Irmao Nao Va embora

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Não confunda companhia com conexão. Às vezes, estar sozinho é menos doloroso do que estar ao lado de quem não valoriza você.


@gmajorlima

Que falem, que reclamem, que provoquem. Eu continuo seguindo, porque minha felicidade não precisa da aprovação de ninguém


@gmajordeus

Enquanto não temos, imaginamos que aquilo nos fará felizes. Quando temos, descobrimos que felicidade não era aquilo.


@gmajordeus

A verdadeira riqueza não está naquilo que você exibe, mas naquilo que você não precisa exibir.


@gmajorlima

Trabalhar com confiança, respeito e empatia faz diferença em qualquer profissão.


Você não precisa gostar de todo mundo ou concordar com todas as pessoas. Mas pode escolher ser educado, ajudar quando puder e tratar o próximo com respeito.


Às vezes, uma simples atitude de gentileza pode aliviar a pressão de alguém, evitar um erro ou devolver a confiança que estava faltando.


No trabalho em equipe, não precisamos ser melhores que os outros. Precisamos ser melhores juntos.


Confiança fortalece. Respeito aproxima. Empatia transforma.


@Gmajordeus

E se algum dia perguntares
o que vejo quando olho para ti,
não direi apenas beleza.
Direi:
vejo a mulher que desejo,
a mulher que admiro,
a mulher que quero beijar,
a mulher que quero abraçar,
a mulher que quero proteger sem aprisionar,
e, acima de tudo,
a mulher que meu coração escolheu
mesmo sabendo
que amar é sempre
uma maneira lenta
de aprender a sofrer.

“O Infinito em Fragmentos”




Não quero ser um. Quero ser todos. Quero sentir como o místico sente Deus, como o pagão sente a carne, como o engenheiro sente a precisão dos números. Quero contradizer-me, porque na contradição habita a totalidade. Ser coerente é ser parcial. É escolher uma porta e fechar todas as outras. Eu quero atravessar todas as portas simultaneamente, mesmo que para isso precise me estilhaçar em mil pedaços.

Inventei-me vários. Não por loucura, mas por necessidade metafísica. Como poderia um só homem conter o universo? Como poderia uma só voz cantar todas as canções possíveis? Então fragmentei-me. Fiz de minha ausência de centro a minha obra-prima. Onde outros construíram identidades sólidas como fortalezas, eu construí um arquipélago de ilhas que nunca se tocam mas pertencem ao mesmo oceano.

Há aquele que nega o pensamento e vê apenas o que existe. Há o que exalta os deuses antigos e a beleza sensorial do mundo. Há o engenheiro das palavras, frio e preciso. Há o que escreve mensagens cifradas sobre ocultismo e hermetismo. E há eu, que não sou nenhum deles e sou todos ao mesmo tempo, o maestro invisível de uma orquestra onde cada músico toca uma partitura diferente.

Sentir tudo de todas as maneiras. Não é dispersão. É ambição máxima. É querer ser o universo experimentando a si mesmo. Cada emoção possível, cada pensamento concebível, cada filosofia imaginável - tudo isso precisa ser vivido, sentido, expresso. Não posso me limitar a ser católico ou ateu, monárquico ou republicano, clássico ou moderno. Preciso ser todos esses e seus opostos, porque a verdade não está em nenhum deles mas na soma impossível de todos.

Os outros escrevem o que sentem. Eu sinto o que escrevo. Ou melhor: invento quem sinta o que preciso expressar. É uma fraude? Talvez. Mas é a fraude mais honesta que existe. Porque reconhece que toda identidade é ficção, todo “eu” é personagem, toda coerência é máscara. Eu apenas tive a coragem de admitir que sou teatro, e de fazer desse teatro a minha verdade.

Não tenho biografia. Tenho bibliografias. Não tenho psicologia. Tenho dramaturgia. Minha vida não está nos fatos que vivi mas nas vidas que criei. Enquanto outros buscam encontrar-se, eu me perdi propositadamente em todas as direções possíveis. E nessa perda encontrei algo maior que qualquer identidade individual poderia oferecer.

A unidade do ser é uma prisão confortável. “Conheça-te a ti mesmo”, diziam os gregos. Mas e se não houver um “ti mesmo” para conhecer? E se formos apenas potência pura, possibilidade infinita que se trai cada vez que escolhe uma forma? Preferi não escolher. Ou melhor: escolhi todas as escolhas, habitei todas as possibilidades.

Minha ausência de identidade fixa não é falha. É método. É filosofia encarnada. É a prova viva de que podemos ser mais que nos permitem ser. Que podemos explodir os limites do eu e nos espalhar por todos os eus possíveis. Que podemos fazer da multiplicidade não uma doença, mas uma arte.

Serei lembrado? Talvez. Mas por quem? Pelo sensacionista? Pelo heteronímico? Pelo ortónimo melancólico? Por todos e por nenhum. Porque minha obra não é o que escrevi. Minha obra sou eu - ou melhor, a ausência de mim transformada em constelação de presenças.

Sentir tudo de todas as maneiras. Viver todas as vidas. Morrer todas as mortes. Ser nenhum para poder ser todos.

Esta é a única identidade que aceito: a de não ter nenhuma.

E assim me tornei múltiplo, para que na multiplicidade coubesse o universo inteiro.

Pessoa: o nome perfeito para quem escolheu ser todas as pessoas possíveis.

O amor que não se conta

Há amores que não se anunciam.
Não porque sejam pequenos, mas porque são grandes demais para o barulho do mundo.
Vivem no silêncio confortável do peito, onde ninguém entra sem permissão.

É um amor que se reconhece no instante do encontro.
Quando os olhos veem a amada, o dia muda de tom.
O tempo desacelera.
O coração que fingia normalidade entrega-se sorrindo.

Esse amor é feliz em detalhes.
No jeito como ela caminha,
na curva distraída do riso,
na voz que chega antes da presença.
E quando a noite vem, eu sonho.
Um sonho tão profundo que acordo com o cheiro dela no ar, como se o sonho tivesse atravessado a realidade.

Ninguém sabe.
E talvez seja por isso que eu seja tão inteiro.

Quando estou longe, a saudade não pede licença.
Ela se instala no peito como uma casa antiga,
abre as janelas da memória
e deixa o vento passar por tudo o que foi sentido.

É uma saudade grande, quase física.
Daquelas que apertam o coração sem machucar,
porque doem de amor, não de ausência.

Esse amor não precisa de testemunhas.
Ele existe porque vive.
Porque pulsa.
Porque transforma dias comuns em eternidade breve.

É um amor que não se conta a ninguém.
Mas que conta tudo para quem sente.

O Que Te Faz Ser Você?

O que te faz ser você?
Não estou perguntando o seu nome.
Seu nome foi escolhido por alguém antes mesmo que você pudesse escolher qualquer coisa.

Também não estou perguntando sua profissão, sua idade, onde nasceu ou aquilo que conseguiu conquistar.
Estou perguntando algo mais difícil:
quando retiramos tudo aquilo que pode ser retirado de uma pessoa, o que permanece?
Talvez você responda:
“Minhas lembranças.”

Pode ser.

Somos profundamente feitos de memória.
Existe em nós a criança que fomos, mesmo quando ninguém mais consegue enxergá-la.
Ela ainda aparece em alguns medos inexplicáveis, em certas alegrias repentinas,
no cheiro de alguma comida, numa música antiga, numa fotografia esquecida dentro de uma gaveta.
O tempo envelhece o corpo, mas existem lugares dentro de nós onde o relógio nunca conseguiu entrar.

Talvez você seja também as pessoas que amou.

Porque ninguém passa verdadeiramente pela nossa vida sem deixar alguma coisa.
Há pessoas que nos ensinaram a amar.
Outras nos ensinaram a desconfiar.
Algumas nos mostraram a beleza da permanência.
Outras nos ensinaram, dolorosamente, o significado da ausência.
E assim vamos sendo construídos.
Um pouco pelas mãos que nos acariciaram.
Um pouco pelas mãos que nos feriram.
Um pouco pelos abraços que recebemos.
E muito pelos abraços que esperamos e nunca chegaram.

Mas ainda não é suficiente.

Porque, se fôssemos apenas aquilo que aconteceu conosco, seríamos prisioneiros da nossa história.

E não somos.

Existe alguma coisa extraordinária no ser humano:

podemos escolher o que fazer com aquilo que fizeram de nós.

Talvez seja aí que comece verdadeiramente aquilo que somos.

Você não escolheu todas as suas feridas.

Mas escolhe, todos os dias, se permitirá que elas firam outras pessoas.

Não escolheu todas as despedidas.

Mas pode escolher continuar amando mesmo depois de conhecer a dor da ausência.

Não escolheu todas as quedas.

Mas pode decidir se permanecerá no chão ou se transformará a cicatriz em aprendizado.

Por isso não somos apenas consequência.

Também somos escolha.

Somos aquilo que aconteceu conosco e aquilo que decidimos fazer depois.

Somos a resposta que demos à vida.

Talvez você seja suas contradições também.

A coragem que convive com o medo.

A fé que algumas vezes conversa com a dúvida.

A força que certas noites precisa chorar escondida.

A esperança que já pensou em desistir, mas amanheceu novamente.

Porque ser você não significa ser uma criatura perfeitamente coerente.

Significa carregar muitos mundos dentro do mesmo peito e, ainda assim,
continuar procurando um caminho entre eles.

Você também é aquilo que ama quando ninguém manda amar.

Aquilo que defende quando não existe recompensa.

Aquilo que faz quando ninguém está olhando.

As pequenas escolhas silenciosas dizem muito mais sobre uma pessoa do que os grandes discursos feitos diante de uma multidão.

Talvez caráter seja justamente aquilo que permanece quando desaparece a plateia.

Mas existe algo ainda mais profundo.

Você também é aquilo que procura.

Há pessoas que passam a vida procurando dinheiro.

Outras procuram reconhecimento.

Algumas procuram poder.

Outras procuram paz.

Há quem procure respostas.

Há quem procure perdão.

Há quem passe uma existência inteira procurando uma casa que talvez não seja feita de paredes,
mas de alguém diante de quem finalmente possa dizer:

“Aqui eu posso ser eu.”

Aquilo que procuramos revela muito sobre aquilo que somos.

Porque nossos desejos são espécies de bússolas secretas.

Eles apontam para lugares que nossos discursos nem sempre conseguem confessar.

E você também é suas perguntas.

Talvez até mais do que suas respostas.

As respostas envelhecem.

As certezas mudam.

As convicções amadurecem.

Mas existem perguntas que atravessam uma vida inteira:

Quem sou?

Por que estou aqui?

O que realmente importa?

A quem amei?

Quem amou melhor porque me conheceu?

O que deixarei quando partir?

Talvez viver seja passar anos tentando responder essas perguntas e descobrir, perto do final,
que o importante nunca foi terminar o questionário.

O importante foi a pessoa em que nos transformamos enquanto procurávamos as respostas.

Por isso, quando pergunto:

O que te faz ser você?

Não me diga apenas onde nasceu.

Conte-me onde renasceu.

Não me fale somente das suas vitórias.

Conte-me sobre a derrota que mudou sua maneira de enxergar o mundo.

Não me mostre apenas suas fotografias sorrindo.

Conte-me sobre a noite em que chorou sozinho e, mesmo assim, levantou-se na manhã seguinte.

Não me diga somente quem você ama.

Conte-me como você ama.

Não me fale apenas da sua fé.

Conte-me sobre as dúvidas que precisou atravessar para chegar até ela.

Não me mostre apenas suas cicatrizes.

Conte-me o que elas ensinaram.

Porque talvez você não seja uma coisa.

Talvez você seja uma travessia.

Uma obra que nunca fica completamente pronta.

Uma história que continua sendo escrita mesmo quando acredita ter chegado ao último capítulo.

Você é um pouco de ontem.

Um pouco de hoje.

E também alguma coisa que ainda não existe, mas silenciosamente está tentando nascer.

Talvez por isso seja impossível responder definitivamente à pergunta:

“Quem sou eu?”

Porque enquanto houver vida, haverá transformação.

E enquanto houver transformação, haverá alguma parte de nós ainda desconhecida esperando ser encontrada.

No fim, talvez aquilo que faça você ser você não seja apenas o que recebeu da vida.

Nem somente aquilo que perdeu.

Nem seus acertos.

Nem seus erros.

É a maneira como juntou todos esses pedaços e decidiu continuar.

Você é aquilo que a vida escreveu em você.

Mas é também aquilo que, apesar de tudo, você decidiu escrever de volta na vida.

No Fim do Poema

No fim do poema não há ponto final.
Há uma cadeira vazia na cozinha,
o café esfriando enquanto a tarde decide
se fica ou se vai.

No fim do poema, a rua continua.
O ônibus passa cheio de histórias que não cabem em verso,
o vendedor grita o preço do dia,
e alguém chora baixo no celular
como quem pede desculpa por existir.

No fim do poema, a gente aprende
que nem tudo vira metáfora.
Algumas dores ficam literais demais,
algumas alegrias pequenas demais,
e a vida segue escrevendo em prosa
o que a poesia não deu conta.

No fim do poema, sobra o corpo.
Cansado, insistente, vivo.
Sobra a respiração que falha, mas volta.
Sobra a memória tropeçando em si mesma,
lembrando do que foi
e inventando o que ainda pode ser.

No fim do poema, ninguém aplaude.
A luz não se apaga de repente.
O mundo não entende que aquele verso era despedida.
E tudo bem.
O mundo nunca soube ler direito.

No fim do poema, começa outra coisa.
Talvez não seja bonita,
talvez não rime,
talvez não salve ninguém.

Mas anda.
E enquanto anda,
vai escrevendo.

“O Mundo e as Palavras”

Como fazer uma poesia se o mundo não vive uma poesia? Olho pela janela e vejo pressa, vejo indiferença, vejo gente passando por gente como se fossem sombras. Onde está o verso nesse corre-corre sem sentido? Onde está a rima nesse barulho que não cessa?
Como falar de amor se o mundo não ama mais? As pessoas tocam telas, não mãos. Enviam corações digitais, mas esqueceram como se abraça de verdade. O amor virou pressa, virou conveniência, virou algo que se descarta quando incomoda. E eu aqui, com palavras antigas tentando descrever um sentimento que parece fora de moda.
Como escrever histórias se o mundo não faz mais histórias bonitas que tocam o coração? Tudo é rápido, superficial, descartável. As narrativas viraram manchetes, os encontros viraram notificações, os sonhos viraram metas de produtividade. Ninguém mais se senta para ouvir uma história completa. Querem o resumo, a versão curta, o final sem o caminho.
Como prometer um mundo diferente se o mundo não quer mudar? Ele insiste nos mesmos erros, repete as mesmas dores, ignora as mesmas lições. Falo de esperança e me olham como se eu falasse língua estrangeira. Falo de transformação e dizem que sou ingênuo.
Mas talvez seja exatamente por isso que preciso continuar. Porque se o mundo não vive poesia, alguém precisa escrevê-la. Se não há amor suficiente, que eu possa oferecer o meu. Se as histórias não tocam mais, que eu insista em contar aquelas que fazem o coração lembrar que ainda bate.
Talvez mudar o mundo comece justamente quando nos recusamos a aceitar que ele não pode ser diferente.​​​​​​​​​​​​​​​​

“Além das Medidas”

O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo. Não cabe nos mapas, não se mede em quilômetros nem se pesa em balanças de ouro.
É um sentimento que escapa pelas frestas do possível, que transborda os oceanos e se derrama sobre montanhas invisíveis.
Quando te penso, o universo fica pequeno.
As estrelas são apenas pontos tímidos comparados ao brilho que carregas nos olhos. A vastidão dos mares se torna uma poça d’água diante da profundidade do que sinto. O mundo gira, mas meu amor permanece fixo, imenso, inalterável como uma constelação que só eu consigo ver.
Não há atlas que contenha este sentimento, não há horizonte que o limite. Ele existe num lugar próprio, numa geografia secreta onde só habitam duas pessoas: eu, que amo, e tu, que és amada. Ali, nesse território sem fronteiras, construímos uma dimensão maior que todas as outras feita de instantes, de silêncios partilhados, de promessas sussurradas ao vento.
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo porque criou um mundo próprio, infinito, eterno.

Ainda Assim, Respiramos

Vimos tudo.
Mas não deixamos que tudo nos leve.

O mundo gritou alto demais,
rasgou papéis,
confundiu nomes,
trocou cuidado por ruído.
E nós, cansados,
ficamos olhando.

Não por covardia.
Por sobrevivência.

Há dias em que resistir
é apenas levantar da cama,
é continuar sentindo
quando sentir dói.

Somos testemunhas, sim.
Mas também somos silêncio fértil,
olhar atento,
memória que não se apaga.

Enquanto o palco treme,
há quem plante esperança nos cantos,
quem acenda pequenas luzes
longe dos holofotes.

Nem todo gesto é barulho.
Nem toda força é grito.

Às vezes, viver
já é um ato de coragem.
Às vezes, respirar
é a forma mais bonita de ficar.

E mesmo quando parece pouco,
é o suficiente
para que a manhã volte
devagar
mas volte.

Entre Livros e Sombras

Há livros que não apenas ocupam as mãos; eles transformam a alma.

Foi entre páginas silenciosas que compreendi que as sombras não são moradas, mas caminhos. Elas atravessam nossa existência como a noite atravessa o céu, sem jamais conseguir apagar a promessa do amanhecer.

Cada leitura me ensinou que a verdadeira sabedoria não está em possuir todas as respostas, mas em cultivar perguntas que aproximam o coração do eterno. Quanto mais conheço a vida, mais percebo o quanto ela permanece envolta em mistério.

Os livros me apresentaram autores que se tornaram mestres, pensamentos que desafiaram minhas certezas e palavras que enxugaram lágrimas invisíveis. E, entre tantas páginas, encontrei a presença silenciosa de Deus, conduzindo meu espírito com delicadeza e esperança.

Hoje caminho entre livros e sombras sem temor. Sei que as sombras passam, a verdade permanece e a esperança continua iluminando o coração de quem nunca deixa de aprender.

Porque, no fim, cada livro verdadeiro acende uma luz que continua brilhando muito depois que a última página é virada.

A arquitetura da alma

Assim como uma casa não se sustenta sem alicerces, o homem também não permanece de pé sem uma estrutura interior. A alma possui sua própria arquitetura. E tudo nela depende daquilo que, em silêncio, foi sendo construído ao longo do tempo: hábitos, valores, renúncias, convicções, memórias e fidelidades.

Há homens belos por fora e arruinados por dentro. Há homens simples por fora e majestosos por dentro. Isso porque a verdadeira grandeza não está no acabamento aparente, mas na solidez do que foi erguido no invisível. A alma mal construída desaba diante de elogios excessivos, críticas duras, desejos desordenados ou perdas inevitáveis. Já a alma bem arquitetada atravessa tempestades sem perder completamente a forma.

Construir a alma exige trabalho paciente. Ninguém se torna justo por acaso, nem sereno por impulso, nem sábio por aparência. Cada escolha é um tijolo. Cada renúncia limpa o terreno. Cada verdade aceita fortalece as colunas. Cada queda enfrentada com humildade reforma rachaduras internas. O homem vai se tornando morada de si mesmo.

Mas toda arquitetura revela uma intenção. A pergunta essencial é: para que estamos construindo? Há almas erguidas para a vaidade, para o poder, para a aprovação. E há almas construídas para a verdade, para o amor, para a responsabilidade e para o bem. Só estas permanecem habitáveis quando a vida endurece.

No fim, o legado de um homem não é apenas o que ele deixou no mundo, mas aquilo que ele edificou dentro de si. Porque a alma é a obra mais importante que alguém pode construir. E quando ela se torna firme, clara e justa, passa a servir de abrigo não apenas para si mesma, mas também para todos os que dela se aproximam.

Cartografia do teu corpo

Teu corpo não é carne.
É geografia.

Teus ombros são margens onde descanso o cansaço,
e teu peito, um chão firme
onde minha respiração aprende a ficar.

Há curvas em você que não pedem pressa,
pedem leitura.
Como quem percorre uma estrada sem mapa,
aceitando se perder só para continuar.

Quando você se aproxima,
meu corpo entende antes de mim.
A pele vira escuta,
o pulso acelera como se reconhecesse
um idioma antigo.

Não é toque ainda
é intenção.
E a intenção pesa mais que a mão.

Seu corpo me chama sem palavras,
como chamam os lugares que a gente sonha morar
antes mesmo de saber o endereço.

E eu fico ali,
entre a vontade de entrar
e o respeito pela porta.

Porque há desejos que não querem urgência,
querem permanência.

E o meu, quando te vê,
não quer te possuir.
Quer te habitar devagar.

Entrelinhas

Ela diz que não gosta quando escrevo sobre ela.
Diz com a voz firme,
mas com os olhos curiosos.
É curioso isso:
quem não quer ser verso
não pergunta se é poema.
Ela passa por perto quando escrevo,
finge desatenção,
mas desacelera o passo.
Não lê,
mas tenta.
Não pergunta,
mas espera.
Existe nela um desejo discreto
de se reconhecer nas entrelinhas,
de descobrir se o segredo mora em alguma metáfora, se o nome dela cabe em sinônimos,
se o amor sabe se esconder.
Meus segredos ela conhece.
Não os detalhes,
mas a essência.
Sabe que quando escrevo sobre o vento,
é o jeito dela passar.
Quando falo de calma,
é o silêncio que ela deixa.
Quando escrevo sobre amor,
é porque não sei escrever outra coisa
que não seja ela.
Ela diz que não gosta,
mas pergunta.
Diz que não quer,
mas procura.
Diz que não lê,
mas sente.
E talvez amar seja isso:
respeitar o limite que a boca impõe
e continuar falando com o coração.
Se ela se reconhecer,
não foi porque escrevi sobre ela.
Foi porque ela sempre esteve
em tudo que eu escrevo.

“Se tudo o que você ofereceu não foi suficiente,
ofereça sua ausência.”

Se o seu amor não foi percebido,
se o seu cuidado virou costume,
se a sua presença deixou de ser encontro
e passou a ser apenas conveniência,
vá.

Não como quem castiga.
Não como quem deseja vingança.
Mas como quem finalmente compreendeu
que também merece ser escolhido.

Você ofereceu tempo,
e tempo é pedaço de vida.
Ofereceu colo,
quando o mundo do outro desabava.
Ofereceu silêncio,
quando nenhuma palavra poderia curar.
Ofereceu perdão,
até para feridas
que jamais deveria ter recebido.

E ainda assim,
não foi suficiente.

Então não ofereça mais.

Há momentos em que permanecer
é uma forma silenciosa
de abandonar a si mesmo.

E nenhum amor merece
que você desapareça de si
para continuar existindo
na vida de alguém.

Por isso, vá.

Leve consigo aquilo
que o outro não soube reconhecer:
a sua delicadeza,
a sua lealdade,
a sua maneira inteira de amar.

Talvez somente no vazio
a sua presença seja finalmente percebida.

Talvez seja no silêncio da casa,
na cadeira vazia,
na mensagem que não chega,
no telefone que não toca,
que alguém descubra
o tamanho daquilo que tinha.

Mas não vá esperando que sintam sua falta.

Vá porque você finalmente
sentiu falta de si mesmo.

Porque chega um momento
em que o último presente
que podemos oferecer a quem
não soube cuidar da nossa presença
é exatamente este:

a nossa ausência.

O Que Falta aos Nossos Olhos e Sobra à Nossa Vida
Há coisas na vida de que não gostamos, mas que precisamos fazer: realizar certos exames, limpar a sujeira do nosso animal, cuidar de um adulto doente ou dar banho em um idoso. Nesses momentos, reclamar muda alguma coisa? Não. Apenas gasta energia que poderia ser usada para agir.
O problema começa quando a reclamação deixa de ser uma reação e passa a ser um hábito. Aos poucos, acostumamo-nos a enxergar primeiro o que falta, o que incomoda e o que está errado. E, quando olhamos a vida por essa lente, até pequenos problemas parecem enormes.
Como bem disse minha filhinha Beatriz: “Talvez valha a pena ressaltar o quanto as pessoas reclamam de tudo, e quase ninguém vê o quão ricas já são. Ter saúde, poder escolher o que comer, ter uma cama, ter pais que nos amam e ao menos um amigo com quem contar já é algo tão grande que não faz sentido reclamarmos tanto.”
E ela continua: “Às vezes, lamentamos o emprego que não temos, o corpo que gostaríamos de ter ou aquilo que ainda não conseguimos comprar, enquanto esquecemos de agradecer pelos olhos que contemplam a natureza, pelas pernas que nos levam a tantos lugares, pela boca que experimenta novos sabores e, principalmente, pela vida que ainda temos. Podemos ter muito, mesmo tendo pouco. Basta aprender a perceber.”
Talvez esteja aí uma das grandes escolhas da vida: olhar para o que falta ou perceber o que já temos.
A reclamação fixa os olhos no problema; a gratidão amplia o olhar para a vida. Se algo precisa ser mudado, que busquemos soluções. Se a insatisfação for inevitável, que saibamos expressá-la sem transformá-la em um modo de viver.
No caminho, aprendi que reclamar não encurta a distância, não diminui a subida e não torna a caminhada mais leve. Mas a gratidão muda a maneira como caminhamos.
Por isso, antes de reclamar daquilo que falta, talvez devêssemos agradecer por aquilo que permanece.
Afinal, pode haver alguém, em algum lugar, desejando exatamente a vida que hoje temos.
Peregrino Nino Carneiro

“Não culpe o amor,
se você não é digno dele.”

Ladu Rodeo