Nao Preciso de Amigos Falsos
SENTIR SEM TI
Senti em mim
Até que enfim,
Que o dia
Quando nascia,
Era já noite para mim.
E assim, em sinfonia,
Se o fosse, eu completaria
O ciclo atroz da morte,
Que de outra sorte
Numa centelha de luz
Que mesmo apagada,
Reluz
Na madrugada,
Momento de enganar a morte,
Eu escolheria.
E daria
As voltas à vil tosa,
Engenhosa,
Manhosa,
Fantasiosa,
Folclórica
Esclerótica.
Essa feia patuta
Bruta
Infiel
Cruel
E já em desnorte.
Viva a vida
Morte, à morte!
(Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 19-08-2022)
TRISTE QUIETUDE
As árvores cansadas da dor
Deixavam cair seus braços tão tristes
E o sol castigava as pedras do chão
Como ferro quente a marcar o gado,
Na tarde já morta de sede.
Só uns cabelos de oiro
Esvoaçavam loucos na brisa infernal...
Eram os teus procurando os meus,
Na triste quietude da tarde defunta.
Fugiram os pássaros e tudo o que é vida
Da vida que tem sangue nas veias.
Dolorosamente, em prantos de cinzas
As árvores tornaram-se pó
E os ramos partiram-se numa chuva
De mil pedaços queimados.
O sol escondeu-se amedrontado;
A tarde e a brisa quente
Feneceram de saudade.
Só ficaram os teus cabelos de oiro
Sempre à procura dos meus,
Revoltos na triste quietude...
Mas tudo tão inútil.
(Carlos de Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 27-08-2022)
ADORAÇÃO DOENTIA
Como eu te adoro amor sagrado,
Se tu soubesses tanto tanto
Que por vezes eu garanto
O quanto no pranto,
O tenho abafado.
Como náufrago que vai a nado
Com um poema erguido
Na mão cansada, fremido,
Como se carregasse um fado
No fardo às costas sentido.
No destino de dor suprema
Num cântico de heresia
Pão, sopa e vinho, poema
Como eu te amo, minha pena,
Minha louca poesia!
(Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 27-08-2022)
I N V E N Ç Ã O
Fui eu que inventei o amor,
Mesmo sem saber se era dor
Aquele ardor que se sente
Logo que se pronuncia
A palavra amor.
Senti-lo, é bem pior
Do que praticá-lo?
Eu sei lá!
Só sei que o amor
É uma coisa
Que quase deixaram
De pronunciar
Com medo do bicho amor.
Afinal, não fui eu
Que inventei o amor
E jamais
O inventarei.
(Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 01-09-2022)
BARCO AO PERTO
Quem me dá um barco?
Sim, um barco à vela.
Onde eu possa navegar
Ao perto do longe,
Que muito longe
Eu tenho medo
De navegar.
Eu só navego sem medo,
Nas ondas brandas,
Calmas,
Do teu olhar.
(Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 01-09-2022)
DIZ-ME NUM VÓMITO
Diz-me, porque estás triste ?
Amor rebelde, sem meu coração
Do sangue que pedias
Com a tua espada em riste,
Nessa mão,
Tremulando
Velhinha de emoção
Como a minha ficando
Apalpando o que não existe.
Diz-me, porque estás triste ?
Assombramento meu,
Sempre ao cimo da minha cama
De penas,
Tão apenas
Nas noites claras de breu,
Quando eu tinha medo de mim
Ao subir as escadas da cama musical
De bacanais infernal,
Que dizem ser ruim,
Até a do Orfeu.
Maldito seja eu
E quem me desafia
Em euforia,
Nesta noite tão só, tão fria,
Em que vou, sem vir
Mais que tempo de ir
Sem pena
Nem pensar
De voltar.
Diz-me, porque estás triste?...
(Carlos De Castro, " in Portugal Sem Censura, No Brasil, Sim", Em 06-09-2022)
SENHORA DAS ÁGUAS
Mulheres grávidas,
Mas ainda castas...
Dizei-me, ó águas
Revoltas,
De placentas soltas
Quais as origens
Da senhora das águas
Virgens,
Como a senhora
Governadora
Das águas do mar?
Dizei-me também, senhora:
Quando nasceram as águas
Das minhas mágoas
Sem mandrágoras,
Sem fé,
Em sacrilégios, até?
Vieste sozinha,
Senhora minha,
Ajudar ao parto
Das águas da vida
Guardadas em tua guarida.
Por isso, nunca nasço
Nem nascerei sem águas
E sem o sangue que não se vê
À partida,
Senhora das Águas
Das mágoas
Da minha vida.
(Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 09-09-2022)
NA VARANDA
Dois, na varanda.
Duas cadeiras baloiçando
Como a brisa esvoaçando
Por entre macieiras sem fruto.
Ouvia-se a bola chutada por um puto
No sussurro da tarde triste
Que mesmo magoada resiste
Ao sonho do bem-amar
O que não existe
Na solidão dum olhar.
Dois, na varanda,
Duas cadeiras baloiçando...
Era só eu, num sonho que manda
E a nostalgia do vento brando.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-09-2022)
CONSTRUÇÃO
Ele construía tudo.
Desde o alicerce mudo
Até ao telhado
Que lhe cobria o pecado
De pintar as paredes
Com cordas e redes
Para sustentar o verbo
Das falas que adjetivava
Um presente sem futuro
Quando mergulhava
Nos advérbios do obscuro
Sem pretéritos perfeitos
Ou mais que imperfeitos.
Ele, o poeta, contruía tudo,
Mas a si próprio, não!
Arquiteto de ar sisudo,
Com a pá da paz na mão.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-09-2022)
RISO DA MANHÃ
Sempre que rio pela manhã,
À tarde choro lacrimoso,
À noite vem o pranto doloroso
Com lágrimas que queimam,
Sulfúricas,
As minhas ilusões telúricas,
Sempre que rio pela manhã.
E neste signo de afã,
Eu prometi a mim mesmo:
Não rir mais pela manhã!
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por escrever, em 23-09-2022)
Que perigosas são as mentiras ou as verdades mal confessadas,
quando houver quem queira metê-las no mesmo saco, asfixiando a pureza da verdade.
DOU-VOS
A minha tonta cabeça.
Fazei dela bola de futebóis
Nas vossas disputas de álcoois.
Dou-vos os olhos quase mortos
Tristes e absortos.
Dou-vos o peito magoado
Sem jeito de construção
De um novo estrado
Para tapete de chão.
Dou-vos barriga e vísceras
Algumas com úlceras.
Dou-vos os braços e pernas
Já de ossos com cavernas.
Só não vos dou o meu coração
Esse órgão de eleição -
Já o dei a alguém
Que Deus tem -
Desde que nasci até então,
Àquela que me deu a vida
Sofrida,
À minha querida
Mãe!
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2022)
PLANTEI
Plantei rosas em pedras.
Nasceram só cardos de espinhos
Rudes, abruptos, mesquinhos,
Sem vontade de afagar.
Voltei a plantar.
Rosas em terra dos campos
Negra, de húmus santos,
Como mulher nova a engravidar.
E os cardos sempre a medrar.
Enxertei cardos com rosas
Plantei e surpresa minha:
Nem cardos, nem rosas,
Apenas teimosos espinhos
Tantos como bichinhos.
Nunca mais planto uma rosa.
Ou por sina ou meu azar
Só nascem espinhosos cardos,
Como pesados fardos
Às costas do meu penar.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2022)
O REFLEXO NA CRUZ
O quarto tão só e iluminado
Pelo pirilampo de uma velinha
Frágil, ténue como a minha
Luz, que tremula este meu fado.
Paredes negras, uma cruz só,
Um teto como um céu a cair
Desabando em mim a sentir
A mágoa de morrer sem dó.
Rompem-se trevas, o negrume,
Explode em vulcões loucos a luz,
Refletindo os raios na cruz,
Parecendo que o irmão Jesus
Me olhava sem azedume,
Num odor de divinal perfume.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-09-2022)
SINFONIA DE OUTONO
Que sons, que magia
Andam no ar todo o dia.
Cantam os frutos ao cair no chão
Toca ainda o vento suão
Nas luras das árvores da fornicação.
A terra farta de ser emprenhada
Pede ao lavrador a paz da enxada.
O lavrador, amealha o pão
Que a mãe terra lhe pôs na mão.
É pão, é fruto, é vinho de suor
E tanta gente a rezar pelo melhor.
Eu também rezaria a cantar
E, ai, se a natureza me desse voz
Eu cantaria para todos vós
Num canto pranto de arrebatar -
Corações do meu abono,
Nesta sinfonia de Outono.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 28-09-2022)
DEMÊNCIA
Ela, vem de mansinho
Como gato matreiro,
Ronceiro,
À caça dum passarinho.
Anda, vem, não tenhas medo
Ladra dos seres pensantes,
Fazedora de cenas chocantes.
Anda, que eu fico quedo
Como uma estátua a rir de ti,
Aqui,
Sem medo.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-09-2022)
MÃE CANTA PARA MIM
Canta:
As tuas ladainhas de embalar,
Nas noites de menino a arfar
À procura de um sono imenso
Com cheiro a fumo de incenso
Para quebrar o quebranto
No desencanto
Do mau-olhado
Rezado e talhado
Na cruz de Cristo
Ensebada
Por mãos de outros usada
Na renegação do malquisto
Que vem pela calada
Na inocência
Até à velhice da demência
Sem nunca parar o maldito
Do proscrito.
Mãe:
Vem.
Canta para mim.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 04-10-2022)
P A R E I
Precisava do ar das serras.
De tantas terras.
Faltava-me o iodo do mar.
Nem um ou outro eu pude aspirar,
Porque me prenderam no mesmo lugar.
Diz-me, então, porque paraste
Porque de ser tu, deixaste?
- Sei lá!...
Só sei
Que quando parei,
A minha vida ganhou outra luz
Como candeia que reluz
No quarto da solidão
E transforma a minha cruz
Num madeiro de expiação.
Afinal,
Até ao juízo final...
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 11-10-2022)
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