Nove Noites de Bernardo Carvalho
ESMERALDA
Desce a ladeira da Glória Esmeralda,
Desesperada e maltrapilha,
No seu pescoço guizos e carretilhas
Balançam num enredo desarrumadas.
Pobre criatura nos carnavais,
Descalça, pés sujos e roupas rasgadas,
Nas ruas cata latinhas amassadas
E as vende por alguns míseros reais.
Gasta com fantasias e lantejoulas,
Ao imitar formosa e conhecida rainha,
Que na verdade perdeu tudo que tinha
Na pobre ideia do gosto de quero mais.
Nas calçadas quando se vai a ilusão
Mendiga centavos, escreve a sua história,
Quando muito mal um pão é a sua glória,
Vive escrava da alienação.
Sua mente distorce a realidade,
Vê nos olhos de quem passa a desilusão,
Mal conhece ela a piedade
Quando alguém lhe estende a mão.
Aí a jovem moça esguia
Conhece nas mãos da solidariedade
Algo mais, uma forte amizade,
Um sentimento de renovação.
Sobe a ladeira da Glória Esmeralda,
Entra em seu casebre de madeira,
Na mesa simplória a fruteira,
Guarda o vazio do seu coração.
Mesmo nas universidades brasileiras ditas melhores, o que de mais digno e elevado se vê, pelo menos na área de "humanas", é só o cumprimento rotineiro de obrigações regulamentares, sem nenhum entusiasmo pelo conhecimento, sem nenhuma paixão pela descoberta da verdade.
Se todas as faculdades de filosofia, letras e ciências humanas do Brasil fossem fechadas, isso não traria nenhum dano econômico nem cultural para o país. Só teríamos de encontrar, para alguns milhares de analfabetos funcionais, o número suficiente de empregos braçais para os quais eles estão qualificados.
O diploma de curso superior, no Brasil, não se define pelo que ele dá a quem o tem, mas pelo que ele nega a quem não o tem.
"Deus nos perdoa e portanto nos aceita como amigos novamente, como convidados para ir ao Céu conviver com Ele pelos séculos dos séculos. Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir na oração do Pai Nosso: 'Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido', e se nosso conceito de perdão se resume à exclusão da presença da pessoa perdoada, Deus fará assim mesmo conosco. Perdão de verdade é perdão ao modo do amor divino, e não existe outro. 'Perdoar' e excluir a pessoa é vingancinha, birrinha de gente que não tem a mínima noção do quanto e como Deus nos perdoa, até os limites inimagináveis."
"Quando alguém lhe pede perdão — supondo-se que o faça com sinceridade –, alça você à posição de um juiz, sacerdote ou governante, e assim lhe confere uma honra tão grande, que dar-lhe o perdão solicitado se torna um ato de gratidão.
Quando, ao contrário, você oferece um perdão não solicitado — ou, pior ainda, não desejado –, é você mesmo que se coloca nessa posição superior e, com soberana empáfia, joga uma migalha aos cachorrinhos.
Por isso, se alguém que o ofendeu não lhe pede perdão, você pode perdoá-lo em pensamento e orar para Deus perdoá-lo, mas guarde silêncio e não saia logo posando de magnânimo. Se, em vez disso, ele lhe pede perdão, não se faça de rogado: corra em oferecer-lhe mais que isso — a sua amizade.
A maioria das pessoas que se dizem cristãs não tem a menor noção dessas coisas."
"Há pessoas tão puras, no seu próprio entender, que não se conformam com a idéia de que o perdão divino elimine o pecado do campo da realidade eterna. Querem porque querem que sempre sobre alguma coisinha. Nem de longe percebem que isso contradiz na base a noção mesma da bem-aventurança eterna."
"A idéia de um Deus que perdoa ou condena quando bem lhe dá na telha é islâmica, não cristã. Deus comprometeu-se a respeitar o perdão sacramental até o fim dos tempos, e nada O fará mudar de idéia. Ele pode estender o perdão a pessoas que não receberam a absolvição sacramental, mas não tirá-lo dos que a receberam."
"À intransigência feroz que devemos colocar na defesa de valores e princípios que são superiores a nós corresponde, simetricamente, a presteza que devemos ter em perdoar, sem discussão nem nhem-nhem-nhem, toda ofensa pessoal que recebemos."
Nossos pecados vão deixando pelo caminho um rastro de lixo cósmico que nenhum esforço humano poderá jamais limpar. A ânsia de 'salvar o planeta' não passa da fantasia projetiva de uma culpa coletiva que se camufla em sujeira material — exatamente como a de Lady Macbeth, que reprime a consciência do seu crime lavando obsessivamente as mãos.
Existe algo no meu modo de ser que excita a imaginação odienta de algumas criaturas até levá-las à completa demência. Não sei o que é, mas suspeito que a simplicidade do óbvio ofende brutalmente quem não o percebeu antes.
Ver um filme -- qualquer filme, mesmo ruim -- é como sonhar. Se alguém fala com você, o sonho acaba e não emenda mais. Talvez no dia seguinte, ou na outra semana, quando a conversa desapareceu da sua memória.
A idéia de 'engenharia do consenso' é a mais imoral que já passou pela cabeça de um falso amante da democracia. Ou você respeita o consenso já existente, formado pelo tempo sem engenharia nenhuma, ou só aceita um povo que você mesmo adestrou para pensar como você.
Há anos não tenho outra ocupação senão buscar vinte e quatro horas por dia a verdade da existência, até quando estou dormindo. Tudo o mais, para mim, é frescura e encheção de saco, inclusive aquelas coisas que as pessoas em geral consideram as mais interessantes e divertidas. Inclusive uns noventa por cento daquilo a que chamam 'filosofia' e 'religião'.
Na adolescência eu já tinha o pressentimento de que tudo o que não dissesse respeito diretamente ao destino e aos sofrimentos dos seres humanos era só algum tipo de frescura. Praticamente todos os adultos em torno me pareciam crianças brincando. Ninguém era sério.
Cheguei a essa conclusão não porque tivesse sofrido muito, pessoalmente, mas porque tinha VISTO muito sofrimento, muito acima do que eu podia explicar ou consolar.
Aos quatorze anos, meus olhos já estavam cansados de ver tristezas.
O universo que eu via era uma imensa creche, onde todo mundo estava dodói, mesmo com os bolsos cheios e estourando de saúde.
Nada me deprimia mais do que a autocompaixão do homem rico, que cuidava de si mesmo como se fosse um doente terminal.
O único exemplo de força que me chegou, e isto só por volta dos vinte anos, veio do meu amigo Otto. Ele NUNCA era o coitadinho que não tinha tempo para os problemas dos outros.
Se o trabalho a que você se dedica já não é sua própria recompensa, toda recompensa será prejuízo.
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O dever, a verdadeira vocação, está infinitamente acima do prazer e da dor que acompanham todo esforço.
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O dever, por mais tedioso ou doloroso que pareça, é o único sentido da vida.
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A vida, dizia José Ortega y Gasset, é como um soneto que recebemos pronto com um verso faltante. O dever consiste em completá-lo com métrica e rima.
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Seu dever, ensinava Victor Frankl, é aquilo que a situação exige de você e só de você.
Vocês nunca me viram defender, em bloco, nenhuma doutrina, escola ou corrente de pensamento. Só escrevo sobre pontos precisos e determinados que estudei pessoalmente.
Como neste país só há repetidores de generalidades, ninguém sabe lidar com pontos precisos e cada um tenta adivinhar, por trás daqueles que exponho, alguma generalidade entre as que ele já conhece; e, julgando esta última, crê que julgou a mim.
Não temos filósofos, mas, em compensação, temos milhares de representantes autorizados de tudo quanto é idéia pronta.
No Brasil cada um raciocina com os próprios miolos, usa o pensamento crítico e exerce uma tremenda independência de julgamento para aderir à opinião da moda sem precisar saber de nenhuma outra.
