Luis Fernando Verissimo poemas Sonhos
O Sofrimento de um povo
Trabalhar o dia inteiro,
Ser assaltado no trânsito
E ao entrar no mercado,
Ser assaltado de novo.
Me pergunto quando isso vai acabar?
Quando finalmente chega em casa,
A televisão mostra só maravilhas,
Enquanto uns não tem o comer
E outros não tem onde morar.
Me pergunto quando isso vai acabar?
É fácil dizer que está tudo bem,
Quando se nada em dinheiro,
Enquanto o povo sofre,
Enquanto ralamos o dia inteiro.
Me pergunto quando isso vai acabar?
Milagre é o ver um pai de família,
Ganhando um salário pequeno
Que cria seus filhos,
Com tão pouco dinheiro.
Me pergunto quando isso vai acabar?
Lágrimas na Chuva
Nos dois juntos é como o amanhecer do sol,
Quente, bonito e seu brilho é intenso,
Quando vejo o sol nascer eu lembro de nós,
Lembro de você.
Seu sorriso sempre iluminava tudo,
Tornava meu mundo mais fácil, mais seguro.
Na tristeza o pilar que me sustentava,
Na guerra, a pessoa por quem lutava.
Fui um tudo e hoje sou o nada,
Foi meu sol, hoje é minha madrugada.
Andávamos juntos,
hoje estou só na estrada.
A chuva leva minhas lágrimas de solidão,
Um alguém que foi especial
Que já morou em meu coração.
Nosso amor foi embora,
Por isso, tenho medo
da chuva lá fora
Esta noite eu sonhei
Sonhei com a pétala de uma rosa
Com sua delicadeza e perfeição
Esta noite eu sonhei com você
Sonhei com sua forma graciosa
Com sua luz e seu brilho
Estávamos juntos
E isso era perfeito
Estávamos de frente para o futuro
E isso era magnífico
Estávamos de frete para o infinito, que nos aguarda
Desconheço seu além
Mas se você estiver comigo
Seguirei em frente, portanto segure minha mão, que não a soltarei...
As vezes travo uma batalha silenciosa no meu coração, onde a realidade do mundo tenta destruir a bondade que ainda existe em mim.
Onde esculpir a alma já não é mais uma opção, pois a vida não te deixa escolhas pra isso.
Onde nesse conflito somos iludido a desconfiar de nossa própria fé, que nos faz duvidar se bondade é um defeito ou uma qualidade.
Que leva os desesperados a desacreditar no romantismo que a no mundo, onde a maior tragédia será que enquanto alguns amam outros amaram apenas a ideia de amar .
Batalhadora do meu ser,
Quero um dia apenas te ver,
Num dia belo radiante,
Com sua amizade sigo adiante,
Você é aquela que aquebrantou,
A máscara de minha ilusão,
E me deu motivos para sonhar,
Apenas com você, bela dama, quero estar,
Você é a forma exemplar de amizade contínua
Em meu diário você atua como uma noite,
entre luz e escuridão você é minha estrela.
Mesmo de tão longe ainda posso te admirar...
Uma artista. Uma alma.
Uma via dupla.
Um café.
Duas escolhas, uma consequência.
Um jardim.
Um quintal.
Dois ir. Um ficar.
Caminho de praia, caminho de mar, vento de ser, sentir de ficar.
Perguntas e respostas feitas em cima da mesa.
Palavras que voam por um teclado.
O que é vida se não para alguns, alguns dessagrados.
Uma via dupla, uma escolha, uma escola.
O que é vida para eu se não um proposito de cuidar de alguém.
O olhar para o alto, o desatento, o palhaço, o riso.
Um jardim feito de lembranças, onde as flores soltam perfume de esperança.
Um quintal onde meus pensamentos descansam, ao lado do deserto onde deito e penso.
Se soubessem o tanto que ainda há de crescer não diriam que o chorro não importa.
Frases que montam o texto que habita um coração apaixonado pelo viver da morte do ser findado.
Este que termina aqui.
O cego e a guitarra
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
Do livro "Fernando Pessoa - Obra poética - Volume único", Cia. José Aguilar Editora, Rio de Janeiro (RJ), 1972, págs 542/543. (Fonte: Projeto Releituras)
Abat-Jour
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.
Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
(Extraído de Cancioneiro – PDF Ciberfil Literatura Digital - Página 7)
Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida...
(Fonte: PESSOA, Fernando. In “Correspondência (1905-1922)”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.150. / Fonte: Templo Cultural Delfos)
"Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações". (O guardador de rebanhos)
Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?
( Alberto Caeiro [Heterônimo de Fernando Pessoa])
Cada dia é tão só-um!
Dura tão pouco e arde tanto!
Quanto mais de mim me espanto
Mais o tédio □
(escrito em 17.5.1913), In Poesia)
"Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero”.
( Bernardo Soares [Semi-heterônimo de Fernando Pessoa],no Livro do Desassossego. (Org.) de Richard Zenith - Assírio E Alvim, 2008.)
"A única atitude intelectual digna de uma criatura superior é a de uma calma e fria compaixão por tudo quanto não é ele próprio. Não que essa atitude tenha o mínimo cunho de justa e verdadeira; mas é tão invejável que é preciso tê-la”.
( Bernardo Soares [Semi-heterônimo de Fernando Pessoa],no Livro do Desassossego. (Org.) de Richard Zenith - Assírio E Alvim, 2008.)
"A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação. Nunca pretendi ser senão um sonhador”.
( Bernardo Soares [Semi-heterônimo de Fernando Pessoa].)
Tu chegastes com tal intento
Rompendo as fechaduras de relento
Que trancam o vácuo, espaço vazio
Por onde irradio lembranças do meu lamento
Ao destrancar sem hesitar
O vazio com o qual permaneci tanto tempo
Por ti, tão tolo, me apaixonei isento
Revivendo em mim nuances que um dia esqueci
E quando tornas a desaparecer
Faz-me aflito, prestes a perecer
Ainda que não tardas a voltar
E prometas que a meus braços sempre retornará
Ansiedade que corrói o receio de perder
Mais uma vez alguém que me faz viver
Todas as volúpias de um bel prazer
Do inteiro encanto que um dia me privei
Por perder você
"Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros
com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...
Releio?Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro.
Já não compreendo nada”...
(Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
“Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso”.
( in "Autobiografia sem Factos". Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, p. 128.)
"O pensamento colectivo é estupído porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo”.
(trecho do livro em PDF: Do livro do Desassossego – Bermardo Reis)
Breve o dia, breve o ano, breve tudo
“Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos”.
(Trecho - Ricardo Reis [Heterônimo de Fernando Pessoa], (escrito em 27.9.1931))
