José Saramago

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José Saramago (1922 - 2010) foi um renomado roteirista, dramaturgo, poeta e escritor português. Em 1988, venceu o Nobel da Literatura.

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

José Saramago
O Conto da Ilha Desconhecida

Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

José Saramago
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Editorial Caminho. 1995

Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Editorial Caminho. 1995

Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

José Saramago
A segunda vida de Francisco de Assis

Nota: Fala do personagem Clara na peça de teatro "A segunda vida de Francisco de Assis" (1987) de José Saramago

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Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.

José Saramago
O homem duplicado. Lisboa: Editorial Caminho. 2002

De que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos.

José Saramago

Nota: Trecho adaptado do livro "A Jangada de Pedra", de José Saramago.

Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago
Os Poemas Possíveis. Lisboa: Ed. Caminho. 1999

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

José Saramago

Nota: Epígrafe do "Ensaio sobre a cegueira", citando o "Livro dos Conselhos" de El-Rei D. Duarte.

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Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.

José Saramago
Ensaio Sobre a Cegueira

O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto.

José Saramago
Todos os nomes. Lisboa: Editorial Caminho. 1997

Para temperamentos nostálgicos, em geral quebradiços, pouco flexíveis, viver sozinho é um duríssimo castigo.

José Saramago
O homem duplicado. Lisboa: Editorial Caminho. 2002

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
Os Poemas Possíveis, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª ediçã

O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.

José Saramago
O Evangelho segundo Jesus Cristo. Lisboa: Editorial Caminho. 1992

Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exatamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.

Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.

José Saramago
Ensaio sobre a lucidez. Lisboa: Editorial Caminho. 2004

Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo.