Nada na Vida é do Jeito que Queremos
Qualquer guerra é o capital se sobrepondo a vida, dimensão da coisificação humana em sua matéria mais bruta.
Aprendamos com a guerra que, ao estarmos próximos da morte nada importa além da vida e da possibilidade de permanecer no plano terreno. As pessoas levam, apenas, seus corpos e a esperança de recomeçar.
Cada manhã ensina que a vida não foi feita para projetos distantes, a vida pulsa e nos obriga ao imediato.
O ser humano tem sonhos, meio de nossa projeção de vida. Quando isso se conflita com a realidade, por inúmeros motivos, há uma tendência de auto violência seja ela simbólica , seja física.
Muitas vezes vivemos uma vida inteira com alguém, que acreditávamos que fosse como a gente e, de repente, descobrimos que passamos todo esse tempo ao lado de um anjo, de um enviado das estrelas, daí a carruagem, que não enxergamos, vem e carrega essa luz nos deixando sem sua sombra, com uma saudade danada do que não conseguimos viver e das lembranças que nunca vamos esquecer. Sim, já agendamos o reencontro, e não é permitido que se saiba a data. Isso será entre nós!
Pedido de perdão no final da vida não é arrependimento. Perdão no final da vida é covardia profunda.
Hoje quase posso dizer as medidas exatas do sofrimento. Na verdade, não louvo nem maldigo a vida, por causa disso. Sequer mandingo na tentativa de uma possivel fuga, pois entendo que a sina se constrói ou aluga o nosso corpo enquanto há pulso.
Muito mais do que isso, agora sei da verdade, face a toda mentira que ela acomoda. Entendo, resignado, que os contentos que a entrecortam são feito modas ou viroses. Só a tristeza é vida, pela tradição que a perpetua enquanto há. Tristeza é lua que rege nosso tempo em nós.
Bem sei que nada nos livra desta história; deste livro de folhas entreabertas que enseja penumbra e solidão. Tenho chances cada vez mais desertas e mesmo assim vou relutando contra todos os lutos do viver, para ver se cumpro meu luto vital e uma certa missão que os clichês impõem a todos.
Sobre tudo o que dói sei quase tudo, e quase nada restou de se atinar sobre as coroas de farpas da conquista exangue dessa cruz que se carrega. Do sangue ralo e coalhado com que se rega o caminho na ilusão de um tempo que ninguém viu.
Há mais grilo do que esperança... Mas parece que a segunda é a última que morre... Por isso vivo. Com que pretensão nem sei, mas vivo.
Depois de tanta vida, comecei a viver. Veio à mente a lembrança do que perdi em vivências consistentes, por acreditar nas disputas mercadológicas; nas corridas para o sucesso notório. Tudo sempre mais público do que pessoal.
Faz tempo, deixei de viver em razão dos outros. Aprendi a saber que estou em mim. Sei me doar sem doer por excesso de autocobrança. Faz-me bem olhar o mundo com serenidade, sem temer a sombra; o anonimato; a classificação nesse concurso instituído por uma sociedade viciada em superar o próximo.
Demorada maturidade. Não tardia, exatamente. Apenas demorada. Em tempo de me recompor, adaptar as sucatas do meu ser e renovar conceitos. Vencer preconceitos. Preencher vazios e me realizar como repessoa.
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