Jardim das Borboletas Vinicius de Moraes
Amor foi feito para amar
Perdão foi feito pra se dar
Não semeie pra colher depois, o tal ressentimento.
A fruição desencanta muitos bens e prazeres sensuais, que a imaginação, os desejos e as esperanças figuravam encantadores.
A Uma Que Lhe Chamou “Pica-flor”
Se Pica-flor me chamais
Pica-flor aceito ser mas resta agora saber
se no nome que me dais
meteis a flor que guardais
no passarinho melhor.
Se me dais este favor
sendo só de mim o Pica
e o mais vosso, claro fica
que fico então Pica-flor.
Sozinha não posso mudar o mundo, mas posso lançar uma pedra sobre as águas e fazer muitas ondulações.
Há na cultura mundial de hoje toda uma mitologia, toda uma idealização das revoluções, como se não fossem acontecimentos separados, mas sim etapas de uma caminhada em direção à liberdade crescente. Pode-se discernir, de fato, um sentido geral e unitário na sucessão de revoluções — mas ele não aponta na direção da liberdade crescente e sim no do crescimento do poder, no do aumento da distância entre o poderoso e o homem comum.
O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. O que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou tempo, ficar longe, ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro – esse não é médico, é negociante de negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros os gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda, para outro, o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida.
E sou já do que fui tão diferente
Que, quando por meu nome alguém me chama,
Pasmo, quando conheço
Que ainda comigo mesmo me pareço.
Dedicatória:
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.
Canto De Xangô
Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só amor em mim
Tudo é só amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô
Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar
Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô meu Senhor!
Mas me faça sofrer
Mas me faça morrer de amor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô Agodô!
VOCÊ E EU
Podem me chamar e me pedir e me rogar
E podem mesmo falar mal
Ficar de mal que não faz mal
Podem preparar milhões de festas ao luar
Que eu não vou ir, melhor nem pedir
Eu não vou ir, não quero ir
E também podem me intrigar
Até sorrir, até chorar
E podem mesmo imaginar o que melhor lhes parecer
Podem espalhar que eu estou cansado de viver
E que é uma pena para quem me conheceu
Eu sou mais você e eu
Berimbau
Quem é homem de bem, não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
E assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom, não cai
E se um dia ele cai, cai bem!
Capoeira me mandou
Dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou
Vai ter briga de amor
Tristeza, camará.
Não vou continuar a caçar e correr atrás das borboletas como todos os outros. Mas vou cuidar do meu jardim para que elas venham até mim e queiram ficar. Tenho certeza que fazendo isso eu não vou achar quem eu tanto procuro, mas vou achar quem estava me procurando.
Ela trouxe de volta a minha felicidade quando sorriu para mim e minhas borboletas do estômago nunca mais quiseram pararam de voar.
vejo pássaros
vejo flores
vejo borboletas
vejo nuvens
vejo o céu
vejo o por do sol
vejo o mar
vejo as matas
vejo as cachoeiras
vejo o amor
vejo as belezas de Deus
e também
vejo morte
vejo perseguição
vejo suicídios
vejo violência
vejo terrorismo
vejo imprudência
vejo egoísmo
vejo impaciência
vejo sensacionalismo
vejo intolerância
vejo sofismo
vejo tudo e nada
vejo além da estrada
vejo o nosso carma
vejo o fim da linha
vejo a luz se apagar
vejo a tristeza no olhar
vejo coracao sem amar
vejo ódio tomando conta do lugar
vejo a chacina de sentimentos
de almas e corpos violentos
vejo o inacreditável acontecendo
vejo a humanidade se desfazendo
vejo a hipocrisia se apoderando
do fraco pensamento
vejo lágrimas rolando
vejo coracoes sangrando
vejo cada um em sua cova
que Deus nos dê
a Sua infinita misericórdia!!!
"" Claro que a noite escura me fascina
suas tranças lembram meninas
borboletas na beira da estrada
e seus faróis
claro que a lua me diz amores
foram tantos, relevantes
mas não navego sem bussola
nem mesmo rumo ao sol
claro, tudo é incerto de manhã
até você encontrar uma xícara de café
e entender que açúcar adoça
mas também faz mal..
O TEMPO E AS BORBOLETAS
A distância te leva de mim
O tempo da distância tem asas
Mas não como as borboletas
Que retornam após dormir em seus casulos:
Outras borboletas, irreconhecíveis!
A distância nunca será apenas um adormecer
nos casulos, é sonhar com outras asas
onde possam pousar juntas.
IGUAIS ÀS BORBOLETAS
Nada melhor que sermos
iguais às borboletas,
é sermos os casulos,
de onde nascerão a juventude
das borboletas velhas
a cumprirem o seu cículo.
Quando se cansar de voar,
poder adormecer e sonhar,
e, adormecendo poder sonhar
que em breve voltará a dar
vôos rasantes.
