Luto
O tempo sempre é um grande aliado. Já se vão alguns anos que perdi meu pai, e a vida trata de nos conduzir da melhor forma, trazendo novos significados para a dor. Um deles é a gratidão. Como palestrante e padre, acompanhar o sofrimento de tantas famílias que vivem a dor e a tristeza do luto só é possível graças a essa experiência vivida.
O seu nome é vida e o que está escrito no verso é morte
Este sopro que não tem nome, endereço, data e hora
Deixa a gente louco
Sem saber o que acontecerá em seus desdobramentos
O que será em seus próximos capítulos
O que permanecerá
E o que mesmo antes de ser seu
Vai partir para nunca mais voltar
Sequer ter a chance de sonhar
Faz a gente pensar:
O que eu vou perder desta vez?
Já perdi minha dignidade. Qual perda será a próxima?
[ Quando as palavras já não servem de nada use o silêncio : Aliado ao tempo ele cura todas as mágoas que a vida vai semear no vosso caminho ]
O ato de escrever não foi exatamente um momento de alívio ou cura – nem gosto muito dessa palavra. Mas quando eu escrevia acontecia algo ali que me conectava de novo ao mundo. Ou à minha filha. Hoje eu nem entendo como fiz isso. Eu estava completamente destruído e, mesmo assim, escrevia.
Não deu tempo de levar a Minha Filha para Paris, para as praias no Nordeste, para mergulhar em Bonito. Não deu tempo de tomar com ela um copo de cerveja e uma taça de vinho. (...) Não deu tempo de ela andar ao meu lado no banco da frente do carro. Não deu tempo de parabenizá-la por ter entrando na História, na Arquitetura, na Medicina, por ter decidido não fazer faculdade e ter largado tudo para ir morar em uma comunidade em Piracanga. (...) O que realmente me dá medo é o que não deu tempo para ela pensar em fazer comigo. Os sonhos dela. Ou ainda, o que ela nem chegou a sonhar. Esses se tornaram insondáveis. Um mundo que eu não posso acessar. Fechado no cérebro já desligado dela.
Somos como pétalas ao vento, um sopro e dançamos em sincronia, todas juntas, porém, conforme o poder do sopro acaba, caímos uma a uma, até que o último dançarino termine de se apresentar.
Circunstâncias podem mudar de uma hora para outra, mas a fortaleza que nos impulsiona para dar a volta por cima vem de dentro de nós.
A vida e seus limites, um ponto em uma reta, nos curvamos diante da saudade e é isto que nos torna humanos, amar além da inteligência.
" Viver é...
um constante ressignificar
de lutas e lutos com alguns
momentos de alegria renovando as forças e a fé para recomeçar
a cada dia."
...E quando o amor estiver quase no fim,
Vou pegar o que sobrou
E distribuir pra você
Em cada pequeno gesto
A cada simples atitude...
Amor!
Vai ser uma overdose!
E quando acabar enfim
Só lembranças boas...
De amor...
Sobrarão.
ÉRIDA
Sem chão nem Fé, me vi flagelado
bem apegado a um Amor tinhoso.
Devaneando, morto, ao Sol do Descaso,
vi o mundo ruir. Abismo vultoso.
O bailar de Érida, Corpo equilibrado,
vinha mostrar seu Passo virtuoso.
Era o Baile corrente, aclamado,
tecido nos Saltos sem pouso.
E veio o Sonho: e foi desperdiçado!
E veio a Morte: o luto renovado,
o espinho encravado em meu pé!
Tudo indicava o Sol! Fiquei embaixo,
na Prisão que estive e em que me acho,
a Sonhar e a bailar, sem chão nem Fé!
Os mortos não morrem. A morte é algo que as pessoas vivem sofre, uma vez que os mortos se foram daqui. Os que partiram não sabem nada sobre a dor, a saudade ou o inevitável. Eles deixam isso para aqueles que sobrevivem.
Me pergunto porquê as pessoas de bom coração se vão mais cedo. Mas é fácil de entender quando se sabe que esse mundo não as mereciam.
O Lavar
Escrevo ainda com gotas de água na pele, resultado da breve chuva que me atingiu no caminho da padaria/verdurão até em casa.
As sensações que me invadiram nesse momento a minha adolescência tem uma memória mais vívida, porém a repentina plenitude pareceu ser a leveza necessária para ausentar o luto, a ansiedade dos últimos dias, que é o assunto desse pequeno texto.
A raridade das coisas nos coloca sem saber como processar. Dediquei minhas palavras sobre o período da quarentena e sobre perder há alguns dias atrás para um projeto literário coletivo e me faltou processar como nossa sociedade ocidental, com raras excessões culturais, não sabe lidar com perda, com morte. Prova são as inúmeras obras artísticas das diversas manifestações que se dedicam em mostrar o quanto é péssimo.
Deixar ir significa que vamos ficar e a ideia em si parece solitária demais. Não temos como hábito guardar as emoções e memórias das pessoas quando ainda estamos com elas e revisitar de tempos em tempos. De repente não é possível mais construir e vem o desespero de procurar o que ficou nos baús da mente.
Agora irei secar essa água que veio de cima, talvez não a mais limpa, mas permitiu em meio ao caos o egoísmo de dizer que me senti bem, viva para as possibilidades que buscarei construir. Obrigada pela força renovada pois a luta continua não só por mim, mas por todos nós.
Despedidas é um efeito cômico da vida,
Vem da sabedoria, da tristeza,
Que todos vamos para debaixo da areia.
Vem da inocência, da tristeza,
Que vamos ficar juntos a vida inteira.
De promessas quebradas,
Mentiras esparrafadas...
De memórias tristes,
E momentos felizes...
Vem a majestosa realidade dizer que agora é tarde.
A morte não é algo que você supera. É o rasgo que divide a vida em um abismo, com antes e depois, e tudo o que você pode fazer é tentar existir da melhor maneira possível no depois.
Mais um ciclo de vida se encerra, uma vida de altos e baixos, uma vida tão comum ao acaso, uma vida que deu vidas, uma vida que sarou corações, que conquistou multidões, que buscou felicidade como tantas outras vidas, o coração que pulsava nesse peito era de fato só mais uma vida, mas para quem ousou conhecê-lo, era tudo que importava.
Perder uma Mãe é levar uma tremenda paulada e lembrar dessa dor a vida inteira. As vezes nosso egoísmo não aceita essa partida. A tarefa foi cumprida e é chegada hora de voltar para o lar lá de cima.
