Ninguem Perde Ninguem

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Não somos nós que perdemos tempo. É o tempo que nos perde.

Não se perde nada em parecer mau; ganha-se tanto como em sê-lo.

Machado de Assis
Memorial de Aires (1908).

Quem deixa para fazer depois o que pode fazer logo, perde o que nunca mais encontrará.

Aquele que se recusa a abraçar uma oportunidade única perde o prêmio tão seguramente como se tivesse falhado.

Recessão é quando o seu vizinho perde o emprego; depressão é quando você perde o seu.

Harry S. Truman
Observer, 13 abr. 1958.

Muito se perde por falta de inteligência, porém muito mais por preguiça e aversão ao trabalho.

O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.

Camilo Castelo Branco
BRANCO, C., O Bem e o Mal, 1863

A lógica, como o uísque, perde seu efeito benéfico quando tomada em quantidades exageradas.

O sábio não perde as ocasiões.

Muitas mulheres não sossegam enquanto não mudam o seu homem. E, quando o conseguem, ele perde a graça.

O poder sem abuso perde o encanto.

Quem muito pensa no futuro, perde o presente.

Uma corrida não se ganha na primeira volta, mas se perde.

Aquele que perde a reputação pelos negócios, perde os negócios e a reputação.

Perde merecidamente o próprio quem cobiça o alheio.

Faça-se aquilo que se fizer, nunca se perde a honra quando se é rico.

Você perde um monte de tempo odiando as pessoas.

Quem muito pensa no futuro perde o presente.

⁠Eu não busco ser melhor que outros, e sim me superar. Espelhar em atos vizinhos não vai te ajudar em nada, pense em seus atos.

Crônica do amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. (...)

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou-a para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele só escuta Egberto Gismonti e Sivuca. Não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim.

Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes do Ettore Scola, dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine al pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.

Martha Medeiros

Nota: Trechos fora da ordem da crônica "As razões que o amor desconhece", presente no livro "Trem-Bala", de Martha Medeiros.

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