Nao me Deixa te Odiar
Há um lugar onde guardo meus silêncios mais puros. É como um armário de madeira que não range. Quando tenho medo, entro ali e fecho a porta. O barulho do mundo fica distante como um inverno. E eu, reclinado, ouço uma paz que não pede provas.
Quando a noite se senta ao meu lado, não falo. Ouço-a dizer o que minhas palavras não alcançam. Ela traz histórias de quem caminhou antes de mim. E entre as histórias, encontro uma trilha de volta. Sigo os passos, mesmo sem saber o destino.
As promessas antigas voltam como roupas apertadas. Tentam servir um corpo que não é mais o mesmo. Algumas chegam a machucar, outras, aquecem ainda. Aprendi a escolher quais vestir e quando renunciar. Despir-se também é forma de honestidade.
Há uma beleza discreta nas despedidas sem motivo. Elas são como portais que não explicam viagem. Saímos de algo e carregamos somente um pedaço. Esse pedaço nos protege do vento intenso. E com ele seguimos, aprendendo a ser pequeno e inteiro.
As palavras que me consolam são simples e ásperas. Elas não prometem curas rápidas nem supostas verdades. Apenas nomeiam o que dói e pedem companhia. Quando as ouço, algo dentro acalma. E aprendo que companhia é forma de oração prática.
A esperança às vezes é um rascunho reaproveitado. Não tem a pompa do novo, mas carrega história. Reutilizo, retoque, e faço dela peça que serve. Nada de desperdício quando o que se tem é pouco. E o pouco, bem cuidado, chega longe.
A solidão que me visita é de companheira e não de inimiga. Ela me aponta lugares onde precisei crescer. Fica tempo suficiente para me mostrar mapas íntimos. Quando se vai, deixa calmaria como quem arruma a casa. E eu sigo sabendo o caminho de volta.
Há um livro dentro de mim que não cabe em prateleiras. Ele tem páginas em branco e algumas escritas em lágrima. Às vezes releio a parte que traz consolo. Outras, treino as palavras que ainda não sei dizer. Escrever é aprender a traduzir a própria pele.
Quando tudo parece ruir, existe um fio invisível. Ele amarra as coisas que não queremos perder. Não se vê, mas se sente firme como corda de navio. Segurar esse fio é ato de fé pequeno e contínuo. E por ele chegamos a novas margens.
Há um tipo de alegria que não faz barulho. Ela surge como luz que atravessa fresta de cortina. Não precisa ser anunciada nem fotografada. Sente-se no corpo e age como remédio discreto. E durará além do instante.
O perdão que recebi veio em forma de silêncio acolhedor. Não foi espetáculo, não tinha plateia. Apenas alguém que me olhou sem juízo. Esse olhar me devolveu formas gentis. E eu reaprendi a ser humano com menos armadura.
O coração humano não foi feito para a paz, mas para melodias impossíveis, essas que nos rasgam por dentro e nos fazem sentir vivos.
Existem amores que não querem durar, apenas incendiar a alma, como uma ária final que explode antes do fim.
A noite é mestre em revelar a verdadeira face do desejo. Ela não julga, apenas mostra o que pulsa. Algumas verdades aparecem em roupas simples. E eu as recebo com humildade de aprendiz. Porque cada desejo é também mapa para a cura.
Houve dias em que a fé foi mão que segurou a minha. Não fez milagres espetaculares, só presença. Quando tudo fraquejava, essa mão continuou. Hoje sei que presença é forma de sustento. E a gratidão a ela é meu alimento secreto.
O silêncio com que respondo é muitas vezes coerência. Não é omissão, é escolha por não inflamar o que já dói. Falar demais às vezes espalha estilhaços. Aprendi a cuidar das palavras como quem segura vidro. E essa cautela me tem salvado do arrependimento.
A vida, às vezes, me ensina em pequenos parágrafos. Não há capítulos longos, só lições curtas e certeiras. Presto atenção e anoto em cadernos de bolso. Algumas tornam-se frases para dias de chuva. Outras eu queimo para libertar o peso antigo.
O amor que me cura não exige perfeição. Ele pede apenas coragem para chegar com as mãos vazias. Acolhe os termos e as condições sem contrato. E na simplicidade do gesto, tudo se transforma. Porque amor que exige pouco é o que mais dá.
A dor mais profunda não está em perdoar quem nos feriu, mas sim em carregar o peso corrosivo do ódio, que atua como um veneno lento na alma. Por isso, a escolha mais libertadora é sempre a do perdão, que nos permite não esquecer o caminho percorrido, pois a memória protege e ensina, mas que nos livra da prisão que construímos para nós mesmos. Esta é a resiliência que exige leveza para voar alto. Minha alma já foi um campo de batalha, um barulho caótico, mas hoje se transforma em uma melodia calma e afinada, um equilíbrio conquistado onde não me permito ser derrubado. Eu escolho a dor que me liberta e o autovalor que exige reciprocidade, aprendendo a diferenciar quem é apenas uma estação passageira de quem se torna um destino importante. Essa sabedoria nos traz a leveza da alma necessária para entender que a vida nos derruba para nos alinhar, nos desmonta para nos reorganizar, não é destruição, mas a lapidação que nos prepara para o ápice do nosso renascimento.
A jornada no deserto não é um castigo, mas uma escola de crescimento e amadurecimento onde somos forjados para a glória que está reservada à frente. É nesse lugar de escassez e solidão aparente que a provisão de Deus se manifesta de maneira mais clara e íntima, ensinando que não vivemos de pão somente, mas de cada palavra que sai da Sua boca, que é nosso sustento. Não importa a aridez do vale, pois Ele está no controle e sabe fazer tudo muito melhor do que podemos planejar, nos conduzindo em segurança para a terra prometida que Ele desenhou para nós.
