Nao quero Viver na Ilusao
A minha mudança em relação a forma de enxergar a vida. Viver dia pós dia sem se preocupar demais com o amanhã.
LEVIDADE
É preciso leveza
para seguir em frente;
para viver o instante
e brincar com o presente.
Deixar o excesso,
ser vento, ser pluma;
navegar na calma
que o tempo apruma.
Aceitar as marés,
sempre em comunhão;
dançar com a vida,
e soltar a canção.
Entre o peso e a rotina
escolher a alforria;
fazer da noite menina,
e celebrar o dia.
O pensamento é carente de viver;
Quando pensa, você pensa que é só isso;
Quando vive o que pensa, percebe que é muito além disso.
Caxias
As pessoas acham que viver irá preencher o seu vazio, isso acontece, pelo menos é nisso que elas acreditam. A ideia, aqui, é justapor as experiências com as emoções, as memórias com as sensações até que se crie uma história. Naqueles dias, no velho apartamento, sentávamos sob o sol. Nos esquentávamos, no frio do inverno, naquela nesga de luz e apreciávamos o gosto doce e ácido das bergamotas. Só que isso não existe. Eu estou velho e as bergamotas há muito foram comidas. A minhacachorrinha morreu, não existe. Percorrer as memórias ativa o banco de emoções e produz a sensação de uma volta ao passado. Eu não sou ninguém, apenas um vazio. Esta casca, que muitos desprezam e que acham que é a residência de algo interior, é a existência. Queres conhecer a verdade sobre o mundo? Ela está bem na tua frente, ao alcance das tuas mãos. A profundidade está na superfície. Qualquer um que tenha sensibilidade já compreendeu que a realidade é uma forma. É algo que muda constantemente já que estamos sempre a criá-la. É a forma da nossa mente. Ela é a forma que contém todas as outras formas e que está contida em cada uma delas. Eu pensei que estava sendo límpido e claro, mas surgiu quem discordava, e ainda ficaram ofendidos, e queriam brigar. Parece que as pessoas têm um enorme apreço pelas suas convicções e não admitem que se discorde, imaginando que os que pensam diferente podem corromper a pureza das suas ideias. Claro, podem brigar comigo, mas não adianta, porque eu não tenho convicções, só tenho ideias velhas. O que está na memória não tem valor no hoje.
O maior cárcere é a mente que insiste em viver no passado, enquanto o corpo é forçado a habitar o presente.
Viver é colecionar adeuses discretos. Nem todo fim tem trombetas, muitos se vão por uma janela fechada. Eu faço inventário desses pequenos fins, para não esquecê-los. Cada adeus me ensina a salvar pedaços para recomeços. E, mais uma vez, o coração vira caixa de sobras transformáveis.
Viver é segurar a própria sombra pela mão e aceitar que ela caminha conosco. É reconhecer que luz e escuridão não são inimigas, mas complementos. E que só existe cura quando deixamos de fugir de nós mesmos. A partir daí, o resto é reconstrução.
Viver é uma apostilha contínua de recomeços e contratos rasgados. Assinamos promessas com tinta que escorre, juramos lealdade a dias que fogem. Ainda assim e talvez por isso, a vida nos dá segundos para reescrever, e é nesse segundo, pequeno e empedernido, que volto a acreditar.
Viver é aprender a ser espaço para o outro. Nem sempre conhecido, às vezes inesperado. O gesto de acolher é ponte que salva do isolamento. Há uma ética simples em abrir uma cadeira. E essa gentileza transforma os cômodos do mundo.
A escrita é um rascunho do próprio viver, com pequenos fragmentos de pensamentos que se esvaem com o mais sútil sopro de vento, por vezes ocultos em nosso subconsciente. Cada palavra é como um vestígio do que fomos em determinado instante, um eco daquilo que não quis se perder no silêncio. Escrever é capturar o efêmero, transformar o intangível em forma, dar corpo ao que, de outra maneira, se dissolveria no tempo. Assim, cada linha é memória e invenção, confissão e mistério, como se a própria alma buscasse se perpetuar no papel.
Ser cristão é viver disposto a morrer por aquilo que se sente e se crê, mesmo sabendo que jamais será totalmente compreendido.
