Náufrago
O NÁUFRAGO
Navegantes não devem olhar para o farol,
e sim para o caminho que ele ilumina.
Mas, para mim, meu farol era a lembrança
da luz de seus olhos de mar.
Devia ter-me esquecido do brilho deles
e ver o caminho por onde navegava.
Viajei
Viajei…
Hoje estou numa viagem… Dessas que não tem porto seguro!
Náufrago de mim mesmo… Mas, caminhando, ainda pensando sobre a morte, dela que cedo ou tarde terei sorte, vaguei por pessoas incomuns, boas, ruins, sem laço algum.
Andei pastos verdes, vi montanhas, atravessei rios, não me afoguei, engoli o choro e caminhei, mesmo indo pra tão, tão, distante, a minha frase preferida é de um burro a um ogro: “Já chegou”?
Eu nunca chego, eu nunca vou…
Não se preocupe comigo
Eu sempre naufrago...mas
Sempre volto à superfície
Sempre sou pássaro sobre a planície
Sempre afago o fogo
E assopro aos olhos do tempo.
Não se preocupe
Eu sempre bebo dos piores venenos
E sobrevivo...
Não há perigo!Não se preocupe comigo!
Sou feita de uma outra matéria,
E sempre tenho tesouros entre minhas toscas misérias,
Sou feita de ametistas trançadas e pérolas
E quanto mais negro o meu dia,
Mais doce é minha poesia!
Não se preocupe comigo
Ou com minha concha vazia
Não há perigo!
É de entre essas rudes coisas
Que arranco minha alegria.
A compaixão sem discernimento é o alto preço que se paga por tentar resgatar o náufrago que tem prazer mórbido na própria submersão.
Desça à caverna sombria e abrace o pequeno náufrago que ainda treme em seu peito, a cura é o ato primal de autopiedade feroz, o afeto que, negado, cria a ferida e, oferecido, a estanca.
Existe uma beleza aterrorizante em ser um náufrago no próprio quarto, vendo as paredes se transformarem em maré enquanto as memórias flutuam como destroços. Não peço por terra firme, peço apenas que a água não apague a tinta com que descrevo o abismo.
Enquanto menino sou um náufrago do destino que roçando os caminhos do coração encontrou seu amor divino
Sempre fui um náufrago de mim mesmo, boiando em incertezas. Mas no meio de tanto mar, seu abraço foi a primeira vez que senti o chão firme.
náufrago
Era meia-noite... O vento frio passava triste, como palavras cortantes, acompanhadas com uma enorme sensação de que carrego um mar dentro de mim. Mas não um mar plácido, de ondas preguiçosas e céu límpido. É um mar revolto onde há trevas, frio e escuridão, dessas que afastam os pescadores mais corajosos sobre enormes barcos em uma noite negra e vazia como as noites sem luar. Um mar que não acolhe, expulsa; que não acalma, derruba.
Sinto que tudo que se aproxima acaba sendo devastado pela tempestade. No mar intenso, pessoas, gestos, tentativas de cuidado... tudo naufraga. E eu o assisto, de modo impotente das profundezas da alma, com um verbo de desgraça, com um grito questionador e agonizante. E em resposta, o vento que passa por meus cabelos fugazes responde-me: "pobre órfão! Vagando no espaço em meio a escuridão, mandas um grito!"
Agora. o silêncio preenche o vácuo das palavras não ditas. Um silêncio que não é apenas a ausência de som, mas uma presença pesada que ocupa todos os cantos e ecoa nos meus ouvidos como se zombasse de mim.
Parece estranho, embora este oceano sem fim pareça calmo; engana quem o vê de longe. O abismo azul ataca amargamente e devasta tudo à minha volta. Não é por mal, mas não sei ser porto seguro quando sou eu quem está naufragando e, silenciosamente, eu só queria ter um refúgio em meio às tempestades. Clamo por alguém que me consiga atravessar esse mar, porém minha tempestade turbulenta sacode violentamente os barcos.
Talvez esse mar sempre faça parte de mim e não se trate apenas de atravessar a tempestade, mas de admitir como parte da minha jornada. Com o tempo, quem sabe, eu reconheça que mesmo sendo arrastada para o fundo e sufocada pelo silêncio, isto revele minha resistência e minha capacidade de me manter firme aos meus propósitos.
Afinal, viver quem, sabe, seja isso. Nesse turbilhão, ressoa-me os versos do poeta Castro Alves: "Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! Quem me dera acompanhar-te a esteira que semelha no mar — doudo cometa!" Assim como o Poeta dos Escravos, percebo que viver é, muitas vezes, aceitar o mistério da travessia e permitir que as correntes nos guie, sem abrir mão dos nossos propósitos.
Amanheceu. Vejo a calmaria do mar, cujas águas, mesmo balançando, sabem ser abrigo. Posso vê-las deixar os barcos passarem devagar, junto com o vento suave e o marulhar das ondas. É como se o mar, em sua imensidão, oferecesse passagem segura a quem tem coragem de navegar, mesmo sem saber exatamente o destino. Agora, vejo um farol que me guia a um porto seguro. Estou em terra firme.
"Andei procurando sentidos que pudessem levar-me do náufrago ao porto.
Desembarquei em ti Bahia.
Solo que me era pouco conhecido.
Pisei na tua terra, banhei-me em tuas águas, abracei teus nativos e respeitei tua mata.
De ti não quero distância, quero teu mel, tua pimenta, dançar com os Pataxós e fazer eternas lembranças.
Agradeço teu conforto, teu zelo, teu alvoroço,
que sem nenhum esforço faz de mim um todo".
Solito, solicito e dividido
Acabo como náufrago
Inunda as imundas ocas deste corpo
Sofro de novo, mesmo sem adorno.
Cauteloso até demais para sair bem
Astuto e perspicaz, mas não está também
Caindo de repente novamente
Arcabolso de choro: tem.
Agora só resta navegar
Nas lágrimas de desta ilusão
Quem diria que iria mesmo pagar
Pelo que os irmão mente e coração criaram.
O náufrago de alma
As vezes nos sentimos naufragados na vida.
Assim como um náufrago se sente solitário numa ilha cheia de seres vivos ao seu redor, estes se mostram totalmente irrelevantes para sua vivência. Exceto, para sua inegociável sobrevivência.
Assim também se comporta o náufrago de alma. Cheio de outros seres ao seu redor, mas que só servem para mantê-lo sobrevivendo à vida.
Para mantê-lo vivo, feliz e completo somente se existisse aquela pessoa certa, que se aproximasse na hora certa, com o barco certo para com as palavras certas te remover daquela condição de naufrágio e solidão.
Resta provado que a solidão não é manifestada pela ausência de uma multidão ao seu redor. Ou pela ausência de alimento, animais, seres diversos, belos cenários que possam te manter vivo e radiante, como no caso de um náufrago.
A solidão é a ausência da pessoa certa ao seu lado, por mais que todo o restante possa estar presente.
Os ouvidos não conseguem entender os brados de todos aqueles que te motivam se aqueles fazem parte da multidão de observadores.
Mas o sorriso em silêncio da pessoa certa consegue te fazer acreditar naquilo que nunca foi trazido a existência como hipótese plausível.
A solidão é misteriosa.
Ela dói em meio a muitos especialistas. E cala no calor de um único abraço.
A solidão vibra com a possibilidade da pessoa certa lhe sorrir amanhã. Mas ela te coloca no poço mais profundo se a pessoa certa sorriu em outra direção, para outros horizontes.
A solidão é espreitada todo tempo. Muitos querem ocupar o lugar daquilo que me coloca só, mas poucos entendem que existem lugares que são feitos sob medida, para pessoas certas.
Temo pelo dia que o teu sorriso na outra direção faça com que o meu naufrágio nao seja visto e, então, o espaço ao meu lado tenha que aceitar as mudanças de medidas que eram somente para você.
A solidão transforma. Ou pela dor dela própria ou pelo ritual de desenlace de mãos que me lança cada vez mais ao profundo desse mar que insiste em me acolher como náufrago.
Um dia eu voltarei daquela ilha. A parte boa dos naufrágios é que o mundo todo é um lugar novo.
Deus, me resgate porquanto me sinto absolutamente só.
NÁUFRAGO
Ah como amo o amor de amar como outrora
Que meus vislumbres ora
Na estopenda tarde
Ou nas argúrias sórdidas
Não deixe pro póstero
A amável saudade do amor
Que sinto agora
No mar da vida tudo está arriscado a naufragar,
mas o pior dos naufrágios é o náufrago da esperança.
As vezes me sinto um náufrago
Sem saber o que fazer
Sem saber para onde ir
Só deixar a maré que é a vida
Me levar.
este coração que bate no peito, já não escuta a dor do náufrago, perdido e de asas cortadas...extenuado a chegar ao limite, não podendo mais libertar-se e voar.
Navegar é meu canto, meu refúgio...entre pedras e areias naufrago de encontro as ondas, sou levada pelo vento, carregada pelo som da madrugada até a imensidão do mar.
