Nao me Deixa te Odiar
Em tempos de tanta (cão)fusão, sob chuva ou sob sol, que a euforia da Meta não confunda Etanol com Metanol.
Amém!
Não há interesses mais confusos e covardes quanto aos que confundem amor com carência, e acabam após saciados.
Porque o Amor Verdadeiro não se esgota quando a fome é saciada — ele nasce justamente quando o outro deixa de ser remédio para a solidão e se torna companhia na inteireza.
A carência só quer preencher um vazio; o amor, transbordar!
Quem ama pela falta, consome, desgasta e até usa o outro.
Quem ama por plenitude, compartilha o que tem de mais inteiro.
Por isso, é tão fácil ver relações que começam com tanta intensidade e terminam em silêncios tão ensurdecedores — eram tão somente gritos de necessidade disfarçados de afeto.
O amor não almeja saciedade, mas sim, permanência.
Os que só veem a Felicidade nas Grandes Conquistas, ainda não tomaram Vento na Cara com ela no Carona.
Que a nossa criança interior não pode morrer, é um fato — que ela não pode matar a criança dos outros — é outro.
Dentro de cada um de nós, habita — ou deveria habitar — uma criança: curiosa, brincalhona, sensível, carente de encantamentos…
É ela quem nos distrai da seriedade cobrada pela vida adulta, nos impedindo de empedernir por completo, e quem nos faz rir de bobagens, sonhar alto e acreditar em recomeços.
Mas há um perigo deveras sutil, quando transformamos essa criança em centro absoluto do mundo: ela deixa de ser símbolo de pureza e se torna instrumento do ego.
Há adultos que justificam suas imaturidades em nome da autenticidade — como se sinceridade fosse salvo-conduto para a falta de empatia.
E assim, ao defender sua própria “criança interior” a qualquer preço, acabam ferindo a dos outros com ironias, indiferença ou desprezo.
A verdadeira maturidade não está em silenciar nossa criança, mas em educá-la.
Ensiná-la que o mundo não gira apenas em torno dos seus desejos, que brincar não é o mesmo que zombar, e que crescer é aprender a reconhecer o outro como extensão da própria humanidade.
A criança interior merece e deve viver — mas sob a tutela do adulto que devemos aprender a ser.
A criança que — graças a Deus — ainda vive em mim, saúda a criança que vive em ti!
Feliz Dia das Crianças, do mundo inteiro e da que vive dentro de você!
Em honra aos Mestres, o Maior de Minas dá aula — de futebol, de resiliência e de como não se deixar abater pelos Menores que acreditam que a grandeza se sustenta no grito.
Talvez não haja obscenidade maior que a busca por rostos doces, embalados por vozes aveludadas, enquanto se despreza a beleza bruta das palavras alicerçadas na verdade.
Quase todo mundo lendo — quase ninguém interpretando. Seria um começo admirável, se o fim não negasse os meios.
Talvez não haja falta de sentimento mais tacanha e equivocada que a pessoa acreditar que só ela tem sentimentos.
Se não escolhermos as nossas guerras, elas quebram nossa bicicleta.
E, para piorar, ainda nos escolhem.
A vida é uma estrada cheia de subidas, descidas e buracos invisíveis.
Em meio a tudo isso, a gente tenta pedalar — equilibrando sonhos, afetos, responsabilidades e o próprio fôlego.
Mas há dias em que o vento sopra contra, e a tentação de lutar contra tudo e todos parece inevitável.
O problema é que nem toda briga vale o pneu furado.
Guerras demais cansam, desviam, enferrujam o que ainda move a gente.
Algumas causas apenas disfarçam o ego ferido; outras são armadilhas bem pintadas de razão.
E quando lutamos em todas as frentes, esquecemos que a bicicleta — metáfora da vida que ainda precisa seguir — não aguenta tanto tranco.
Escolher as guerras é, antes de tudo, reconhecer as nossas fragilidades e escolher seguir inteiro.
É saber parar, respirar e entender que a paz não é covardia, mas sabedoria.
Porque, no fim, quem insiste em guerrear por tudo e contra tudo, se arrisca a ficar a pé — com o guidão torto, os sonhos empenados e a alma exausta.
Nem toda batalha merece tanto o nosso pedal.
Há 18 anos eu já tinha fé, mas descobri — às duras penas — que ainda não era fiel o suficiente para não lamentar a “volta para casa do Pai” do meu pai.
Não há cuidado mais Bonito e Charmoso que cuidar de quem não está doente.
Porque a declaração de amor mais cheia de charme e beleza é aquela que cuida, mesmo sem precisar.
Há cuidados que nascem da urgência — e há outros que florescem do afeto.
Cuidar de quem está bem é tocar o invisível: proteger a saúde com ternura, manter o riso aquecido antes que o frio chegue.
Quando o cuidado não vem do medo, mas da vontade de permanecer, ele se transforma em poesia.
É um gesto que se adianta à dor — um afeto que não espera a ferida abrir para se apresentar.
Porque o verdadeiro cuidado é assim: não grita, não exige, não visa retorno — apenas se oferece, como quem descobre beleza no simples ato de permanecer por perto.
Não há um livre sequer, pois ninguém é tão livre ao ponto de não querer estar preso àquele que o libertou.
A liberdade que o Evangelho anuncia não é um rompimento com tudo e com todos, mas uma reconciliação com a origem.
Não é o grito do “eu posso tudo”, mas o sussurro do “Nele tudo posso”.
Porque a Verdadeira Liberdade não nasce da ausência de vínculos, e sim da presença certa de um Amor que não escraviza, mas sustenta.
Quando Cristo nos liberta, não nos lança ao vento — Ele nos acolhe no abraço que dá sentido até ao ar que respiramos.
A alma, antes acorrentada, descobre que o mais doce dos cativeiros é permanecer junto d’Aquele que lhe devolveu o chão e o céu.
Ser livre, então, é querer permanecer preso — não por medo, mas por gratidão.
Preso ao olhar que compreende, à voz que acalma, à cruz que redime.
Preso, sim, mas por escolha amorosa; por saber que longe d’Ele, toda liberdade é ilusão, e todo voo termina em queda.
A liberdade sem Cristo é deserto;
a prisão com Ele é paraíso.
E no coração do liberto ecoa o paradoxo divino:
quanto mais o Cristo me prende com laços de amor,
mais livre me torno.
Eis o Maior Paradoxo da Liberdade!
Sê Livre, estejas Preso!
O que ameaça o status quo dos opressores não é a força bruta, mas sim a emancipação intelectual e a agência política dos oprimidos.
Os opressores muito raramente temem punhos cerrados; o que verdadeiramente os inquieta são mentes despertas.
A força bruta é previsível e quase sempre pode ser reprimida, rotulada e até esmagada.
Já a emancipação intelectual não se deixa algemar com facilidade: ela questiona, desmonta narrativas, expõe privilégios travestidos de ordem natural.
Quando os oprimidos passam a compreender as engrenagens que os nivelam por baixo, o status quo começa a ruir por dentro.
A consciência crítica retira do opressor o monopólio da verdade e devolve ao oprimido algo que sempre lhe foi negado: a capacidade de nomear a própria dor, de decidir e pavimentar o próprio caminho.
A agência política nasce desse despertar.
Não é grito vazio, é escolha; não é caos, é organização.
Por isso assusta tanto.
Um povo que pensa com a própria cabeça não aceita migalhas como destino nem silêncio como virtude.
Ele passa a participar da história, em vez de apenas sofrê-la.
No fim, não é a violência que ameaça os opressores, mas a lucidez — especialmente a coletiva.
Porque ideias libertas não pedem permissão para existir — e, uma vez semeadas, impossibilitam fingir que opressão é ordem e injustiça é destino.
Muitos que reclamam das horas que voam no relógio da cozinha, não caminham com as pantufas da empatia num corredor hospitalar.
É ali, nos silêncios ensurdecedores de verdade nua e crua, que o tempo quase sempre aprende a se arrastar.
Reclamam das horas que voam, impacientes com a demora do café, do almoço, da vida que parece não obedecer ao próprio ritmo.
Mas poucos são os que caminham, ainda que por instantes, pelos corredores hospitalares.
Ali, o tempo não corre — ele pesa.
Cada passo é um acordo silencioso com a incerteza, cada segundo se estica como se quisesse ensinar algo que não cabe em palavras.
O silêncio nunca é vazio: é denso, cru, carregado de verdades que dispensam explicações.
É nesses corredores que o relógio se dissolve e a experiência se materializa.
Onde minutos não se contam, se suportam.
E talvez seja ali que aprendamos que o problema nunca foi o tempo que voa, mas a leveza com que julgamos o peso do tempo do outro.
Talvez o mais trágico não seja os humanos terem que provar para as máquinas, o tempo todo, que não são uma delas.
O drama maior parece estar na naturalidade com que passamos a imitá-las — e, pior, na pressa com que nos deixamos confundir com elas.
A máquina não sente cansaço moral, não hesita diante do outro, não se constrange com a própria indiferença.
Quando o humano começa a responder sem escuta, decidir sem empatia e repetir padrões sem reflexão, não é a tecnologia que o desumaniza: é a abdicação silenciosa daquilo que o tornava distinto.
Há um perigo sutil em trocar o tempo do cuidado pelo tempo da eficiência, a dúvida honesta pela resposta pronta, o encontro pelo desempenho.
Nesse processo, já não é a máquina que nos exige provas de humanidade; somos nós que, pouco a pouco, deixamos de exigi-las de nós mesmos.
No fim, talvez a pergunta mais urgente e necessária não seja “como convencer as máquinas de que somos humanos?”, mas “em que momento nos tornamos tão confortáveis em agir como se não fôssemos?”.
Quem promete amparo sem compromisso não estende a mão; estende o tapete para a ilusão desfilar.
A Crueldade do Fingido “Conte Comigo”
Pouquíssimas atitudes conseguem ser tão medonhas e adversas quanto as dos que oferecem ajuda sem a real intenção de fazê-lo.
Há gestos que ferem mais do que a recusa explícita.
A ajuda oferecida sem a real intenção de ser cumprida carrega um peso extremamente silencioso, quase cruel.
Ela acende uma esperança frágil em quem já está cansado de lutar sozinho, apenas para deixá-la apagar no abandono seguinte.
Esse mau exemplo de atitude a não ser seguido não nasce da generosidade, mas da necessidade de parecer bom, útil ou moralmente elevado.
É um afago no próprio ego travestido de solidariedade.
Quem promete amparo sem compromisso não estende a mão — estende o tapete para a ilusão desfilar.
E ilusão também machuca tanto quanto a desilusão.
Para quem recebe, o dano é duplo: além da dificuldade original, soma-se a frustração de ter acreditado.
A decepção não está só na ajuda que não veio, mas no tempo, na confiança e na dignidade que foram colocados à espera.
Talvez por isso a honestidade curta e grossa — àquela sem rodeios e desculpas esfarrapadas — de um “não posso” seja infinitamente mais humana do que a encenação de um “conte comigo” vazio.
Porque a verdadeira ajuda não se anuncia; ela se concretiza.
E quando não pode ser feita, ao menos não fere fingindo existência.
