Medo de Mim
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
Existe um lago dentro de mim onde as vozes se banham. Nenhuma delas sabe nadar direito, mas insistem. Quando me aproximo, o lago mostra minha face em pedaços. A água aceita o que chega, sem julgar. E eu aprendo que aceitar é também forma de oração.
Há um livro dentro de mim que não cabe em prateleiras. Ele tem páginas em branco e algumas escritas em lágrima. Às vezes releio a parte que traz consolo. Outras, treino as palavras que ainda não sei dizer. Escrever é aprender a traduzir a própria pele.
A vida me ensinou a escrever cartas para mim mesmo. Nelas encontro conselhos antigos e ternos. Algumas servem de manual para dias de crise. Outras são lembretes para celebrar pequenas vitórias. E reler é gesto de autocompaixão bem praticado.
Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.
O raso me causa vertigem. Tudo em mim é abissal: se amo, me perco, se sofro, me afogo, se escrevo, transbordo.
A escrita não é para o mundo, é para mim. Se eu não colocar no papel, o que sinto acaba por me implodir.
Sou o adulto que tenta ser o abrigo para o menino que ainda chora em mim, esperando por uma justiça que o tempo não traz.
Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.
O sono, para mim, é apenas um campo de batalha onde os monstros do dia trocam de roupa para continuar o cerco sob o véu da noite.
A fé, para mim, é o suspiro de quem, no escuro absoluto, ainda estende a mão esperando tocar a orla de algo sagrado. É saber que Deus me vê mesmo quando eu mesmo me tornei invisível para o espelho.
Podem me arrancar tudo... mas jamais tirarão de mim a fé, o recomeço e a coragem de florescer outra vez.
O que me sustenta não está fora, mora dentro.
Não é só uma frase. É parte de mim. Se tocou seu coração, não apague o nome de quem a escreveu.
Janice F. Rocha
Se eu precisar escolher, prefiro perder a razão do que perder a paz. Quem fala de mim não conhece meu coração, mas Deus conhece cada detalhe.
Julgar é fácil, amar exige entrega.
Enquanto falam de mim, eu escolho orar por quem fala.
Minha paz vem do alto e não depende da aprovação de ninguém.
Não preciso me explicar para quem já construiu sua própria versão sobre mim. Se isso te traz razão, que fique contigo; eu fico com minha paz.
Carrego dentro de mim batalhas que ninguém viu, mas cada uma delas moldou meu peito como ferro aquecido, não pedi para ser forte, fui obrigado pela vida, e mesmo assim aprendi a amar no intervalo das dores, sou testemunha da minha própria ressurreição diária.
A esperança renasce em mim como uma chama teimosa, mesmo quando o vento da vida sopra para apagá-la, eu a protejo com as mãos feridas e calejadas, porque sei o quanto ela já me salvou, e continuarei acendendo-a até o fim dos meus dias.
