Me Perco dentro da Saudade
Vivemos em um tempo
onde o fator determinante
é a banalização de tudo e de todos,
o próprio ser humano se propõe,
se exibe e se divulga como um ser banal.
🖋 @MiriamDaCosta
Durante o meu caminhar pela trilha da vida,
cruzei com muitos rostos,
e nem todos tinham luz.
Encontrei a pessoa fofoqueira,
que teceu sombras sobre o meu nome.
A pessoa esperta,
que viu em mim uma oportunidade de vantagem.
A pessoa maldosa,
que fez do meu sentir um campo de ferida.
A pessoa arrogante,
que tentou me diminuir para se engrandecer.
A pessoa tola,
que colocou à prova a minha bondade e a minha paciência.
A pessoa raivosa,
que quis incendiar em mim o fogo que a consumia.
A pessoa prepotente,
que desafiou a minha razão.
E a pessoa invejosa,
que, na tentativa de me destruir,
revelou apenas a própria escassez.
Mas, em meio a todos esses encontros,
eu nunca estive só.
Havia sempre uma presença silenciosa
e firme, uma pessoa moderada,
que continha os meus impulsos
quando o mundo me empurrava
para o abismo da reação.
Uma pessoa de boa índole,
que transmutava a maldade recebida em aprendizado e força.
Uma pessoa sábia,
que me guiava com lucidez
nas encruzilhadas das decisões difíceis.
Essa pessoa me segurou
quando eu poderia ter me perdido.
Me ensinou
quando eu poderia ter endurecido.
Me elevou
quando tudo parecia querer me rebaixar.
E hoje, ao revisitar as páginas vivas
da minha própria história,
eu a reconheço com clareza e reverência,
essa presença constante,
essa guia silenciosa,
essa força que nunca me abandonou
sempre fui eu, simplesmente Eu.
✍©️@MiriamDaCosta
Nesses meus anos de vida
pude perceber que as pessoas
que mais encheram a boca para falar
de Jesus ou de Deus...
foram as que mais
(de um modo ou de outro)
tentaram infernizar o meu viver...
e as que mais demonstraram ser
as concorrentes do diabo
nesse meu trilhar a vida.
Visto e considerado esse dado de fato,
perdi a total confiança em qualquer pessoa
que em qualquer tipo de proferimento inclui o nome de Jesus ou de Deus.
Sobretudo aquelas que como fossem, de alguma forma, superiores aos demais,
estufam o peito , levantam o rosto e exclamam como fosse uma intimidação:
- Eu tenho Jesus!
- Eu vivo em Jesus!
- Jesus vive em mim!
E por aí vai...
E eu?!
Aprendi a observar,
escutar
e "sofrer" de afonia.
✍©️@MiriamDaCosta
Oh, Itaipu!
reconheço as raízes profundas
dos meus pés
entre o vosso mar, vossa lagoa,
vossas dunas, ilhas e igarapés.
Os meus passos eu sei de cor
nesse sereno andejar a compor
o meu singrar o tempo,
o vento e o sol
mansamente a se pôr...
Oh, Itaipu!
Em vós reconheço
que o movimento dos meus pés
não são passos,
são raízes que caminham.
Entre o vosso mar salgado
de eternidades,
a lagoa que espelha silêncios,
as dunas que guardam
segredos do vento,
as ilhas que flutuam
como pensamentos antigos
e os igarapés que sussurram histórias
que só a poesia da terra entende...
eu me reconheço.
Os meus passos, eu sei de cor,
não porque os decorei,
mas porque fui escrita por eles.
Nesse sereno andejar
que me atravessa,
vou compondo o que sou
com o que me antecede.
E singro,
não apenas o tempo,
mas o sopro invisível das horas,
o vento que me desarruma e arruma
inteira por dentro,
e esse sol que, ao se pôr,
não morre,
me dissolve em serena luz.
Oh, Itaipu!
Há raízes nos meus pés
que só em ti reconhecem
o seu lugar.
Entre o mar, a lagoa,
as dunas que respiram
e os caminhos de água
que murmuram,
eu caminho lentamente,
como quem se escuta.
Sei de cor os meus passos
(versos tatuados de brisa e areia),
porque eles já me conheciam
antes mesmo de eu existir.
E nesse manso caminhar,
vou singrando o tempo,
o vento
e o sol que se despede,
como quem aprende,
em silêncio, a pertencer
mais do que já pertence.
Óh! Itaipu!
Posso até distanciar-me de vós,
mas nunca serás distante de mim.
✍©️ @MiriamDaCosta
A herança da humanidade
é a loucura.
O deus da humanidade
é a ignorância.
A religião da humanidade
é a hipocrisia.
A política da humanidade
é a indiferença.
A essência da humanidade
é a solidão.
✍©️@MiriamDaCosta
A Senhora Inspiração
Pedi à senhora Inspiração
para guiar a minha escritura
e me fazer escrever algo belo,
profundo, marcante e visceral.
Ela me respondeu que
não é serva de vaidades apressadas,
nem ornamento para desejos de grandeza.
Disse-me, com a calma
de quem conhece o tempo,
que o belo não se pede,
revela-se.
Que o profundo não se inventa,
escava-se.
Que o marcante não se força,
atravessa.
E o visceral?!
ah, o visceral,
não se escreve com canetas ou teclas,
mas com aquilo que pulsa
e que sangra no âmago.
Então, pediu-me silêncio.
Mandou-me despir as palavras
fáceis e corriqueiras,
abandonar os enfeites,
e descer, sem garantias,
à parte de mim
onde nem eu ouso permanecer.
“Escreve dali”, ela disse.
“Do lugar onde a dor não se explica,
onde a memória não pede licença,
onde a verdade não aceita maquiagem.”
"Escreve olhando nos olhos
a inata escritora que és."
E partiu,
como partem as coisas sagradas,
sem ruído,
sem promessa,
sem retorno marcado.
Desde então,
Ela vai e vem... vem e vai...
como as ondas do mar.
E eu,
não peço mais nada à senhora Inspiração,
simplesmente, sigo obedecendo-a.
"Manda quem,
obedece quem tem juízo. "
Escrevo para ser inteira.
Simplesmente, escrevo com a alma.
©️✍@MiriamDaCosta
Minhas mãos nasceram para amar a terra ❤
Cuidar da terra é um gesto de fé,
é como entoar orações
e seguir rituais ...
Retirar, com paciência e delicadeza,
o que impede a vida de respirar
(as ervas daninhas...),
oferecer alimento , nutrientes
(adubo e fertilizantes...)
lançar sementes ao solo
e confiar no tempo
( o senhor da sabedoria...).
Regar com presença,
proteger com ternura,
aceitar o ritmo das estações,
as vontades do céu
e os ciclos da terra.
E então…
um dia,
quase em segredo,
silenciosamente
e com imensa generosidade
a vida responde...
germina, cresce,
floresce e frutifica lentamente,
como quem agradece
ao cuidado que a chamou
para existir e nutrir.
©️✍@MiriamDaCosta
Se algum dia
eu envelhecer suavemente,
ou se, por alguma razão precoce,
a memória se dissipar
como névoa ao amanhecer,
se eu esquecer nomes, rostos
e até mesmo a mim…
Ainda assim,
minha memória
não estará perdida.
Ela apenas
terá recolhido o corpo
para repousar em silêncio,
entre os vales coloridos,
as montanhas verdejantes
e o mar sereno
da minhalma poética.
Ali, ela se banhará tranquila
nas águas mansas das palavras,
recebendo o perfume,
a maresia nas ondas infinitas
dos meus versos.
E ficará livre,
plena,
acolhida no abrigo íntimo
do seu próprio âmago.
©️✍@MiriamDaCosta
A superficialidade
estava entediada e inquieta...
e sorrindo, decidiu perguntar à profundidade por que ela era assim tão calma e triste.
a profundidade respondeu assim:
- Para saber...
basta olhar para si mesma
com a superfície dos meus olhos.
A superficialidade riu, leve,
quase distraída, como quem
não entende o peso
de uma pergunta.
- Ora, eu me vejo todos os dias, disse,
clara, brilhante, cheia de movimento e
não há mistério em mim.
A profundidade silenciou por um instante,
como quem escuta o que não foi dito,
e então falou, mansa:
- É justamente isso.
Tu te vês apenas onde a luz toca,
onde o reflexo te devolve intacta.
Mas não te conheces
onde a luz não ousa ficar.
A superficialidade hesitou,
um segundo apenas,
como se algo tivesse roçado
as margens do seu entendimento..
- E o que há lá? ( perguntou)
já sem o mesmo sorriso.
A profundidade respondeu:
- Há o que sustenta o que tu mostras.
Há o que dói, o que cria,
o que transforma.
Há silêncio,
e no silêncio, verdade.
A superficialidade então se inclinou,
curiosa e receosa, tentando enxergar
além do próprio brilho…
Mas recuou.
- É escuro demais.
E a profundidade, sem julgamento,
apenas concluiu:
- Não é escuro…
é vasto.
Imensamente vasto,
como a linha do horizonte
sobre o oceano.
A superficialidade
então ficou em silêncio,
pela primeira vez sem pressa,
sem brilho e sem resposta pronta.
Algo nela vacilou,
não como quem quebra,
mas como quem percebe
que nunca se sustentou sozinha.
E ali, à beira de si mesma,
entre o reflexo e o abismo,
sentiu um chamado
que não vinha de fora.
A profundidade apenas permaneceu,
como o mar que não insiste,
mas espera.
E, por um instante rar
a superficialidade não quis parecer,
quis entender.
Mas o entendimento,
assim como o oceano,
não se atravessa correndo.
É preciso,
com calma corajosa,
nele afundar.
©️✍@MiriamDaCosta
A semana dita "santa"
Chamam de santa
uma semana
onde a memória sangra.
Dizem sagrado
o que foi feito de cordas,
de açoites,
de carne rasgada
e silêncio forçado.
Eu olho,
e não vejo santidade.
Vejo mãos humanas
erguendo a própria crueldade
como espetáculo.
Vejo a multidão
(os mesmos que hoje rezam)
gritando ontem
pela condenação.
Vejo o peso da madeira
não como símbolo,
mas como instrumento.
frio, concreto,
real.
E me pergunto,
em que instante
a dor foi coroada de divina?
Em que momento
a atrocidade
ganhou nome de redenção?
Chamam de santa,
talvez porque precisem
que seja.
Talvez porque encarar
o abismo humano
sem adorno,
sem promessa,
sem justificativa,
seja insuportável.
Mas eu não consigo.
Não chamo de santo
o que nasceu da violência,
nem beijo
o que foi instrumento
de tortura e de morte.
Se há algo sagrado ali,
não está no ato,
nem nas mãos que feriram.
Talvez esteja
no que sobreviveu...
apesar de tudo.
Ou talvez…
na recusa de olhar na cara
a atualidade
das mesmas atrocidades
(e até piores)
que a humanidade
é capaz.
©️ @MiriamDaCosta
Os direitistas, bolsonaristas e afins...
fizeram de tudo para condenar e prender ( baseados em convicções) o Lula.
Agora, fazem de tudo para blindar/proteger ( mesmo com evidências de provas)
os seus comparsas/aliados.
Fizeram tribunal de convicções
ergueram sentenças no ar rarefeito
onde provas eram dispensáveis
e certezas… bastavam.
Apontaram dedos em riste,
vestidos de moral emprestada,
gritaram justiça
como quem grita guerra.
E guerrearam.
Condenaram antes do tempo,
antes da prova,
antes da verdade,
porque a pressa
sempre foi inimiga da lucidez.
Agora…
diante dos seus,
das suas próprias sombras
projetadas no chão da história,
erguem escudos,
costuram silêncios,
inventam dúvidas
onde as evidências gritam.
A régua entorta,
a balança pende,
e a justiça,
essa palavra tão usada,
vira apenas instrumento
de conveniência.
Não era sobre justiça,
nunca foi.
Era sobre lado.
Era sobre poder.
Era sobre quem pode
e quem não pode
ser julgado.
E assim,
entre convicções e provas,
a verdade segue,
não absolvida,
não condenada,
apenas…
blindada
e adiada.
✍©️@MiriamDaCosta
Ritos e contradições...
Dizem que na Semana Santa
não pode comer carne,
é pecado.
Mas nos outros dias,
fica liberado
devorar o outro
em fatias de indiferença,
temperadas com egoísmo
e servidas frias
na mesa da conveniência.
Na Sexta-feira santa,
o prato é vigiado,
mas a língua,
essa continua afiada,
cortando, ferindo, julgando
sem qualquer jejum.
O corpo se abstém,
mas a consciência…
segue em jejum
o ano inteiro.
E na crueldade das torturas
que se perpetuam,
não há silêncio,
não há luto,
não há penitência.
Que curioso ritual esse
que santifica o cardápio
e absolve a crueldade cotidiana.
Talvez o verdadeiro pecado
não esteja na carne
que se come...
mas na humanidade
que se deixa de exercer.
✍©️@MiriamDaCosta
Ventos outonais
O Outono vem embarcando
no ùtero da estação
dos meus versos,
e eu ...
lentamente,
vou caminhando
e sangrando poesia
entre os ventos
orvalhados de folhas,
galhos, espinhos,
pétalas e sementes...
e me deslumbro
cada vez mais
com toda a nudez poética
dos roseirais,
arbustos e àrvores
do meu ser ...
Sou filha do Outono
ovulando Primavera.
✍©️@MiriamDaCosta
O oásis silencioso
A praia completamente desnudada
da caótica presença humana
é um dos meus oásis.
Ali,
o vento não disputa espaço com vozes,
nem o mar precisa gritar
para ser ouvido.
A areia repousa em sua própria epiderme,
sem marcas de exibicionismo e vaidade,
sem rastros de pressa, gritaria e estresse.
E eu,
descalça de rumores do mundo,
finalmente me reconheço
na vastidão simples
de existir em simbiose com Ele,
o mar.
✍©️@MiriamDaCosta
Umbral Park
As pessoas temem o umbral
como se fosse um abismo distante,
um território sombrio reservado
aos que “caíram”.
Mas caminham, distraídas,
por corredores de um mundo
onde a luz é fachada
e a sombra é norma.
Vivem em um parque temático
de ilusões e crueldades sutis,
um Umbral Park
onde a dor é naturalizada,
a indiferença é entretenimento
e a consciência… opcional.
Aqui,
fantasmas vestem carne,
e muitos corpos
já não abrigam presença alguma.
Temem o pós-morte,
mas não percebem
a morte em vida
que respiram todos os dias.
E assim seguem,
comprando ingressos para o próprio esquecimento,
sorrindo nas filas do absurdo,
sem notar
que o verdadeiro umbral
não é para onde vão…
é onde já estão.
✍©️@MiriamDaCosta
Um talento, quando sufocado
pelo excesso
ou abandonado ao ócio,
definha em rotina.
Mas, quando dança
no equilíbrio entre ambos,
deixa de ser vício ou inércia
e se revela
plena virtude viva,
pulsante, consciente.
✍©️@MiriamDaCosta
A interpretação dá origem
a muitas filhas,
cada cabeça nutre e cuida
da sua própria.
Filhas
incontáveis
e indomáveis,
e cada mente as embala,
alimenta e educa
seus sentidos
à sua maneira.
E assim crescem,
diferentes entre si,
como se a verdade,
muitas vezes,
fosse apenas uma mãe
incapaz de reconhecer
todos os rostos
que dela nasceram.
✍©️@MiriamDaCosta
A diferença entre pensar e refletir
Todos, de uma forma ou outra,
têm a capacidade de pensar.
Mas poucos são capazes de refletir.
Pensar é um fluxo,
natural, rápido, incessante.
Quase sempre automático,
por vezes raso,
muitas vezes apenas ruído.
Refletir, não.
Refletir é pausa.
É escolha.
É mergulho.
É o ato consciente
de atravessar um pensamento
e olhá-lo por dentro,
por ângulos diversos,
até que ele revele
mais do que aparenta.
Pensar acontece.
Refletir exige.
Pensar passa.
Refletir permanece.
E é nesse intervalo,
entre o que surge
e o que se compreende,
que nasce
a possibilidade da sabedoria.
✍©️ @MiriamDaCosta
