Nosso Amor So Aumenta
Cansei dessa chuva
Dessa gente que só faz chorar
Resmungar, lamentar
Como se o único problema
Da face da terra
Fosse essa gente
(E será que não é?)
Quero gente de sol
Quente, fervente
Esse tipo de gente,
Meu tipo de gente.
Que faz a vida mais leve, pois
Coloca sol onde tem chuva,
E não empodera a chuva
Com o peso que só o sol tem.
Tudo que fiz, tudo que sonhei, tudo que eu vi, e você só me deixou dor e tristeza. E o pior que ainda peguei na mão de quem um dia iria roubar o que mais sonhei e amei na minha vida. D&J, agora só me restou uma pergunta: porque? Se a única coisa que te dei foi o meu amor.
POEMA NEGRO
Sob a mangueira imaginei minha infância
Como se tivesse sido só um feriado
E as latas que eu catei,
Estão lá no meu quintal,
As pipas que eu soltei estão presas no varal,
Os piões que eu rodei foram até Portugal,
Minhas ex- namoradas estão de dietas,
Nem açúcar e nem sal,
Minha vida segue bem ou mal,
Neste feriado fui soldado e desertei,
Fui poeta e fugi da musa,
Agora colho mangas, comendo pitangas,
Encantado com o campo de alfazemas,
Pensando no poema para a minha vida,
Para o meu feriado.mas amanhã é dia de branco
.Tem engenho, tem tronco tem canavial...
DEL CASTILHO
Havia um sofá...
Um “so far” na proximidade
Da intransponível solitude...
O toc-toc da Olivetti ou da remington
Para minha inspiração
E uma corda imaginária no teto
Para minha solidão...
Havia horas para se empacotar a vida
E fazer pilhas de paciência...
O gotejar incessante de alguma torneira
No mais profundo silencio,
Passos pelas dependências da minha ansiedade
Fantasmas de mil purgatórios...
Havia o telefone para confidências
De paixões inadimíssiveis
Durante a madrugada...
Havia o corredor que conduzia `suburbana
Sangrenta e insaciável...
Havia a igrejinha onde remiam nossos pecados
A nova América que vestia o nosso país
E um viaduto para problemas sem solução...
EMBARCAÇÃO
Nem tanto assim,
Os meus delírios são só meus,
É um refúgio,
Nada mais que enganar a ilusão,
Eu aprendi a ser assim fugidio,
Mais fugaz, que vagabundo e vadio
Pra escapar da paixão,
E se as vezes me sinto sozinho...
É solitude não é solidão,
Nem tanto assim...
Este deserto é plantação,
Nos descampados eu tenho o meu teto,
Nos absurdos percebo o que é sábio,
Bússola e astrolábio é este vazio,
Neste deserto sou embarcação...
Não faz assim, vai devagar
tem pena de mim
só sei fazer poema
e tenho ponte de safena
o coração pode nem suportar...
HOMEM
um homem não é só um homem
por ser um homem só...
pode ser um homem só,
pode não ter ontem, pode não ter tempo,
mas pode ter o amanhã, a manhã e o vento...
um homem não é pobre por nada ter,
não é vazio por ser pobre,
é pobre por ser vazio,
um homem não é só um homem
por ser um homem só ,
um homem não é rico pelo que possui,
por que pode possuir castelo
e não ter um lar,
pode possuir moto e não ter movimento,
pode possuir avião
e não ter espaço,
pode possuir passo e não ter sentido,
um homem tem que plantar e colher,
tem que escrever e ler,
tem que amar e fazer filhos...
tem que saber seu nome,
um homem não é só uma impressão digital,
um homem,
impressiona por saber,
e impressiona mais ainda por saber saber...
ah, mas se eu sonhei demais
não foi só culpa minha
seu corpo fomentou a minha fantasia
e se eu quis ser feliz perdoa
nunca mais vou sonhar assim,
nunca mais vou querer ser feliz
nunca mais vou pensar
que a vida pode ser boa
PERAS
Agora só quero uma varanda
Um céu com estrelas e discos-voadores,
Só quero andores floridos,
Forrados com toalhas de renda
E sacros hinos reavivando a fé
Só quero o bafejar lilás
Dos deuses da poesia
E a alegria de sofrer pouco,
Só quero fingir que sou louco
E enganar psicólogos e psiquiatras,
E a mim mesmo pensado que sou normal
Quero pegar tua mão
E sentir a emoção de três décadas atrás
Falar as coisas que eu disse aos dezoito anos
Como se então os teus seios de peras
Amamentassem ainda os meus desejos...
Democracia não deu certo
Vivemos muito perto da loucura
E aquela ternura que imaginávamos
Era só uma utopia...
Esquece London London
Esquece Baby
Nevermore Alegria Alegria
Precisamos de uma Dita mais Dura
De uma Cracia mais Demo
Meu irmão Caetano onde andam
Dadda, Pinochet, Salazar e Fidel
Agora precisamos dessa gente
Pro trabalho indecente
De mandar alguém pro inferno ou pro céu...
AZUL TURQUESA
Quando era sábado eu era magro
E só tinha a ilusão incandescente de um adolescente
O céu era azul turquesa
Como as minhas poesias,
Julieta jamais morreria se eu tivesse um romance,
Mas antes, muito antes
Quando eu ainda não ousara sonhar
Eu só tinha as pipas e piões
E muitas indecisões
Eu já idealizara o olhar dos olhos dela...
Enquanto contemplava
Pássaros, borboletas e libélulas
Eu já era poeta e não sabia
E o olor de viver, o ardor de sobreviver
A dor de subviver era poesia
Eu só precisava daquele beijo
Pra perceber a abóboda azul turquesa,
Pra saber que nos sábados somos magros;
Nos domingos somos lindos
E nas segundas... nas segundas-feiras
Percebemos de quem sentimos falta...
deixa eu te olhar só mais um pouco,
ainda sei sonhar e amanhã é sexta-feira
e a minha semana não tem sábado nem domingo
a vida não pode diluir-se assim
como se fossemos abstratos,
e essa paz, essa paz que abriga agora a tua alma,
essa paz tem que ser dividida
deixa eu te olhar e assimilar esse vermelho
porque a minha paz tinha a palidez dos dias invernosos
e a frieza glacial dos polos
deixa eu te olhar, e essa manhã nos teus olhos
clarear os meus caminhos
