Mario Quintana- Brevidade da Vida

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Uma das coisas mais inteligentes que um homem e uma mulher podem saber é saber que não sabem.

Mario Sergio Cortella
Qual é a tua obra? Petrópolis: Vozes, 2009.

⁠A coisa mais perigosa que existe é o incompetente com iniciativa.

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

A minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra.As dores morais transformam-se-me em verdadeiras dores físicas, em dores horríveis, que eu sinto materialmente - não no meu corpo, mas no meu espírito.

Eu não sou eu nem sou outro
sou qualquer coisa de intermédio.

Rebelam-se contra as regras os que não podem cumpri-las. A virtude só é grande quando difícil.

Doce solidão
Adoro ficar sozinho, em silêncio, curtir minha própria companhia, me perco em pensamentos, silêncio absoluto, não preciso falar, as vezes tenho preguiça de falar, responder, interagir com alguém....preciso desse tempo pra mim....

Quem domina o seu mental, domina-o até nas ruas mais movimentadas de uma cidade metropolitana; quem não o domina, nem no silêncio de uma gruta é capaz de fazê-lo.

O movimento marxista, sem a força dada pela coerência, acabou por obter uma coerência conquistada pela força.

Apesar do peão ser a peça mais fraca do xadrez, ela pode se transformar até numa rainha, que é a mais forte, se perseverar até o fim.

O capitalismo transforma tudo em mercadoria incluindo os relacionamentos humanos.

A inteligência artificial poderá ser a melhor coisa para a humanidade ou será a nossa ruína.

⁠Retrovisor é menor que parabrisa, porque passado é referência e não direção!

O superpoder do Batman é o de ter transmutado a dor de perder os pais em força para combater o crime.

O amor é a paixão domada.

Não sei qual é a perfeição do leão se me perguntarem. Mas sei que, neste momento, há um leão que é o mais leão dos leões vivos e que, na história de toda a espécie leonina, há de haver um exemplar que atinja a maior perfeição da sua raça.

⁠Ninguém morre de fome ou de frio, morre de abandono.

Se houver outro ser humano que possa ajudar e ajuda, essa pessoa não morrerá nem de frio, nem de fome.

Mas se há outras pessoas que podem ajudar e não ajudam, essa pessoa morrerá de frio e de fome, mas causado pelo abandono, nem pelo frio e nem pela fome. Por isso, se nós abandonamos, aí termina a possibilidade daquela vida seguir.

Mas, se nós não abandonamos, ela segue, e, portanto, a vida gera vida, não do modo como está hoje, em que parte do esquecimento da vida gera morte.

Mario Sergio Cortella

Nota: Pensamento dito durante o programa Jornal da Cultura, da TV Cultura, em 19 de maio de 2022.

Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor!

A índole pacífica e hospitaleira do nosso povo é realmente democrática, mas a inércia, decorrente do analfabetismo, da incultura e da falta de saúde, não lhe permite aspirar à responsabilidade. Aceita fatos consumados, é povo fatalista.

A UM SUICIDA

À memória de Tomás Cabreira Júnior

Tu crias em ti mesmo e eras corajoso,
Tu tinhas ideais e tinhas confiança,
Oh! quantas vezes desesp'rançoso,
Não invejei a tua esp'rança!

Dizia para mim: — Aquele há-de vencer
Aquele há-de colar a boca sequiosa
Nuns lábios cor-de-rosa
Que eu nunca beijarei, que me farão morrer

A nossa amante era a Glória
Que para ti — era a vitória,
E para mim — asas partidas.
Tinhas esp'ranças, ambições...
As minhas pobres ilusões,
Essas estavam já perdidas...

Imersa no azul dos campos siderais
Sorria para ti a grande encantadora,
A grande caprichosa, a grande amante loura
Em que tínhamos posto os nossos ideais.

Robusto caminheiro e forte lutador
Havias de chegar ao fim da longa estrada
De corpo avigorado e de alma avigorada
Pelo triunfo e pelo amor

Amor! Quem tem vinte anos
Há-de por força amar.
Na idade dos enganos
Quem se não há-de enganar?

Enquanto tu vencerias
Na luta heroica da vida
E, sereno, esperarias
Aquela segunda vida
Dos bem-fadados da Glória
Dos eternos vencedores
Que revivem na memória —
Sem triunfos, sem amores,
Eu teria adormecido
Espojado no caminho,
Preguiçoso, entorpecido,
Cheio de raiva, daninho...

Recordo com saudade as horas que passava
Quando ia a tua casa e tu, muito animado,
Me lias um trabalho há pouco terminado,
Na salazinha verde em que tão bem se estava.

Dizíamos ali sinceramente
As nossas ambições, os nossos ideais:
Um livro impresso, um drama em cena, o nome nos jornais...
Dizíamos tudo isso, amigo, seriamente...

Ao pé de ti, voltava-me a coragem:
Queria a Glória... Ia partir!
Ia lançar-me na voragem!
Ia vencer ou sucumbir!...

Ai! mas um dia, tu, o grande corajoso,
Também desfaleceste.
Não te espojaste, não. Tu eras mais brioso:
Tu, morreste.

Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido,
Nem é tão pouco vencer.

Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver

Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte —
Mais triste do que a minha e malaventurada.
... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
E há tantos como eu que não alcançam nada...


Lisboa, 1° de outubro de 1911
(aos 21 anos)