Machado de Assis Poema Pai Contra Mae
Telha de vidro
Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...
Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!
Mors Amor
Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
Contemplação
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando...
Que é o Mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...
E dentre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentindo...
Sonho Oriental
Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsamica e fulgente
E a lua cheia sobre as aguas brilha...
O aroma da magnolia e da baunilha
Paira no ar diaphano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...
E emquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n'um scismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descanças debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.
(Trecho de A Máquina do Mundo).
Tirar a batuta de um maestro é tão fácil quanto difícil é reger com ela a quinta sinfonia de Beethoven.
Poema Canção Amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Choro!
Sem ninguém perceber
Pois é choro da alma
Que ninguém pode ver
Choro!
Por não estar com você
Por sofro por ti
Sem ninguém perceber
Choro!
Não por você
Mas por aquilo que sinto
Sem você perceber
Choro!
Não por causa de dor
Mas choro por algo
Que alguns chamam de amor...
Tarde da noite, quarta-feira. Mais uma vez o sono me escapa, mas a tua lembrança não.
@fer_machado_escritor
Pétalas do Coração
Helaine Machado
As senzalas ainda parecem fechadas,
mesmo depois que uma jovem princesa
tentou romper seus ferros.
O tempo passou,
mas a crueldade da sociedade
ainda insiste em fechar os olhos,
como se por trás da pele negra
não existisse um coração que pulsa,
um ser humano que sonha.
Esquecidos ao céu aberto,
em praças, esquinas e vielas,
muitos caminham carregando
as marcas silenciosas da história.
Libertaram correntes,
mas esqueceram de libertar destinos.
Negaram a muitos
o direito simples de existir com dignidade.
Esqueceram que a cor da pele
é apenas tinta da criação,
e não medida de valor.
Transformaram vidas em força bruta,
mãos calejadas servindo ao mundo,
como se fossem apenas braços
e não almas.
Mas eles são pérolas da cor da terra,
filhos do mesmo chão,
raízes profundas de resistência.
E ainda hoje choram
pétalas do coração,
vermelhas como a dor
que atravessa o tempo.
Porque a memória não esquece
os dias de açoite e silêncio.
E nas calçadas, nas favelas, nas vielas,
caem lágrimas invisíveis,
como flores feridas
que o mundo insiste em não ver.
Helaine Machado
Sem medo
Helaine Machado
Quero ser mulher.
Mostrar minhas fragilidades,
andar sozinha por aí
sem medo do que possa acontecer comigo.
Quero me sentir segura
do jeito que escolho me vestir,
não do jeito que alguém queira
e faça de mim sua dona ou seu dono.
Quero ser livre para amar
e, quando perceber que não é
aquilo que eu esperava,
poder dizer adeus
sem medo de que me tirem a vida.
Quero ser mulher:
mesmo sendo criança, com sua inocência;
uma adolescente inquieta, descobrindo-se;
uma jovem realizando sonhos;
uma mulher madura,
comprometida com suas escolhas.
Mesmo com alguma deficiência,
mesmo sem conseguir me comunicar plenamente
por causa da vulnerabilidade que tenho,
quero poder pedir ajuda
sem medo da violência sexual
ou do feminicídio.
Jamais quero ser
apenas mais uma Maria,
ou uma rosa murcha pelos cantos,
recebendo ordens,
submetida como um objeto qualquer.
Quero apenas ser feliz:
bailar pela noite,
ser quem sou
em qualquer lugar da sociedade,
sem medo de ser mulher.
— Helaine Machado
Nas Mãos do Oleiro
Helaine Machado
Nas mãos do Oleiro somos como um vaso na roda, prontos para ser moldados.
Nossa matéria-prima é o barro, e é Jesus quem nos dá forma.
Quando Ele começa a nos moldar, ficamos felizes,
pois deixamos de ser apenas matéria
para nos tornarmos uma obra de valor.
Mas, quando o vaso entra na fornalha,
chega o momento da prova.
É um tempo que dói no corpo e na alma,
um tempo de purificação.
Depois, Deus nos coloca na prateleira.
É o momento de respiro, de misericórdia,
de descanso após o fogo.
Então vem a revisão de Cristo,
para ver se o vaso está perfeito
ou se ainda há algum defeito.
Quando o vaso está pronto,
Ele o leva consigo,
mesmo que o processo tenha causado dores.
Mas, se o vaso apresenta alguma falha,
o Oleiro o quebra
e começa novamente a moldá-lo.
Assim é a nossa vida
nas mãos de Jesus Cristo.
Deixe que Ele te molde,
para que um dia te leve
à vida eterna.
— Helaine Machado
Grande Amor
Helaine Machado
Dizem que, quando temos um grande amor,
se um dia ele resolver sair da nossa vida,
devemos deixá-lo ir.
Se em algum momento ele realmente nos pertenceu,
um dia irá voltar.
Mas, se partir para sempre
e nunca mais retornar,
é sinal de que, na verdade,
nunca foi nosso.
— Helaine Machado
mexa com meu brilho
Helaine Machado
Nunca fui metida, muito menos invejosa.
Luto porque acredito.
Sou simples. Sou apenas alguém na minha caminhada.
Não meça quem sou pelo que valorizo.
Não é nada material que me faz destacar.
O que carrego comigo não posso negar:
minha integridade, minha identidade,
meu sorriso e minha mente.
Eu sou assim:
simples, delicada, amável —
jamais santa.
Não gosto de brigas.
Prefiro viver na paz.
Mas quando mexem com meu brilho,
as coisas não costumam terminar bem.
Relevo muitas vezes,
dou chances quando posso.
Mas não mexa com meu brilho,
pois poderá encontrar
uma fera adormecida.
Helaine Machado
Tributo: 15 anos de Manu (Emanuelle Alves Costa)
Autora: Helaine dos Santos Machado Alves
Menina,
Tudo era promessa
quando o seu nome foi escolhido.
E, de repente, você cresceu,
como uma bela flor em meio ao jardim.
Floresceu.
Veio ao mundo muito tímida,
mas tudo em você se tornou transparente:
sua essência,
sua beleza desabrochando.
Aquela pequena menina
que, suavemente,
diante dos nossos olhos,
transforma-se em uma linda mulher.
Neste momento, menina,
crie asas e voe!
Deixe sempre a janela do coração aberta
para que o novo possa entrar.
Não permita que a escuridão
ou as dúvidas que surgirem pelo caminho
confundam seus passos.
Tente sempre arrancar da vida
o mais belo sorriso.
Em todos os instantes, realize-se.
Jamais coloque seus sonhos na gaveta —
siga em frente.
Aventure-se sempre que for possível.
Suba alto,
o mais alto que puder.
Depois disso,
feche os olhos...
abra-os novamente.
Sem medo,
toque as estrelas.
Conte até quando for necessário,
respire fundo
e dê um salto bem alto.
Salte para o futuro.
Porque essa é a sua estrela.
Você é linda.
Você é corajosa.
Você é extraordinária.
Com amor:
Família Alves Costa
Família dos Santos Alves e amigos
Homenagem: Família Machado Alves
Idealizadora do projeto Tributo 15 anos de Manu:
Helaine dos Santos Machado Alves
DOM DE SER PAI
Todo filho é poema – é uma poesia do ensejo da alma, que reflete a alma dos pais. É uma verdadeira canção alegre ao coração.
Como posso nobre amigo ser só sua amiga se na verdade quero ser sua amante?
Como posso dizer que fico em paz se você me atormenta com seu sorriso?
Como posso nobre amigo ficar imune os seus encantos, se na verdade quero me perder neles?
Como posso olhar seus belos olhos escuros e não contemplá-los?
Como posso só aproximar-me de ti, se o que quero é te abraçar?
Como posso ter você por alguns minutos, se te quero por horas?
Como posso só apertar suas mãos, se na verdade quero com as minhas passear por todo teu corpo?
Como posso nobre amigo suportar o sacrifício de só observar seus lábios, se na verdade quero tê-los entre os meus?
Como posso só ouvir sua voz se na verdade quero ouvir sussurros nos meus?
Como posso ouvir você dizer que seu prazer estar em outro alguém se na verdade quero eu te dar esse prazer?
Como posso chamar-lhe de amigo se sinto algo mais por você?
Como posso segurar pedir-lhe ajuda se na verdade você é meu problema?
Como posso segurar sua mão se a minha gela de paixão?
Como posso nobre amigo entender que você é só meu amigo, se na verdade só consigo pensa em uma coisa: Eu amo você
O narcisismo é tão forte,
Que na vida do ser humano é uma praga.
É tanta exibição,
Tanta foto, pra nada.
Todo mundo quer ser bem visto;
Por que ninguém tira nudes da alma?
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