Me Deixa Viver
O Estado laico começa onde o poder público deixa de perguntar em que Deus o cidadão acredita e reconhece, agnosticamente, que talvez não possua meios para responder se Deus existe.
Quando o desejo se torna dado, a intimidade deixa de ser apenas um direito e passa a ser uma fronteira econômica.
A responsabilidade comunicacional começa onde a mensagem deixa de ser apenas linguagem e passa a produzir mundo.
Quando uma crença religiosa reivindica autoridade científica sem evidência, o problema deixa de ser apenas teológico e torna-se epistemológico e jurídico.
O método científico começa onde a autoridade deixa de ser suficiente; o agnosticismo começa onde a pretensão de certeza ultrapassa a evidência.
Quando uma teoria científica é tratada como dogma, ela deixa de obedecer ao espírito que tornou a ciência possível: a disposição de admitir que novas evidências podem exigir revisão.
Quando o Estado se torna religioso, a fé deixa de ser apenas convicção e começa a adquirir poder de coerção, enquanto a dúvida agnóstica pode transformar-se em suspeita política.
O que acontece com o Direito de Família quando casamento deixa de ser a principal estrutura de intimidade e a inteligência artificial passa a oferecer formas de companhia?
Há um instante em que o homem deixa de obedecer às verdades recebidas e começa a escrever as suas próprias perguntas.
“Onde o poder transforma o ser humano em instrumento, o Direito deixa de ser apenas norma e passa a ser o último território da dignidade contra a arbitrariedade.”
“A liberdade começa quando o homem deixa de ser objeto das vontades alheias e se reconhece como fim em si mesmo; o Direito existe, em sua forma mais elevada, para impedir que qualquer poder lhe retire essa condição.”
A dignidade começa quando o ser humano deixa de aceitar que qualquer pessoa possa ser reduzida à condição de instrumento.
A consciência moral é talvez o lugar onde a liberdade deixa de ser abstração e começa a adquirir responsabilidade.
A autonomia começa quando o homem deixa de obedecer cegamente à tradição, ao medo e ao desejo e passa a interrogar a legitimidade de cada comando.
O esclarecimento começa quando a autoridade deixa de ser argumento suficiente para uma consciência que aprendeu a perguntar.
A poesia começa quando a linguagem deixa de tentar explicar tudo e nos devolve ao encanto de não entender completamente o mundo.
A liberdade começa quando o indivíduo deixa de confundir a voz da consciência com o eco das normas que o formaram.
