Ja Chorei de tanto Rir
Hoje o mundo está um verdadeiro assombro, e é por esse motivo que os ovos das galinhas já nascem chocados.
Boas e más notícias são como grãos de pólen: partem das flores da aldeia e, quando se vê, já se espalharam pela colmeia inteira.
Quem dá um grande presente não acha gratidão, pois para o presenteado já é um fardo aceitar.
A “experiência homem” fracassou? Já havia fracassado com Adão.
Quando, liquidados os motivos de revolta, já não sabemos contra o que nos insurgir, somos tomados de tal vertigem que daríamos a vida em troca de um preconceito.
O dinheiro, depois de certa quantia, parece deixar de ser estimulante sexual. Já o poder funciona como um Viagra sem limite de idade.
Diplomacia: arte milenar de continuar falando de paz quando a guerra já devastou tudo e só resta fazer as contas dos estragos, das perdas, das mortes e das terras que serão roubadas pelo vencedor.
Infelicidade Humana
Como a projeção astral de um ser onipotente, a velha filosofia grega já nos dizia: somos seres distintos, egoístas ao ponto de criar deuses à nossa própria imagem. Tudo na tentativa de buscar sentido nesta terra enferma, que nos enlouquece e nos faz delirar. Delírios que nos fazem matar.
Guerras e mais guerras a criar; distúrbios e sangue ao chão. O sangue manchando as nossas mãos, o choro e as lágrimas derramadas pelos nossos antepassados. Por isso a existência dos deuses se faz necessária: somos tão cegos a ponto de nós mesmos nos cegarmos, numa busca desesperada para aplacar a nossa solidão.
O vazio que corrói e aflige o coração. A cura dos enfermos, a cura da alma... afinal, onde está?
Nossa maior dor aguarda à espreita, na nossa própria solidão. Desesperados, que seja a morte a nos amparar. Crescemos, vivemos, perecemos e à terra voltaremos. Com a consciência enfim extinta, restarão apenas as marcas de nós que por aqui deixarmos.
Há vários de mim sobre a mesa em que me sento: o tolo, o velho, o sábio, a criança e os delírios. Não sabemos quanto tempo passaremos com cada um de nós mesmos ao longo da vida que iremos trilhar. Diante desta mesa, só não se sabe o tempo que me restará.
O Pintor e a Obra Imperfeita
Eis aqui o pintor. A tela, antes alva, já não o é mais...
A vida a manchou por inteira.
Um caos de pinceladas, cores que estremecem o coração:
Leves, confusas, fortes, terrivelmente transcendentais.
No fim, o traço certo jamais ocorreu.
O pintor buscava o branco absoluto para, enfim, pintar a sua dor,
Buscava o belo...
Apenas o belo.
Mas, ao observar as marcas do seu próprio desespero,
Ele a encontrou: uma obra-prima.
E, diante do caos que ele mesmo criou,
O pintor finalmente se encantou.
Sempre me encontro comigo mesmo nas coisas que eu já escrevi. Como pude ser tão velho e sábio anteriormente e, agora, tão jovem e curioso? Todos esses eus não dependem do tempo, estamos todos aqui.
Droga
A minha casa eu conheço há tempos. E ela sempre fica maior. Já sonhei sonhos de álcool, mas ao primeiro gole eu vi que não era nada disso, era algo deprimente até na alegria forçada. Como se eu fosse uma múmia química ganhando a consciência da minha pequenez e do enjoo misturado com a tontura. Parei por aí e deixei as drogas antes de começar a usá-las. A minha droga é a imaginação e a sensibilidade. Os sonhos que me vêm da massa de árvores verdes acinzentadas. Das manchas do teto e daquele facho de luz quando estou na cama e olho para cima e vejo que é Deus.
Sim, Deus vem toda a noite por sobre a minha cama e toma a forma de um triângulo de luz amarela, silencioso e imutável. É um raio de luz, e eu sei que é Deus. Poderia ser qualquer outra coisa, mas quando eu levanto os olhos ele se revela e fico a pensar e admirar a sua imperfeição. As noites de insônia são muito estimulantes. Eu viajo e mantenho contato telepático com a pessoa ao lado. Uma vez eu pensei que dormia ao lado de um demônio, e eu tinha razão. Que saudades do súcubo!
Aparentemente não há saída. Tudo o que é rebelde, que contraria, já está previsto e acaba produzindo o contrário do que se propunha. Assim, os conservadores dominam a tudo e a todos. Mas isso não é verdade, esta engenhoca humana morreria se não fossem por nós, os criadores de problemas, os que propõem o impossível e não querem saber de nenhuma solução. Antes disso, quanto mais atrapalharmos, mais agitamos as formigas laboriosas de coisa nenhuma. Viver assim é uma doçura, ao incomodarmos criamos uma alergia, um mal estar que vai gerar frutos que nunca veremos. Somos os semeadores da morte do senso comum.
Embora eu seja senhor da minha vida, há alguém que está mais longe, que já chegou aonde eu só desconfio. Seguindo por esse caminho do desconhecimento, nem sei se chegarei há algum lugar, só vendo.
O existir pressupõe o não existir. Tudo o que existe já não existiu e tudo o que não existe já
existiu.
A inveja é positiva: é reconhecer algo de bom no outro. Já o ciúme é negativo: querer algo só pra mim.
Quando o mal inveja o bem, há o amor.
Atualmente, é crescente o número de pessoas que desconsideram a presença umas das outras; já não se cumprimentam e raramente se olham, parecendo ignorar totalmente o outro. É por essas razões que me interrogo se estamos realmente experimentando uma evolução ou uma involução na civilização.
