Nao me Deixa te Odiar
Sob o capuz da noite, teu olhar me encontra, tenso como a corda do arco antes do destino.
Não miras apenas o alvo distante
— miras o que em mim
ainda não sabe fugir.
Teus dedos firmes seguram o silêncio, e a flecha, hesitante, aprende o caminho do desejo.
Entre guerra e sombra,
teu peito bate como quem
ama sem pedir permissão.
És guardião do que não se diz,
herói de um amor que caminha
às escondidas.
E se um dia tua flecha me atingir,
que seja no ponto exato onde
mora o “fica”.
Porque mesmo em meio à luta,
teu gesto revela:
há corações que só se rendem
a quem sabe mirar com cuidado.
Grandes destinos não chegam anunciados com trovões, normalmente, se anunciam em silêncios, em sinais minúsculos, mas suficientemente perceptíveis para pessoas alertas.
Quem vai embora nos deixando ausência e silêncio, nos ensina que nossa companhia não pode ser dada para qualquer pessoa.
Eu me perco na rua de casa, quando você me olha com aquele olhar de quem não desejar nunca terminar de me esculpir.
Mesmo que o viajante perca o mapa do trajeto, se ele não perder a vontade de chegar, cedo ou tarde ele chega.
Do fundo do poço ninguém passa, mas o declínio da queda livre sirva para aprender não despencar outras vezes.
Só desejo que as garrafas com as cartas de amor sejam encontradas, e o carteiro não devolva nenhuma ao remetente.
Sei que falta alguns pedaços em mim, mas os que sobraram que não puderam levar, eu guardei para quem souber cuidar.
