Isso Ja Nao me Pertence mais
Enquanto o Mercado dos Congoleses é mais espaçoso, o da Chapada tem um tamanho fixo e os seus próprios vendedores.
Angola usa o português [...] de modo a unir um país com mais de dez grupos etnolinguísticos diferentes após a independência.
O caminho mais viável para reduzir a prostituição é aceitar que a falha é de todos nós, em vez de apontar várias falhas aos outros.
O futuro está cada vez mais parecido com aquela casinha do lado da praça, na cidadezinha que era tudo.
Eu olho para o espelho e o que eu vejo é só uma imagem. Eu olho para as minhas pernas, mais uma imagem projetada. Os objetos são a projeção dos meus olhos.
Sonhador
Os meus sonhos valem mais que qualquer coisa que eu tenha vivido. A imaginação cria um mundo mais completo do que aquele que eu nunca vou conhecer. A minha arte sou eu, vivo. A arte de me construir é maior do que se chama de realidade.
Combatente
A Maya quer me enganar. Por que permite que eu saiba que ela existe? Será mais um dos seus truques? Somos pequenos bonecos diante das ilusões. Para mim a realidade foi construir ilusões. Por isso eu me importo com o pote cheio de canetas e presto atenção em cada taco do parquê. Entre os objetos existe algo. Não é o ar. Existe uma ligação que faz com que brilhem na luz amarela. Eu posso tocá-los com os olhos, posso cheirar uma história. A medida em que eu vou escrevendo os meus órgãos internos se agitam, as vozes agridem os meus ouvidos, a sede repuxa os meus nervos. Alguém que morreu há algum tempo teima em aparecer. Sou eu que estou morto porque vivo de lembranças. E enquanto eu estou aqui teimo em perceber o mundo profundamente, dum jeito que cansa, me faz um soldado, do batalhão da mente, do exército dos insatisfeitos.
A memória é as emoções. Quanto mais repetimos mais chance temos de encontrar uma resposta emocional, mais chance temos de lembrarmo-nos. Assim, com o tempo, tudo será lembrado.
Algumas pessoas permanecem em relacionamentos infelizes porque têm mais medo da solidão do que da própria infelicidade.
@gmajorlima
O refúgio é, por vezes, a mais sublime morada da alma: nele, o silêncio depura os excessos, a distância reorganiza os pensamentos e a solitude restitui aquilo que o tumulto cotidiano nos subtrai. O grande paradoxo, contudo, reside no fato de que até o abrigo pode perder sua nobreza quando deixa de ser escolha consciente e se converte em permanência fútil. Afinal, refugiar-se é sabedoria quando nos reconstrói; torna-se vazio quando apenas nos distancia daquilo que, inevitavelmente, precisamos enfrentar.
Há uma estranha ironia na inteligência humana: quanto mais aprendemos, menos confortáveis ficamos com a palavra certeza.
Talvez porque o conhecimento verdadeiro não nos coloque no alto de uma montanha. Ao contrário: ele nos leva até a beira de um oceano.
E, diante do oceano, até o homem mais sábio percebe o tamanho de sua pequena embarcação.
Você já reparou que a verdadeira inteligência quase sempre vem acompanhada de humildade?
Isso não é coincidência.
Quem sabe pouco pode imaginar que sabe tudo, porque ainda não caminhou o suficiente para descobrir a imensidão daquilo que ignora. É como alguém que conhece apenas uma rua e acredita compreender toda a cidade.
Mas quem estuda, quem lê, quem observa, quem duvida, quem atravessa ideias diferentes das suas começa a perceber algo desconcertante:
cada resposta abre novas perguntas.
Aprender é acender uma vela dentro de um quarto escuro.
No começo, enxergamos apenas aquilo que está perto da chama e ficamos maravilhados. Depois, quando nossos olhos se acostumam à luz, percebemos que o quarto é muito maior do que imaginávamos.
E então nasce a humildade.
Não a humildade de quem se diminui.
Mas a humildade de quem compreendeu a grandeza do desconhecido.
Talvez por isso Sócrates tenha atravessado tantos séculos associado à ideia de reconhecer a própria ignorância. A sabedoria começa quando o homem deixa de usar o conhecimento como um trono e passa a utilizá-lo como uma janela.
O arrogante transforma aquilo que sabe em muro.
O sábio transforma aquilo que sabe em porta.
Um diz:
— Eu sei.
O outro pergunta:
— O que ainda não percebi?
E talvez essa pequena diferença explique muitas das grandes tragédias humanas.
Porque pessoas excessivamente certas de si mesmas raramente escutam.
Quando alguém acredita possuir toda a verdade, já não precisa do outro. Não precisa ouvir, reconsiderar, corrigir-se ou admitir que talvez exista alguma razão do outro lado da mesa.
A certeza absoluta pode ser confortável.
Mas também pode ser uma prisão.
A inteligência verdadeira possui uma coragem diferente: a coragem de mudar de ideia.
Há uma grandeza silenciosa em alguém capaz de dizer:
“Eu estava errado.”
Poucas frases exigem tanta inteligência e tanta humildade ao mesmo tempo.
Porque mudar de opinião diante de uma evidência melhor não significa perder uma batalha. Significa escolher a verdade em vez do próprio orgulho.
Talvez seja esse um dos sinais mais bonitos da maturidade intelectual: não precisar vencer todas as discussões.
Há pessoas que entram numa conversa procurando derrotar alguém.
Outras entram procurando descobrir alguma coisa.
As primeiras colecionam adversários.
As segundas colecionam perguntas.
E perguntas, quando feitas com sinceridade, são uma das formas mais bonitas de humildade.
O universo é grande demais.
A história é longa demais.
A alma humana é misteriosa demais.
A ciência ainda possui perguntas demais.
A filosofia ainda carrega dúvidas demais.
E a própria vida, depois de milhares de anos de civilização, continua nos surpreendendo todas as manhãs.
Talvez sejamos todos estudantes caminhando por uma biblioteca infinita, segurando apenas alguns livros nas mãos.
Alguns, depois de lerem duas páginas, começam a falar como donos da biblioteca.
Outros passam a vida inteira lendo e, justamente por isso, caminham cada vez mais devagar entre as estantes.
Eles sabem que existem corredores que jamais visitarão.
Livros que jamais conseguirão abrir.
Perguntas para as quais talvez nunca encontrem resposta.
E isso não os diminui.
Isso os torna sábios.
Porque a verdadeira inteligência não é saber tudo.
É perceber a vastidão daquilo que ainda podemos aprender.
No fim, talvez o homem mais inteligente não seja aquele que termina uma conversa dizendo:
“Eu tenho certeza.”
Talvez seja aquele que ainda consegue voltar para casa levando consigo uma pergunta:
“E se eu estiver errado?”
Porque enquanto houver em nós a coragem dessa pergunta, ainda haverá espaço para aprender.
E enquanto houver espaço para aprender, haverá humildade.
Talvez a sabedoria comece exatamente aí:
quando o conhecimento deixa de nos fazer sentir maiores do que os outros e começa a nos fazer perceber o quanto ainda somos pequenos diante do mistério do mundo.
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