Memória
Memória; sinônimo de felicidade; de conforto; de rancor; nos faz o véu do viver, fixo nesse oceano de incertezas jaz certas.
Quintal da memória
Uma varanda,
uma vila,
um corredor comprido.
Da janela,
um quintal aberto ao mundo.
Chuva de verão caindo morna,
cheiro de café vindo da cozinha,
o leite crescendo no fogão.
Brinquedos esquecidos pelo chão.
Pai - porto seguro.
Avó - doçura de colo.
Madrinha - mãos cheias de agrados.
Padrinho - passos lentos pelas tardes.
Hoje,
quando a chuva retorna
e o café invade o ar,
fica apenas
a infância
roçando leve
as asas da lembrança.
POESIA EM MEMÓRIA ÚLTIMA
(para ti, Avelino Fernando do Couto Ribeiro)
Rezaram-te a missa,
O solista cantou,
O órgão tocou,
Em premissa.
Eu assisti e rezei
Diferente, por razão
De fé ao Corpo
Do Homem morto
E Crucificado que eu sei.
Tanta gente caminhando
Em passo quase de tropa
Rumo ao campo sagrado
E eu atrás de todos pensando
Se a morte é vida ou pecado
Por ter a coragem de morrer
Antes do prazo aprazado.
Deus - que fria é a morte
Criada de nascente
A poente,
Sem norte.
Dois barrotes de madeira
Duas cordas na horizontal,
Uma cova funda na vertical,
Um caixão que desce anormal
De cabeça para baixo,
Abismal,
Um corpo quase vivo
Afinal,
Que se não fosse a terra
Que mais aterra e pesa
Na sua função de singeleza
Entre a definição da morte,
Quiçá, quando for da nossa sorte
Entremos de pés ao baixo
E de cabeça ao alto,
Sem sobressalto,
Ou suspiros,
Não vá, mesmo lá dentro
Do ataúde fatal,
Vomitarmos os diospiros
Ingeridos há tempo que tal.
(Carlos De Castro in Há Um Livro Muito Triste Por Escrever, em 06-04-2026)
Quem treina sabe
Músculo tem memória
E se voltar a treinar
Logo ele volta a crescer,
E como posso esconder
Se o coração é um músculo que faz parte do meu ser,
Ele pede pela sua volta para voltar a viver.
O corpo sem treinar definha,
O coração sem amar,
Faz dos olhos um mar
Cheio de água salgada,
Esperando pela embarcação
Que um dia fez morada naquele coração.
-
Leonardo Procópio, Pindamonhangaba.
"O existir assemelha-se a um sono sem memória, no qual a mente se exila em territórios alheios à alma que me sustenta."
Os momentos passam, mas não se perdem enquanto a memória os abriga. Assim também os sonhos: enquanto não morrem dentro de nós, a realização ainda se aproxima.
memória
“ se passam
anos,
meses,
dias,
horas,
minutos e
segundos
mas a todo momento
sem exceção
me recordo do seu olhar,
seu toque
seu cheiro
seu sorriso
e da imensidão
que ficou em mim”
Aquela noite ficaria gravada na memória do tempo — um ponto de inflexão silencioso, o prenúncio de algo que mudaria para sempre o destino da humanidade.
Somos apenas lembranças e se deixamos de ser memória na mente de alguem, então, dixamos de existirmos, ser é estar presente.
Raquel Souza
“Que o Natal, memória do nascimento de Cristo, nos recorde que antes de sermos povos distintos somos humanidade compartilhada, e que nenhuma fronteira é maior do que o chamado à paz, ao cuidado mútuo e à dignidade que nos une.” - Leonardo Azevedo.
O que a memória ama
O que a memória ama,
não se perde no tempo…
vira presença silenciosa,
dessas que o coração reconhece
mesmo na ausência.
Te amo assim —
no detalhe que ficou,
no instante que não passou,
na lembrança que respira
dentro de mim.
Porque o amor verdadeiro
não depende do agora…
ele mora onde o tempo não alcança:
na memória,
e na eternidade do sentir.
Por Simone Cruvinel
"Quem vive de luxúria e vaidade costuma ter a memória curta para os favores que recebeu e a língua comprida para julgar quem a ajudou."
"Você diz que tentou me ajudar? A minha memória e a minha história dizem o contrário. Onde estava o seu apoio enquanto você se ocupava em fazer maldade?"
Sotaque não se corrige — se celebra.
É raiz que fala, memória que respira,
é a terra moldando a palavra
na boca de quem a carrega.
No chiado leve do Rio de Janeiro,
no ritmo firme de São Paulo,
na doçura mansa de Minas Gerais,
no vento aberto do Rio Grande do Sul,
e na cadência viva do Pará,
onde o falar carrega rios, florestas e histórias —
há vozes que não cabem na gramática,
mas vivem inteiras na identidade.
Cada fala é um mapa invisível,
um retrato que não se desenha,
mas se ouve.
Não há língua mais certa que a outra,
há caminhos diferentes para dizer o mundo.
E em cada som, em cada jeito,
o Brasil se reconhece plural.
Valorizar o sotaque
é reconhecer o outro —
e, no eco da diferença,
descobrir que somos muitos
e ainda assim, um só.
Perdoar é a chave que liberta feridas. Perdoar não é apagar a memória, nem justificar o erro alheio. Perdoar é decisão. É escolher soltar o peso que corrói, o rancor que cega, a mágoa que prende. É abrir espaço para que a paz floresça dentro de nós, mesmo em lembranças que doem, mesmo em cicatrizes que permanecem.
