Nove Noites de Bernardo Carvalho
Não escrevo com facilidade. As frases não me vêm prontas. Vêm compactadas em fórmulas algébricas, algoritmos dos quais podem se desenvolver muitas frases diferentes, umas boas, outras ruins. Tenho de testar uma por uma.
Stalin foi o maior estrategista revolucionário de todos os tempos. Os efeitos de sua ação criadora chegaram às terras tupiniquins e ainda estão entre nós.Todo o panorama político nacional está hoje montado segundo o esquema delineado por ele nos anos 30. Mas, dos poucos que têm envergadura intelectual para enxergar isso, quantos têm interesse de discuti-lo em público?
A abertura para a razão é educação. Educação vem de ex ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real. A meta da educação é a conquista da maturidade. O homem maduro — o spoudaios de que fala Aristóteles — é aquele que tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade para o bem. Este ponto é crucial: ninguém pode guiar a comunidade no caminho do bem antes de tornar-se maduro no sentido de Aristóteles. Líderes revolucionários e intelectuais ativistas são apenas homens imaturos que projetam sobre a comunidade seus desejos subjetivos, seus temores e suas ilusões pueris, produzindo o mal com o nome de bem.
Quem gosta SERIAMENTE da vida natural, em vez de gostar só da sua imagem estereotipada politicamente correta, não hesita em fazer o que os animais fazem de mais natural, matando-os para comê-los.
A pressa com que nosso povo copia hábitos e modos de falar estrangeiros, dando mesmo a seus filhos nomes ingleses ou franceses, mostra a profunda indiferença popular por uma cultura que nada tem a lhe dizer sobre o sentido da vida e que, no máximo, lhe fornece, na música popular, no futebol e no Carnaval, os meios e a ocasião de se anestesiar, por meio de ruídos sem sentido, contra o sem-sentido da vida.
O amor humano vem mesclado de tantos elementos fisiológicos, lúdicos, sociológicos etc., que não passa de um vestígio remoto, uma sombra ou mesmo uma caricatura do amor divino, mas nem por isso ele deixa de ser real na sua própria escala. O amor divino devolve os mortos à vida, ao passo que o amor humano às vezes mal chega a aliviar um pouco os sofrimentos da pessoa amada. Mais do que todos os males e pecados, o amor humano é a prova da nossa miséria. O santo que intercede por nós tem um coração mais ardente de amor do que todos os amantes de todos os séculos. Levei setenta anos para perceber isso.
Uma das mais fundas perversões da mente moderna é a propensão incoercível de, diante de um caráter humano composto, como todos, de virtudes e vícios, acreditar, "a priori" que aquelas são apenas camuflagens e só nestes últimos reside a realidade íntima da pessoa.
Educar, despertar inteligências, criar redes de intercâmbio cultural, tirando os jovens estudiosos de um isolamento que os oprime e debilita -- isso é TUDO o que me interessa, o objetivo e a justificação da minha vida. Quaisquer opções políticas estão subordinadas a isso. Infelizmente, não é possível realizar essa atividade sem que nela se intrometam pessoas que têm mil e um objetivos diferentes, mil e uma agendas escondidas. Umas querem subir na política, outras querem alistar gente em alguma seita, outras querem angariar adeptos para alguma campanha internacional, e assim por diante.
Um intelectual é o sujeito que sabe o que está acontecendo e sabe o que é preciso fazer. Um líder é o sujeito que sabe essas duas coisas e sabe uma terceira: sabe obrigar os outros a fazer.
"A sentença de Hugo von Hofmannsthal – ‘Nada está na realidade política de um país se não estiver primeiro na sua literatura’ – é tão verdadeira e profunda, que pode ser aplicada à análise das situações políticas desde vários ângulos diferentes, sempre rendendo algum conhecimento."
Quem disse que a História é a História dos vencedores não conhecia o Brasil. Neste país a História é eminentemente a arma dos perdedores, que por meio dela instilam entre os estudantes universitários — futura liderança política — o desejo de vingança e a estratégia da revanche. Foi assim em 1964 e já está sendo de novo com a derrubada da Dilma. Tão logo votado o impeachment, a esquerda já convocou seus historiadores de aluguel para bloquear o acesso à verdade dos fatos e consagrar a versão 'golpe' como a explicação oficial a ser adotada em todas as universidades brasileiras.
Paulo Moreira Leite, André Singer, Hebe Matos, Jessé Souza, Palmério Dória são apenas alguns dos autores envolvidos na operação. Se os vencedores de hoje, como os militares de 1964, não reagirem em tempo — o que dificilmente acontecerá, dada a proverbial indolência intelectual da 'direita' — seu lugar na lata de lixo da História estará garantido.
Antonio Gramsci estava CERTÍSSIMO quando disse que quem faz a revolução são os intelectuais. E Georg Lukacs estava igualmente certo ao dizer que o proletariado em nome do qual os intelectuais falam não é o proletariado existente, mas apenas o 'proletariado possível' que eles mesmos planejam inventar.
Não coloco todas as pessoas do meu convívio no mesmo plano. Seria puxassaquismo demagógico. Amigos foram o Paulo Mercadante, o Bruno Tolentino, o Herberto Sales, o José Mário Pereira… Depois vêm os ALUNOS. Depois deles, os ADMIRADORES. Depois destes, lá longe, a PLATÉIA. Depois dela, quase invisível na distância, só vem o círculo dos fofoqueiros.
Professores que, vivendo do imposto pago pelos pais de seus alunos, se prevalecem do controle que exercem sobre as crianças para jogá-las contra quem paga o salário deles têm de ser BANIDOS DO MAGISTÉRIO.
"Filosofia é a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Esta definição aplica-se inclusive às filosofias que negam o conhecimento ou que negam a unidade da consciência."
O Palhaço Perdido
O palhaço desajeitado sobe ao palco
Do teatro meio ensandecido,
Sob a luz do ambiente escurecido,
Ouve a voz feminina de um contralto.
Suas mãos espalmadas sobre o peito,
Expressam a surpresa do olhar,
De ouvir um passáro a cantar,
A beleza e a ternura de um jeito:
Doce, sútil e feminina,
Mas com um leve tom mais grave,
A voz da jovem como um alarde,
Anuncia a simplicidade da menina.
Entra a dançarina ao som suave
Da música que liberta os grilhões,
Aplausos agora vem aos milhões,
Rodopia pelo palco ao som do grave.
O palhaço sorrir tímido e assustado,
Vê a bailarina dos seus sonhos,
Mas o sorriso assim meio tristonho,
Foi por não lhe ter cumprimentado.
Segue a programação da peça,
A voz e a bailarina se apresentam,
Mas o palhaço ainda meio desatento
Não entra no contexto desta.
Finalmente chega o fim e a glória,
Sai a bailarina e a contralto,
Senta o palhaço ali no palco
E começa a contar a sua história.
"'Só o cristianismo é absoluto, tudo o mais é relativo', dizia o filósofo romeno Petre Tsutsea. Se esse grande espírito, marcado com ferro em brasa pelo estudo, pela meditação e pelo sofrimento, se contentava com uma dose tão modesta de certezas, por que deveria eu possuí-las em maior quantidade?
Em todos os casos, mais vale uma ignorância consciente do que um falso conhecimento. 'Sei que não sei' é uma certeza tão valiosa quanto 'Sei que sei'.
Não dá para provar se Deus criou o universo ou não, mas dá para provar que, se não foi Ele, não foi ninguém mais — muito menos o próprio universo. A prova é simples e já a enunciei mil vezes. O universo só se tornou possível graças às proporções matemáticas que o moldaram. Se foi assim, e toda a ciência prova que foi, então essas proporções já eram válidas desde antes da criação do universo. Mas, para que algumas proporções fossem válidas, era preciso que todas fossem válidas, que a razão matemática INTEIRA fosse válida eternamente, acima e independentemente do próprio universo. Mas como ela poderia ser válida se não contivesse em si mesma o princípio da sua própria inteligibilidade? A Razão que tudo molda e explica explica-se a si mesma e de nada depende. Isso é o Logos divino. Ponto final.
Surge um cidadão que só faz o bem, cura os leprosos, faz os paralíticos andarem e os cegos enxergarem, ressuscita os mortos, mas, quando ele diz que é o filho de Deus, vem um entojadinho, empina o nariz e e objeta:
— É, mas você não provou que criou o universo.
Cem por cento dos debates sobre Deus, hoje em dia, querem satisfazer ao entojadinho primeiro, à razão depois. Por isso não dão em nada.
