Mulher Quente
*O FILTRO É O PROBLEMA*
No primeiro sábado realmente quente depois do inverno, fui ao parque central da cidade.
Não por esperança. Tenho idade suficiente para desconfiar de qualquer coisa que prometa renovação.
A primavera tinha chegado sem pedir licença. Havia flores demais, folhas novas demais, gente demais tentando recuperar em poucas horas aquilo que o frio havia roubado durante meses.
As crianças ocupavam os espaços com a irresponsabilidade própria de quem ainda não descobriu que a vida cobra juros. Algumas brincavam. Outras apenas estavam ali, largadas ao sol, como se não houvesse nada urgente no mundo.
Os adolescentes circulavam em pequenos grupos. Ensaiavam aproximações. Um olhar demorava mais que o necessário. Uma risada surgia sem motivo. Um deles ajeitava o cabelo antes de passar perto de alguma garota. Pequenas operações de guerra, ainda sem mortos.
Os adultos eram mais complicados.
Alguns caminhavam como se estivessem cumprindo uma obrigação médica. Outros conversavam, sorriam, fotografavam flores, filhos, cães, os próprios pés, qualquer coisa que pudesse provar depois que haviam participado daquele dia.
Havia também os de sempre.
Sentados com a expressão de quem fora condenado a respirar o mesmo ar que os outros.
Reclamavam da quantidade de pessoas.
Do barulho.
Das crianças.
Do calor.
Da primavera.
Esses deveriam ter ficado em casa.
Não porque o mundo lhes devesse silêncio, mas porque certas pessoas carregam uma espécie de quarentena particular. Saem de quatro paredes e levam outras quatro dentro da cabeça.
O curioso é que chamavam aquilo de realidade.
Fiquei observando.
O parque não era bonito.
Também não era feio.
Era apenas um lugar cheio de gente tentando interpretar o que estava diante dos olhos.
E foi aí que percebi o truque.
Talvez o caos nunca tenha sido tão caótico quanto parece.
Talvez o problema esteja no sujeito que olha.
Um homem vê uma multidão e sente ameaça.
Outro vê companhia.
Um enxerga crianças fazendo barulho.
Outro enxerga infância.
Um vê adolescentes desperdiçando tempo.
Outro reconhece, com alguma vergonha, a própria juventude.
A mesma cena. Cabeças diferentes.
E cada cabeça jurando possuir a versão correta.
Passei boa parte da vida fazendo isso.
Escolhendo um ângulo.
Defendendo uma interpretação.
Chamando suas preferências de princípios e suas feridas de experiência.
Depois comecei a perceber que muita coisa que eu chamava de verdade era apenas uma maneira confortável de permanecer sentado dentro da minha própria versão dos acontecimentos.
O sujeito cria uma explicação.
Depois passa a viver dentro dela.
Cria um inimigo.
Depois precisa encontrá-lo todos os dias.
Cria uma identidade.
Depois passa o resto da vida protegendo-a.
Cria uma história sobre si mesmo.
E quando alguém ameaça essa história, reage como se estivessem tentando arrancar-lhe a pele.
Talvez liberdade seja uma coisa bem menos gloriosa do que imaginamos.
Talvez seja simplesmente deixar de acreditar tanto na própria narrativa.
Eu olhei novamente para as pessoas.
As crianças continuavam brincando.
Os jovens continuavam tentando impressionar uns aos outros.
Os adultos continuavam fingindo que sabiam para onde estavam indo.
Os mal-humorados continuavam mal-humorados.
Nada havia mudado.
Só havia mudado o lugar de onde eu estava olhando.
E isso foi desconfortável.
Porque, quando o observador percebe que também faz parte da cena, perde a vantagem de julgar.
Não há mais plateia.
Não há mais personagem principal.
Há apenas alguém olhando.
E esse alguém também está sendo observado pela própria consciência.
Nesse instante, minha história pareceu menos importante.
As coisas que eu havia defendido.
As coisas que eu havia perdido.
As pessoas que eu culpei.
As versões que construí para suportar determinadas noites.
Tudo começou a parecer uma coleção de móveis dentro de uma casa que eu já não precisava habitar.
Foi estranho.
Não houve revelação.
Nenhuma luz desceu do céu.
Nenhuma música começou a tocar.
Apenas uma pequena suspeita.
Talvez eu não seja aquilo que penso sobre mim.
Talvez você também não seja.
Talvez sejamos menos definidos do que passamos a vida tentando parecer.
Fiquei ali por mais alguns minutos.
Sem procurar significado.
Sem tentar consertar o mundo.
Sem transformar o parque em uma lição.
As pessoas continuavam passando.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei decidir o que aquilo significava.
Foi quase nada.
Mas, para quem passou anos carregando explicações, quase nada já é uma forma razoável de liberdade.
Do casal nasce a criança, do casal nasce a brigança; que vira briga quente, deixando amor de lado, tendo uma criança inocente , no meio do fogo cruzado de dois culpados.
Sol... Que faz nosso dia brilhar. Quando muito quente, ardente nos faz reclamar. Mas ao entardecer quando se põe nos faz encantar.
A xícara de café está quente entre as minhas mãos, mas os meus dedos continuam frios. Sorrio para a vizinha que passa pela calçada — um sorriso largo, daqueles que enrugam os cantos dos olhos. Ela acena de volta e comenta com outra pessoa sobre como sou "forte" e sigo em frente "como se nada tivesse acontecido".
Mal sabem elas que esse sorriso é apenas o vidro blindado que segura os meus estilhaços.
Nas últimas semanas, perdi o chão, o teto e o ar. Perdi quem eu mais amava, perdi planos de uma vida inteira e o porto seguro que me mantinha de pé. Quando fecho os olhos no escuro do quarto, o silêncio grita tão alto que chega a doer o peito. A sensação de vazio é um peso físico, uma âncora amarrada à minha alma. Morro um pouco mais a cada amanhecer, mas preciso levantar, lavar o rosto e colocar a máscara da normalidade.
Mantenho-me de pé por pura necessidade, blindando o que restou de mim e protegendo quem ainda depende da minha força.
Mas o mundo lá fora prefere julgar a embalagem a tentar entender o conteúdo. Escuto os sussurros nos corredores, os comentários tortos nas redes sociais e os olhares de desaprovação. Dizem que superei rápido demais. Dizem que sou frio. Julgam o meu silêncio como indiferença e o meu esforço para sobreviver como falta de amor.
Como as pessoas conseguem ser tão cruéis com o luto alheio? Quem deu a elas o direito de medir o tamanho da minha ferida pela quantidade de lágrimas que decido não derramar em público?
A maior lição que a dor me ensinou é que a empatia é o artigo mais raro do ser humano. É muito fácil apontar o dedo para o teatro de alguém quando não se conhecem os bastidores do seu inferno. Ninguém vê as noites em claro, o choro abafado no travesseiro para não incomodar ninguém, o nó na garganta engolido junto com a comida que já não tem sabor.
Se você está lendo isto agora e também carrega um peso invisível, saiba que eu vejo você. Eu entendo o cansaço de fingir que está tudo bem. E para você, que olha de fora e se acha no direito de criticar a postura de quem sofre, deixo um pedido: antes de julgar a forma como alguém reconstrói a própria vida, experimente calçar os sapatos dessa pessoa. Caminhe pelas pedras que ela caminhou. Sinta a ausência que ela sente.
A vida é um soco. Hoje eu choro escondido enquanto o mundo me aponta o dedo. Amanhã, pode ser você a precisar de um abraço que ninguém deu. Se não puder ser abrigo, pelo menos não seja a tempestade na vida de ninguém.
O sol da promessa era quente e tão breve,
Um mapa de sorrisos que a vida nos deve.
Acreditamos na dança, na mão a segurar,
Que o amor seria um porto, o doce lugar.
Mas o porto virou farol, a luz é um espinho,
E a mão que me guiava desfez o caminho.
Não há conto de fadas, não há doce canção,
A não ser a memória de uma falsa paixão.
Eu não sou mais criança, já vi a verdade,
A alma está marcada pela tempestade.
E a dor que prometem que cura com o tempo,
É a mesma que pulsa em cada mau momento.
O amor é como o vidro: lindo até quebrar,
E cada fragmento só serve para sangrar.
Não há cura ou abrigo, é um veneno lento,
O amor não é bom, é só sofrimento.
E agora, a lição na voz rouca da razão:
É melhor estar só que dar o coração.
Neve quente
As árvores estavam cobertas, carregadas,
a estrada estava intransitável,
o telhado ao mesmo tempo que explorava a fumaça da chaminé a todo vapor também segurava o peso da neve densa que caia impiedosamente aquela noite,
Do frio foram extraídos goles incansáveis de vinho,
da lareira foi consumido o calor sussurrante em cima do tapete de tecido grosso,
dos sorrisos foram arrancados o doce mel do frescor daquela noite,
Já é madrugada,
a neve continua a cair densamente,
a lareira ferve impenitente,
da janela apenas o suor é exposto descaradamente.
A chance
A janela aberta no amanhecer,
O café quente descendo quente a cada gole,
No olhar para dentro uma divisão de sentimentos,
Nas nuvens passageiras o recado foi dado,
Na revisão das atitudes e do comportamento, a chance de evoluir sem errar novamente.
POESIA
Renascer
Gosto muito de acordar quente de tanto pensar em você é maravilhoso dormir pensando nos carinhos que recebi durante o dia.
O Amor pode trazer consequências, faz chorar, faz sofrer, mas é o melhor e único caminho para evitar a solidão.
É incompreensível o descontrole que causa ao coração, á esperança, a felicidade através de afetos, toques, palavras carinhosas.
O seu amor me faz renascer a cada dia.
Eu sou um novo homem todos os dias depois que te conheci.
O Café e a Estrada
O vapor sobe lento da xícara quente,
um calor que acorda o peito por dentro.
Sinto o amargo suave, o perfume presente,
e no silêncio do pó, me encontro e me centro.
Estar vivo é esse gosto, esse gole de agora,
o milagre sutil de inspirar e sentir.
É ver a manhã desenhar-se lá fora
e saber que ainda há tanto caminho a florir.
Sigo só na caminhada, passo a passo, a pensar,
com a alma desperta e o peito sereno.
Pois o solitário trajeto só serve pra honrar
o destino dourado que me faz o percurso pequeno.
Trago a vida no peito e o café nas lembranças,
enquanto me movo ao encontro dos meus.
Onde a gratidão vira abraço, riso e esperança,
e o amor reafirma as bênçãos de Deus.
Boa caminhada e bom encontro!
No recanto
O vento quente do sertão
varre a alma cansada,
E a ansiedade aperta
o peito como corda de viola.
O homem sente
o mundo pesado nos ombros,
E a esperança parece distante, escondida no céu de brasa.
Mas chega uma palavra doce, feita de calma e cheiro de terra molhada,
Um sussurro que floresce entre
o juazeiro e a laranjeira.
O coração se abre,
desata o nó que sufoca,
E a vida volta a dançar
na batida lenta do luar.
No recanto da paixão,
o olhar se encontra,
Mãos trêmulas se entrelaçam,
tão simples e certeiras.
O medo se dissolve
na música das palavras,
E o amor cresce no silêncio
que fala mais que tudo.
Ah, sertão que ensina
a alma a resistir,
Entre seca e chuva,
entre dor e sorriso.
Uma palavra bondosa
é a chuva na rocha,
E o coração do homem
volta a cantar seu próprio destino.
Labirinto Interior
As pedras falam,
mas ninguém escuta.
O sangue quente escorre
entre sombras que dançam na cabeça.
Há vozes que me atravessam,
rasgam o silêncio,
e deixam rastros de carvão no peito.
Não sei se é noite ou tempestade,
se o chão queima ou se sou eu,
ou se o vento carrega minhas mãos,
incapazes de segurar o que foge.
Senhor, você que vê meu coração no meio da confusão,
guarda-me da própria sombra
sem apagar o fogo que me lembra que existo.
Que eu não me perca
entre a brasa e a bruma,
entre o toque que destrói
e a mão que quer abençoar.
Que eu seja labirinto e mapa,
raiva e silêncio,
pesadelo e oração,
até que a manhã me reconheça
entre os escombros do meu ser.
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