um homem que não era mais homem
ou vi um bicho que não era mais bicho

Inserida por tadeumemoria

Eu fiz um samba tão triste

que quando saiu minha escola

desabou um temporal


chuva, vento e trovoada

e a minha batucada

parecia um berimbau


a letra do samba enredo

citava mistérios e segredos

de um sobrenatural


sob o frio tive medo

tremi voz, pernas e dedos

suei frio e passei mal

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eu tenho um olhar

somente um olhar

na manhã a passar na calçada

e os sonhos que eu tive

de um dia sonhar com a manhã

já passaram

ficou meu olhar

a olhar

o olhar da manhã a passar

Inserida por tadeumemoria

PREFÁCIO

Trinta anos atrás eu amanhecia,

Encantado com as espumas

Que as ondas provocavam

Ao baterem impertinentes contra o quebra-mar

E politicamente radical

Com os cachos dos meus cabelos castanhos

Ou o black power do meu irmão; eu era um contestador

Há trinta anos atrás a gente sorria mais fácil

E era mais fácil ser politicamente radical

Há trinta anos atrás bastava um sonho,

Uma postura e a ilusão da democracia;

As utopias revigoravam nossa ideologia

Há trinta anos atrás,

Eu só tinha trinta anos

E trinta Anos era uma eternidade,

Agora eu tenho duas eternidades

E este desejo que arde

Como se eu tivesse treze anos

Cronologicamente o meu cérebro não se deu conta

Que passou tanto tempo

E meu coração não se deu conta de seus efeitos.

Ainda me encanto com o alvorecer,

Com os tons de cada estação,

Com os pássaros, com o que vejo ou só imagino...

Com essa coisa nova que tilinta, que sussurra, que sopra,

Que canta, que me desperta

Que me faz correr como se eu fosse um menino

E então qualquer momento é uma eternidade...

E eu sonho... é o meu destino...

Eu sonho...

Inserida por tadeumemoria

TEMPO

O tempo já levou o meu olhar faz tempo...

Faz tempo que eu olhava o tempo

Com a esperança vã de um dia em algum tempo

Que essa coisa toda que envolve a gente...

Nem sei se é assim...

Mas pelo menos em mim, faz tempo...

Sempre quis entender, mas essas coisas do coração...

O tempo foi passando e passou o tempo do entendimento

Agora eu só percebo que o silencio

Vai além do que comove e o que se locomove

Rodopia com a poeira dos meus pensamentos...

Eu sei que vou sonhar ainda até que entenda

Que o tempo já levou o meu olhar faz tempo

Faz tempo que eu tento entender o que se passa

E não passa este acreditar no amor,

Esse ter fé e esperar nos meus pressentimentos

Faz tempo que eu olhava o tempo,

Faz tanto tempo... tanto tempo, que naquele instante

Que ainda não era o nosso tempo e as nossas mãos

Se uniam a tecer a eternidade

E éramos deuses de todos os momentos

Que nem percebemos o galopar veloz

Desse corcel indomável que se chama tempo

Inserida por tadeumemoria

FILHO DO SILÊNCIO

filho do silencio, eu e escutei cantigas antigas

que a ternura doce e materna soprava na brisa;

tinha a beleza de tudo que a infância embeleza,

a beleza do que não é belo, mas embeleza o espírito,

a beleza porque tudo é novo quando se é criança...

e tudo é paixão quando se tem espaço no coração;

guardei sorrisos, olhares, palavras,

alguém que passava mas deixava o perfume,

alguém que falava ou balançava os quadris,

alguém que só existisse na minha imaginação;

que contemplasse o que tivesse movimento, aroma e luz,

armazenei colinas e silhuetas, o que cintilasse, o que gorjeiasse,

o que sorrisse, o que vibrasse, o que silenciasse;

porque às vezes silenciamos para as coisas que partem

ou para o que não temos explicação

e assim eu me tornei filho do silêncio

quando silenciei pro meu pai, pra minha mãe,

pra todas as despedidas, pra tudo o que partia,

pra tudo o que se partia

e me transformei em órfão dos sonhos, das promessas, dos ideais...

Inserida por tadeumemoria

Eu sempre quis de ti o que era fugidia

O que era fugaz, o que era quase ou por um triz
A loucura da procura, a aventura da caça;
Eu sou um predador...
O difícil de querer me seduzia,
Mas quando eu via e pegava,
Desacelerava, morria o interesse da caçada;
O prazer se reduzia a quase nada...
Acho que amo os desencantos
Eu não queria ser assim...

Se algum dia eu sonhar com algo que não for poesia,
Se algum dia os desencantos não me encantarem,
Talvez eu esteja preso
Entre tuas pernas e os teus braços
No abraço do poema do prazer,

Como se a vida fosse alguns gemidos de paixão ou de amor
Mas a vida é uma selva e eu sou um predador

Inserida por tadeumemoria

A coisa mais bonita do mundo dá uma ansiedade,

Quando não acontece dá uma saudade

Então eu penso que o mundo dá tantas voltas...

E eu não mudo... já ficou tarde e eu ainda penso em você

Uma canção de longe quando amar não era brega

Me devolve momentos bonitos,

Agora eu fico aflito e tenho que obedecer regras

Mas nada impede que eu sonhe e acredite no verso

O amor é sem dúvida todo esse universo

Inserida por tadeumemoria

ALGO NOVO
Eu queria te dizer alguma coisa nova...
Mas parece que tudo já foi dito;
Inédito mesmo só o que deixamos de viver...
Então eu digo: desculpe-me por tudo o que fiz,
Eu já me perdoei pelo o que não fiz...
Corriqueiro, sempre digo:
Me arrependo mais pelo que deixei de fazer;
E não são raras as vezes que eu questiono
Meu Deus, o mundo ainda não acabou!...
O mundo ainda não acabou. Somos sobreviventes...
Vencemos o tempo; o tempo de todas as coisas,
O tempo de olhar os horizontes... de observarmos os pássaros,
De ouvirmos a brisa...
Perdoa por tudo o que fiz eu já me perdoei pelo que não fiz...
Isso clareou meus cabelos, riscou meu rosto
E as noites são longas, perdidas nos abraços
Que deixamos de dar...
Em tudo o que deixamos de entender...
Mas isso já foi dito; eu queria te dizer algo novo...
mas alguma coisa esmaga o silêncio...
Uma verdade pesada, numa manhã luminosa,
Uma luz intensa... que não cabem nas palavras...

Inserida por tadeumemoria

DEZ OLINDAS
se ela não fosse bonita
com a beleza que eu vejo
ela já era linda

mas ela era bonita
com a beleza que eu penso
e a beleza que eu penso,
penso mais que dez Olindas

tinha todos os deslimites
que a beleza do mar
tinha a imensidão do sonho
e o sonho imenso de amar

Inserida por tadeumemoria

DOLCE AMORE MIO
Um dia eu apareço no teu sonho
E te mostro o tamanho do meu coração,
Um dia eu te mostro
Como a minha paixão é densa...
Pensa numa coisa imensa sobre outra coisa
E entra e sai...
E entra e sai e coisa numa coisa intensa
Compensa qualquer sacrifício
Esse é o meu ofício,
É um vício, é ócio, são ossos do ofício...
Um dia eu apareço e te mostro
Um dia eu te mostro o mastro da minha paixão,
Navio a cortar vagas,
A vagar no cio desse teu desejo,
Um dia eu apareço...
Um dia eu apareço, dolce amore mio...

Inserida por tadeumemoria

O ANO PASSADO
Depois do meu milésimo ano...não, eu não sou nenhum vampiro, muito menos Matusalem, só conjecturo sobre vidas passadas que provavelmente possa ter vivido. só queria uma lembrança mais marcante do ano passado; é exatamente isso, o ano passado; não ao pé da letra, não literalmente. Sabe aquela foto desfocada que amarelou e você tenta decifrar os detalhes, mas o perfume daquele tempo ainda invade as tuas narinas... ah, o ano passado! assim a Aldeota deixou aquela fragrância em mim; suas torres perfuravam meu coração, seus condomínios que encarceravam meus fantásmas, seus prédios que usurpavam minhas paisagens; baby sitters que me seduziam ou só abusavam do meu encanto. O ano passado, quando na foto você percebe que aquela roupa era ridícula que o penteado era brega, mas uma magia fascinava tudo romanticamente, pois ainda havia a esperança, a ilusão de que tudo teria melhores perspectivas, não é o caso desse nosso presente... então percebemos que o ano passado foi melhor e que o ano anterior ao ano passado foi melhor ainda. Acumulamos decepções, desilusões; os sorrisos parecem mais deboches, os gestos, uns escrachos e a realidade caminha capenga e escarpada como uma ameaça ao que tínhamos de esperança.
Ainda me levanto pela manhã crendo que um anjo refrigera a brisa que bate-me no rosto e seus raios de sol doura nos a pele como um consolo ao que de imbecil espora nos as costelas e presenças nocivas que me fazem querer de volta o ano passado

Inserida por tadeumemoria

ADEUSES
Ainda não falei sobre os adeuses...
as vezes era noite, as vezes era dia, as vezes eu perdia a noção do tempo,
ou eu ainda não tinha noção de nada...
hoje diria que perdi muitos outonos, que despetalaram as primaveras, ou talvez atordoado... tantos "jabs" me deixassem grogue, e eu olhasse cuidadosamente as dependências farejando qualquer resquício de uma presença, de uma ausência num utensílio numa peça de roupa esquecida. A solidão sempre faz surgir fantasmas pelos corredores, barulhos de passos, sussurros, um grilo impertinente, até que o espelho da penteadeira reflete as lágrimas tardias que não caíram no momento da despedida. Xícaras copos, pratos, colheres e migalhas silenciam o colóquio dos últimos momentos de despedida; fica então, tudo tão quieto, e uma brisa vinda não se sabe de onde sopra fria...

Inserida por tadeumemoria

MISTÉRIO
Quem sou eu?
Toda manhã diante do espelho
Eu me pergunto isso
E o espelho me mostra pelo avesso,
Minhas palavras se multiplicam
No vazio deste universo;
Quem sou eu; isso é perverso, penso,
Mas saber-me exato seria o inverso?

Inserida por tadeumemoria

ÁGUA
Eu acho que estou ficando louco,
Eu acho que estou ficando um pouco
Eu acho que estou ficando é pouco;
Eu acho que não sei pensar,
Eu penso que não sei achar você
Vivi devaneios, sofri bombardeios,
Venci por você a batalha do waterloo;
Mas continuo batido, e você continua intacta
E rir e faz pouco, e me chama de louco
E eu acho tão legal ser louco por você...
Acho tão louco ser normal sem você
E tudo isso me encuca,
Eu acho que estou ficando biruta...
Hoje saí pela rua cantando ébrio de vicente celestino,
Dançando tango argentino, vestido de reverendo
E um inocente menino perguntou-me quem eu era
Eu disse que eu era o unigênito o deus dos exército
Que estava apaixonado por você...
E que você era a sereia, a baleia
Ou qualquer diabo aquático que me ncantou...
Eu já estou falando água,
Eu já estou molhando o papo, eu sou um pato...
Falei tanto e o que eu queria explicar,
Não era bem isso ou talvez fosse
Mas o sentido das coisas se perde no pulsar das emoções
E o senso do que é razão talvez ganhe sentido
Exatamente na essência dessa loucura...

Inserida por tadeumemoria

⁠Triste eu não fico
Eu dou qualquer motivo pra felicidade
Eu canto uma canção de amor,
Eu planto uma flor, eu faço uma viagem
Que solidão que nada, eu flerto com a lua
Paquero as estrelas até de madrugada...
A minha namorada ainda não é minha
Mas sorrir e se despe enquanto
Caminha suave na minha direção
Nos momentos mágicos das minhas fantasias...
Ou na monotonia da minha solidão

Inserida por tadeumemoria

⁠REFÉNS
Até que eu entenda a noite
os morcegos ainda se debatem nos últimos raios da tarde
os tons de um cinza moribundo embaçam silhuetas
e nos velórios ainda se constatam
que os olhos dos mortos estão abertos...
os sonetos procuram suas rimas,
sonolento se declinam os poetas
sobre o silencio obsoletos das palavras;
lacônica a eternidade sintetiza um sorriso, um olhar, um aceno;
obscenos desejos que se enlaçam
até que eu entenda a noite
o vampiro crava as presas na jugular da donzela;
os sinos da catedral anunciam um apocalipse,
o inverno se derrama catastrófico sobre a periferia;
até que se entenda a noite
sob a imensa ilusão do que é imensamente ínfimo
no íntimo qualquer paixão derrama estrelas num olhar
até que se entenda a noite
como um véu que nos conduz ao abismo
e seus mistérios que nos mantém reféns da dor e do prazer

Inserida por tadeumemoria

⁠RESSENTIMENTO
antes que eu esqueça,
a enxaqueca de zulu, impertinente me deixava,
nas minhas retinas, os reflexos do sol nos vitrais do edifício;
é difícil... alguém será feliz em algum lugar?
em algum lugar uma razão qualquer
que sustente a nossa fé e nos conserve a razão...
meu amigo Bráulio, eu que sempre lhe dei a mão,
atente para o que digo;
viver é um perigo, nosso único amigo é a solidão
não andei lendo Dante, kafka ou Pessoa,
acho que aprendi a amar sozinho;
sozinho você ama por telepatia,
por telepatia você ama todo mundo,
e os imundos, você manda aos infernos...
Freud explicaria esse meu lado divino
de fazer faxina e dar ao lixo, destino?
parece besteira mas não é brincadeira
como o mau me incomoda; ando tão sozinho,
vivo tão sozinho, mas essa multidão que habita em mim:
Dante, Kafka, Pessoa, Carolina de Jesus
e quem sou eu no meio de tanto sentimento,
tanto ressentimento... eu sufoco este algoz,
tenho que ser alguém melhor... se sou Deus, tenho que ser amor...

Inserida por tadeumemoria